31 de ago de 2010

Feitiço do tempo

Comprei no sebo um voluminho de contos de Otto Lara Resende (professores adoram livros de contos, para os quais sempre têm intenções perversas). A edição, de 1992, principia por uma entrevista com o autor. Na última pergunta, o entrevistador se anima: “Em 1992, você comemora 40 anos de vida literária desde o seu primeiro livro, O lado humano (contos). Como se sente?”. A resposta é daquelas que ficam ecoando no cérebro: “[...] Como me sinto? Profundamente irrealizado, com um gosto terrível de incompletação e uma tremenda vontade de me reinaugurar. De começar. Há um velho em mim que não sou eu”.
Há um velho em mim que não sou eu. Realmente. Tem síntese melhor para o fato de não sermos culpados do número de dias que já vivemos? Há uma mulher de trinta anos em mim, por exemplo, que não sou eu. Posso ter respirado pela primeira vez na mesma data, até na mesma hora que muitas outras mulheres de trinta anos, mas algumas destas talvez já estejam com quarenta, cinquenta e cinco, sessenta e oito. Quem sabe começaram a se virar na adolescência, trabalharam no sol, não estudaram, estudaram pouco, pariram muito, foram exploradas por sete homens consecutivos, ficaram doentes, cuidaram de filhos ou pais doentes. Têm milênios de vida. Outras, talvez, andem ainda pelos quinze ou dezesseis aninhos, deslumbradas unicamente consigo mesmas e com o cheque especial. Uma outra leva dessas mulheres tem realmente trinta anos: são mães (ou planejam ser), são chefes de algum setor (ou planejam ser), são circenses que equilibram casa-marido-trabalho-pais-filhos com um chicote na mão direita e uma Marie Claire na esquerda. Todas viveram a mesma quantidade de rotações da Terra, mas cada qual em torno de um eixo. Número igual, durações diferentes. Nenhuma dessas mulheres de trinta sou eu.
Eu, de verdade, não cheguei ainda aos trinta. Estou há anos presa num moroso limbo pós-vinte, alegre e preocupado, expectante, ansiosamente tranquilo, sempre com ares de véspera. Não há mais adolescência – cheia de planos vaporosos –, mas a infância ainda existe de se pegar; seus cheiros e memórias estão a um esticar de braço. E o futuro não parece definitivamente instalado. Apesar do trabalho que detesto, corre um ventinho esperançoso de talvez-um-dia, uma seiva de fluidez que lubrifica os sonhos. Presumo que o ventinho sempre correrá. Para o bem ou para o mal, não me vejo mudando de mala e cuia para dentro de uma idade que não seja a minha. Não me faço nem mais nem menos realizada do que sou para atender a um número que dizem corresponder-me.
Nós nos habitamos (ou deveríamos habitar-nos) cada um a seu modo. Desconfio até que podemos ter, confortavelmente, uma linha do tempo distinta em cada cômodo de nós mesmos. Profissionalmente, tenho centenas de anos por um lado – porque cada aula dada a adolescentes malcriados pesa como décadas – e menos de duas dúzias por outro – já que a ideia de começar, reinaugurar-me em melhor caminho, nunca vai embora. Sentimentalmente, tenho a serenidade de amar como uma mulher de trinta e muitas experiências – e o ocasional frio na barriga de quem começou há dezepoucos dias. Jamais acreditei que eu não tenha sido respingada, sem querer, fora do século XIX, porém não sobreviveria sem as facilidades do XXI. Amo as possibilidades de nosso tempo; odeio suas urgências. Reservo-me, pois, o direito de reinar absolutista sobre a página da folhinha onde vou morar, o direito de pousar no livro de estória ou História que me aprouver. Não me venham com Balzac, estou com Luís XIV e não abro. O calendário sou eu.

28 de ago de 2010

Pânico na tevê

Não sei se rio, se choro, se dou um berro, se me escondo debaixo da cama, se chamo de uma vez um exorcista ou os Caça-Fantasmas. O fato é que minha tevê não está bem. Todo dia, na mesma hora, ela interrompe minha novela favorita − só para me assombrar. E aí um bando de espíritos zombeteiros invade a casa sem cerimônia me oferecendo um lugar no paraíso. Vade retro.
Até seria bacanérrimo viver nesse paraíso tão prometido, mas invariavelmente perdido: um oásis com educação em tempo integral, saúde pública de qualidade, saneamento básico, segurança e outras miragens. Mas, infelizmente, ele não existe. Ou só existe na minha tevê − que, acho eu, está com algum encosto brabo, quiçá vários.
Um deles é o tal do Zé Tucano, ectoplasma com cabeção enorme, dentes de vampiro brasileiro e motosserra a tiracolo. Vive (ou morre, sei lá) perseguindo uma fantasmona de rosto esticado e cabelo quase tão armado quanto os traficantes do Rio de Janeiro. Sorte sua que o Barbudo dos Nove Dedos − entidade poderosíssima − a protege dele e de outros bichos-papões.
E eles não são poucos: tem a Mulher Fruta-do-Conde-Drácula, capaz de torcer os pescoços de quem atravessa seu caminho; tem o Seu Florentina, antiga aberração do folclore nacional; tem a Abominável Criatura das Agulhas Negras, cujo maior prazer é furar suas vítimas até a morte; tem ainda o Fantasminha Carioca, talvez o mais assustador de todos, justamente por seu jeitinho de criança esperança e camarada... O horror, o horror!
Já consultei gurus, esotéricos, especialistas em outromundologia, até o Paulo Coelho e a Maga Patalógika, e todos foram taxativos: não há como escapar desses seres obsessores antes do dia 3 de outubro, quando os planetas do meu sistema nervoso-medroso devem finalmente se desalinhar. Enquanto isso não acontece, o jeito é espalhar água benta pela casa, não comer depois da meia-noite, guardar a tevê no porão e rezar muito, para todos os santos − até o Cramulhão dizer amém.

21 de ago de 2010

Meu limão, meu limoeiro

Deu no jornal, há pouco mais de uma semana: garotinha americana de sete anos vai pagar as próximas férias dela e da mãe (na Disney!) com os quase dois mil dólares que conseguiu vendendo limonada. Tudo começou quando a pequena Julie Murphy montou sua barraquinha em um festival de artes. Malvadamente, autoridades sanitárias fizeram da limonada um limão: interditaram a banquinha porque a menina “não tinha licença para operar como restaurante”. Se a microempresária não suspendesse as vendas, seria multada em US$ 500 – fortuna astronômica, considerando que cada copo do refresco custava módicos 50 cents. Julie saiu aos prantos do festival e o país chorou com ela. Comoção. Debates acalorados na internet.
Penalizado, o diretor do conselho administrativo da região adoçou o suco, pedindo desculpas pela burocracia agressiva e defendendo a venda de limonada como tradição dos americaninhos. O caso evidentemente ganhou a mídia, que acabou por fazer do limão um limoeiro: uma estação de tevê local e uma loja de pneus patrocinaram nova barraquinha para que Julie vendesse a bebida durante uma tarde. Os frutos de US$ 1.838,31 vão render dias suculentos em terras de Mickey, nesse finalzito de agosto.
A notícia marcou um triplo X no meu coração. Em terceiro lugar, por causa do exemplo de empreendedorismo que é bandeira dos jovens americanos de classe média. Trata-se, é fato, de uma nação financeiramente violenta – mas o jeito como a coisa termina, nas arenas de Wall Street, não é motivo para se deixar de admirar seus bons inícios. Ianquezinho que é ianquezinho não se pendura apenas em mesada de mãe: corta a grama da vizinhança, tira a neve da calçada, entrega jornal no quarteirão, se vira baby-sittando os filhos da professora. Faz a América – ainda e sempre. Não deita em berço esplêndido de cristal até os 22 anos (ou eternamente), aguardando o beijo que o acordará para o sol de um novo mundo.
Em segundo lugar, fiquei alegremente impressionada com a atitude da tevê e do comércio local em relação a Julie. Não, não vou falar de clichês que envolvam peixes e varas de pesca – pero que los hay, los hay. Quantos resistiriam à tentação de consolar a garotinha chorosa com uma boa e bem publicitária viagem (ou LCD, ou bicicleta, ou pirulito de cinco metros), que promovesse a marca em todos os sites e canais? E que moral a menina tiraria de uma fábula que lhe entregasse um castelo pelo preço de um beicinho? Em vez de virar mascote de luxo nas redondezas, a pequena Murphy ganhou de volta exatamente o que queria, exatamente aquilo por que chorou: o trabalho numa barraquinha de limonada. Se saísse de casa sonhando vender limonada e, sem ter vendido limonada, voltasse com um par de ingressos do Magic Kingdom, ela talvez desembestasse a crer em contos de fadas, mas dificilmente creria neste mundinho que é a real world after all.
O que me seduziu na notícia em primeiríssimo lugar, porém, foi a crença em contos de fadas (por que não?) do nosso real world. A capacidade de transformar moeditas de 50 centavos em chapéus de orelhinhas redondas, de virar uma banquinha de refresco em Castelo da Cinderela, com o simples bibbidi-bobbidi-boo de uma tarde inteira de labuta. Apesar do sobrenome, Julie Murphy é a embaixadora das possibilidades felizes. Daquela mágica que não precisa de mágica, que não transfigura abóboras: paga a própria carruagem com a paciência de espremer e adoçar limões. São coisas excelentes, sim, as histórias de varinha e condão – mas indispensáveis mesmo são as (pequenas?) maravilhas que nascem à prova de doze badaladas.

15 de ago de 2010

Balabanianas

Aracy é um vulcão em atividade. Um coração que não envelhece. Uma senhora locomotiva com motor Ferrari de mil cavalos. Um casarão onde cabem todas as alegrias. Um pecado rasgado, um deus-nos-acuda. Uma caixa de bombons cheia de surpresas, transas e caretas. A surpresa que sai da Toscana com sabor de mortadela; a transa que sai de baixo, de cima, do avesso; a careta que sai da Armênia com três "filhinhas" a tiracolo. Mangia che te fa bene!
Ela é Gemma Mattoli, a irmãe superprotetora, quiçá overprotetora de sua família. Uma leoa que cuida dos seus com unhas, dentes e o que mais estiver à mão: La Madonna, a sacola da feira ou até um rolo de macarrão. Ecco. O que veramente importa é desmascar la Chiara, aquela schifosa, farabutta, civettona senza pudore. Capisci?
Já foi Cassandra Matias Salão Pereira para a sociedade, Cascacu para os íntimos e Cabeção para o Caco Antibes. Atendia ainda pela alcunha de Dona Casseta, viúva de um brigadeiro que só lhe deixou de herança Magda, a filha cuja maior – senão única – especialidade era o canguru perneta e outras zoologias. Morou tempos no apê do irmão (Vavá), no Largo do Arouche, onde destilava seu laquê e desfilava vestidos coloridamente esvoaçantes: como esquecer o amarelo quindim vitaminado? Ou o roxo hematoma gigante?
Também foi Dona Armênia, um senhor de muita respeita, defensor do moral, das boas costumes e de suas filhinhas: Gérson, Gera e Gino (ou Gina, sei lá). Sua cabelo vermelha tinha tanto força e atitude, que a fez atravessar novelas – de Rainha da sucata (1990) a Deus nos acuda (1992), as duas do cambalacheiro Sílvio de Abreu –, e ela acabou se tornando um dos maiores highlanders da teledramaturgia brasileira.
Gemma, Cassandra, Armênia, Filomena, Marta, Maria Faz Favor, Violeta, Gabriela, até Shafika Sarakutian, Aracy balabaniou geral. Um gerador em altíssima voltagem, movido a muito sangue e passione. Uma atriz no limite do curto-circuito – capaz de explodir a cena, de fazer voar pelos ares gargalhadas e choradeiras, de botar o público (feliz da vida) na chon.

7 de ago de 2010

Velha infância

O cafuné de Mãe me acordando. O ônibus que sacolejava meus bocejos até a escola. A professora que segurava minha mão quando eu era o primeiríssimo da fila. O lanchinho Mirabel que eu comia todos os recreios. A troca de figurinhas com os colegas. O pique-pega, alto, parede. O purê de batata com caldo de feijão no almoço. O Xou gravado para eu ver a tarde inteirinha. Pai chegando do trabalho com mais pacotes de figurinhas e perguntando "cadê meu beijo?". A novela das sete sassaricando. O jantar que eu não lembro. Os gibis do Tio Patinhas. Os travesseirinhos inseparáveis. A hora de dormir.
Meu mundo era descomplicado. Nem nos sonhos impossíveis era tão perfeito. Como perfeito era o do pequeno Nicolau, menino inventado pelos franceses René Goscinny e Jean-Jacques Sempé (e que agora virou filme, Le petit Nicolas). Muito amado pelos pais, o garoto vivia numa casa simples mas aconchegante, tinha amigos que adorava e uma professora docinho-de-coco. Que mais poderia querer? Que resposta poderia dar à surrada pergunta que toda criança um dia ouviu: que você quer ser quando crescer? Ele não sabia, eu também não. Porque não queríamos crescer. O mundo não tinha que mudar. O mundo não tinha o que mudar.
Só que a vida de Nico (se me permitem a intimidade) sofreu uma reviravolta daquelas quando ele passou a acreditar que seus pais tinham encomendado um irmãozinho. Temendo ser deixado de lado e – pior – ser esquecido numa floresta, arrumou mil atrapalhices para mostrar a eles que era indispensável. Só que ele não agiu sozinho. Contou com a ajuda dos amigos, uma trupe intrepidamente batutinha: o Alceu, um nhonho que sonhava ser ministro só por causa dos banquetes; o Clotário, um godines que sentava na última carteira da sala e nunca sabia o que estava acontecendo; o Godofredo, um riquinho que comprava todas as fantasias que o papai podia pagar; o Agnaldo, um bumbunzinho-de-ferro que ia aos céus sempre que tinha a chance de, por exemplo, citar os principais afluentes do Sena diante dos colegas...
Esses (e outros) meninos eram de pintar o sete, enchiam qualquer tela de graça, leveza, de uma saudável ingenuidade – e mereciam nota dez por isso. Como também mereciam nota dez os pais de Nico. Os dois eram adoráveis, muitíssimo bem-humorados, embora soassem um bocado esquisitos quando nos convidavam para jantar em sua casa. Estavam sempre tropeçando na lagosta e viajando na maionese. Quantas vezes não os imaginei possuídos por um espírito tão zombeteiro quanto o Beetlejuice e dançando a "Banana boat song" pela casa. Pena que nem todo sonho bobo vire realidade colorida.
Vou sentir saudades de Nico, de sua família, de sua turma. Do mesmo jeito que sinto saudades de um tempo em que a maior preocupação era um dever de casa, em que viajar na mala de uma linda Belina azul era a maior diversão, em que toda a maldade do mundo se resumia a Odete Roitman e Maria de Fátima, em que existia um sorvete chamado Sem Nome, em que Vó corria atrás de mim e do meu irmão no quintal, em que ainda não me preocupava (tanto) com vírgulas, pontos e letras, em que "o que você quer ser quando crescer" era apenas mais uma pergunta sem resposta. Um tempo em que Nico e eu só sabíamos de uma coisa – que era bom ser moleque enquanto pudéssemos.

31 de jul de 2010

Crônica de uma morte anunciada

Desde criança, gosto de sentir o cheiro do que estou lendo. Das páginas compradas em sebo ou do livro zerinho, recém-saído da megastore. Da gramática, da lista telefônica e até da prova de vestibular. Distingo facilmente a Cláudia da Marie Claire, O Globo do Jornal do Brasil, apenas pelo aroma de folha e tinta. Loucura? Coerência, eu diria. Como todos sabem, nosso álbum afetivo é composto especialmente por pecinhas olfativas – e alguém que fez Letras não poderia guardar perfumices somente em frasquinhos de vidro. Fico, pois, um bocadinho órfã ao saber que uma página desse álbum será arrancada. Em breve, muito breve, não terei mais o aroma de folha e tinta do Jornal do Brasil: jornaleiros amigos já soltaram a nota de seu futuro falecimento.
Perder o Jotabê é como ver morrer um estado do país, presenciar a demolição de um monumento ou a falência, sei lá, da Coca-Cola (embora eu não goste de coca-cola). O Jotabê é coisa que não está: é – ou deveria continuar a ser. Durante algum tempo, fomos assinantes do bichinho, então parte das manhãs de minha infância foi tão embalada pelos quadrinhos do Caderno B quanto pela música de Cavalo de Fogo. Nos fins de semana, revista Domingo: eu lia – sem entender absolutamente nada – as colunas gastronômicas do Apicius, me divertia com as crônicas do (hoje global) Verissimo, me irritava com as bobagens de Tutty Vasques, me intrigava com os filmes anunciados nas páginas em preto e branco – sim, a Domingo tinha páginas em preto e branco, depois transferidas para a revista Programa das sextas-feiras.
Mesmo após largarmos a assinatura, acompanhei a eleição da “Musa do Verão” de vários anos, a contagem regressiva para a Domingo de número mil, as inteligências do caderno Ideias, o nascimento da Programa como hoje a conhecemos, cada transformação no design da minha querida revista de sexta – da qual me tornei dependente. Eu e minha irmã. Chegamos ao cúmulo de, morando na mesma casa, comprarmos dois Jotabês a cada sexta-feira, só para cada uma ter a sua Programa. A minha eu não amasso, não dobro, quase não carrego na pasta: conservo protegida, aninhada dentro do jornal em que ela veio, até a edição seguinte. Por que dentro do jornal? Para que ela não perca seu cheiro característico, o aroma de Jotabê que eu, maluca, preciso que ela tenha.
Quando o Jornal do Brasil enxugou as formas, colocando-se em tamanho de tabloide, soou o alerta: economia de papel. Percebi que a coisa andava feia, mas não queria acreditar que meu amigo velho de guerra perderia a batalha. Infelizmente, perdeu. Perdeu para as nojices compradas a 50 centavos, os arremedos de jornal sem cheiro de infância, com gosto salgadinho de sangue. Não digo que tenha perdido para O Globo, porque este foi sempre um digno (e cada vez melhor) vencedor. Perdeu, sim, para a ignorância e a preguiça em sua pior espécie, a leitura acomodada, o sensacionalismo marrom. Sempre os houve, mas sempre houve também quem esperasse mais do que a notícia (e a não notícia) pingada nos olhos a conta-gotas, previamente mastigada. Não há mais. Pelo menos, não há quorum suficiente no Rio de Janeiro para mais de um jornal – que faça jus ao nome.
Acabou o Jotabê impresso. Agora, só cristalizado na internet, preso num aquário virtual sem aroma de folha e tinta. Acabou uma era longa e bonita, começada em 1891. Que venham os fins de semana sem Domingo, as sextas-feiras sem Programa. E um país progressivamente sem Ideias.

24 de jul de 2010

De malas (des)feitas

Dias atrás, eu lia na Revista da TV dO Globo uma entrevista com a dramaturga Elizabeth Jhin. Impressionei-me com um comentário da autora: “(...) é estranho porque todo mundo se prepara para tudo: estuda para entrar numa faculdade; faz curso de noivos para se casar; quando vai ter filhos, lê um monte de livros sobre bebês; até para preparar um bolo você precisa estudar uma receita. E para a morte, que é a única coisa certa na vida de todo mundo, ninguém se prepara”.
Apesar de não ser exatamente indiferente à ideia da morte, eu nunca tinha elaborado o pensamento dessa forma, e a considerei perfeitíssima. Absurdamente genial pela própria simplicidade sem tabus, sem rodeios. Somos educados para continuar, não para terminar. Pergunta-se às crianças o que elas pretendem se tornar ao crescer – mas jamais lhes perguntam quem desejarão ter sido ao morrer. Recomenda-se aos universitários que engordem o curriculum vitae com mestrados e doutorados sem fim – mas ninguém lhes recomenda que seu curso de vida chegue bastante caudaloso a seu fim. Quer-se saber quando os jovens namorarão, quando os namorados casarão, quando os casados produzirão novas vidas – mas dificilmente se quer saber se todas essas vidas produzirão boas mortes. Obcecados que estamos pelo transitório, fingimos não ter tempo para pensar no definitivo. De fato não temos tempo: somos (tolamente cegos, pavões indefesos) tidos por ele.
Como nos preparar para a morte? Mais ou menos ao contrário do que fazemos com a vida. Para viver, abarrotamos as malas rumo à maior das viagens: mais bens, mais figurinos, mais diplomas, mais informações, mais contracheques, mais celulares, mais seguidores, mais experiências, mais clientes. Arrastamos um trailer de bagagem ao longo do caminho, sempre de olho no próximo minuto.
Para morrer, estaremos tão mais preparados quanto mais coisas formos deixando pela estrada. Quanto mais histórias contarmos, em vez de as guardarmos para o livro que talvez não chegue a ser escrito. Quanto mais perdões concedermos, em vez de os estocarmos à espera do pedido que nunca será feito. Quanto mais brinquedos presentearmos, em vez de os encaixotarmos para o filho que não teremos. Quanto mais abraços distribuirmos, em vez de os reservarmos para os grandes amigos que não viremos a conhecer (ou que não conseguiremos reencontrar). Quanto mais conhecimento partilharmos, em vez de o destinarmos apenas ao emprego que não acredita em salvar o mundo. Quanto mais tempo emprestarmos. Quanto mais exemplos dermos. Quanto mais ouvidos (e mãos) oferecermos. Quanto mais conselhos. Quanto mais gargalhadas. Quanto mais sementes.
Quanto menos houver de exclusivamente nosso, no fim, mais equipados estaremos para ancorar sem desvios de rota. Check-in bem-sucedido é o do viajante que chega a seu porto com as malas suficientemente vazias.

17 de jul de 2010

It's raining...

Sol e chuva não dão casamento de viúva, nem chuva e sol dão casamento de espanhol. Podiam dar casamento de viúva com espanhol, mas não. Eles dão arco-íris, daqueles cheios de energia, todo trabalhado no technicolor. E, no final desse arco-íris, não está um pote de ouro. Está, sim, um pote de purpurina – uma casa de espetáculos chamada A Gaiola das Loucas.
Lá vivem felizes para sempre Georges e Albin: ele (ou ela) se transforma em Miguel Falabella – dono do cabaré mais famoso da Riviera, a Gaiola –, entretém seus convidados, tem vozeirão que até desengana, faz senhores, senhoras e o (não tão) respeitável público gozar de tanto rir de seus cacos e cassandras; o outro (ou outra) se transforma em Diogo Vilela – a estrela Zazá, nas horas de palco –, chama plumas e paetês para si, canta e encanta como uma "senhora" que apenas é... o que é, não importa a maquiagem.
Eles formam um casal como qualquer outro. Têm suas briguinhas, seus altos e baixos, mas estão juntos há mais de vinte anos. Têm também um filho, o Jean-Michel, que, como todo bom menino, gosta de contrariar os pais – e dá para gostar de meninas. O amor de sua vida é a docinho Anne, filha de Édouard Dindon, presidente do Partido da Família, Tradição e Moralidade (PTFM), uma bicha má que promete varrer da pista todos os espécimes "alegres" da Riviera, caso seja eleito (eleito a quê, só Gloria Gaynor sabe).
Que situação. De ficar bege, quase creme, indo para um areia clarinho, bem Búzios. Mas abafa o caso, que tudo há de se ajeitar no final. Antes, porém, o – a esta hora da madrugada – nadíssima respeitável público se diverte com canções engraçadinhas, como "Masculinity" (em que Georges tenta ensinar Albin a comer um croissant feito John Wayne), fofas, como "With Anne on my arm" (em que Jean abre o coração para seu papá), ou simplesmente montadas na emoção, como "I am what I am" (em que Albin shouts out loud que ele é o que é). Um luxo!
Vale demais fazer uma visitinha à Gaiola e conhecer suas "meninas" maluquinhas. Sem meda. O babado é fortíssimo, as perucas saem do armário, mas a plateia sobrevive. Eu sobrevivi. Minha pequena sobreviveu. Papai e mamãe sobreviveram. Embora eu não goste de bancar a Madame Zoraide, (quase) posso garantir: você sobreviverá. Especialmente se for simpatizante – dos bons musicais, é claro.

11 de jul de 2010

Jabulani e mais dez

Juro que tentei. Me esforcei ao máximo. Até catei outro assunto "da hora" nos sites de notícia e de busca, mas só me ofereceram o goleiro Bruno, a Dilma Rousseff e o José Serra. Aí achei melhor declinar. E me render à Copa, ainda que aos 45 do segundo tempo. Tinhosa feito a Jabulani, ela acabou me pegando. Na veia. Onde a coruja dorme.
Quer dizer, o Mundial não me pegou exatamente pelo futebol, muitíssimo menos pela seleção do Dunga, que, mesmo com tantos volantes, parecia sem direção (não foi à toa que nossa eliminação começou com uma "batida feia" entre Felipe Melo e Júlio César). Na verdade, o que mais chamou minha atenção sempre esteve fora das quatro linhas. A exceção, óbvio, foi a Jabulani, a bola mais "celebridade" da história das Copas. Periga ela aparecer no próximo Big Brother e faturar – com justiça – o prêmio.
Mas a Copa não foi só dela. Houve outros momentos dignos de nota (em qualquer coluna social): o delicioso rebolation da Shakira no show de abertura; as caras, bocas e besitos, à beira do campo, daquele-que-se-diz-melhor-que-Pelé; o polvo alemão que desbancou Mãe Diná, Robério de Ogum e Madame Mim; o mundo inteiro pedindo para que o Galvão Bueno calasse a boca; a campanha para que o Caio Ribeiro fosse libertado de seu cativeiro global; a torcida animadíssima de Larissa Riquelme pelo seu Paraguai... Ai, ai, ai, ui, ui!
Como não só de beldades vive um Mundial, tivemos também o velho Mick Jagger, que, como torcedor, é um excelente líder dos Rolling Stones; o ainda novo Cristiano Ronaldo, que, como jogador, foi o melhor garoto-propaganda do Gel do Seu Manuel; as onipresentes vuvuzelas, que, esperamos, sejam terminantemente proibidas em 2014; e os discursos improvisados do companheiro Lulalá, que, esperamos, sejam terminantemente proibidos em 2014, 2016...
Por essas e outras (que não caberiam neste top eleven), já está na história a primeira Copa na África. Claro, talvez tenha faltado um time da casa entre os semifinalistas – o que, cá entre nós, seria uma zebraça e confirmaria o jeitão de safári da festa. Mas la mano de Dios não quis assim, fazer o quê. Com ou sem zebra, o Mundial à africana cumpriu – com sobras – sua maior promessa: a de que a "fauna" seria exuberante...

5 de jul de 2010

Não é brinquedo não

De vez em quando, cai bem fazer um check-upzinho pra ver se tudo continua em cima. Neste caso, vai uma sugestão. Se quiser ter a certeza de que permanece tão humano quanto no último exame, vá assistir a Toy story 3. Saiu de coração e olhos sequinhos, incólumes, invictos? Meu amigo, sinto informar que você exagerou na blindagem e se aposentou do mundo. Gente que é gente – pele, carne, osso, nervos – chora em Toy story 3. Ou tenta não chorar. Ou fica arrepiada. Ou fica incomodada. Ou fica nostálgica. Ou suspira. Ou soluça. Ou passa os dez minutos finais engolindo os soluços para, pelo menos, não aumentar o vexame. Ou todas as anteriores. Mas dos totalmente invulneráveis eu tenho medo, muito medo. Não vou querer encontrar um desses num beco à meia-noite. De preferência, nem na rua ao meio-dia.
Eu? Eu nunca tentei (tanto) não chorar tanto em um filme. Chorei, o Fábio chorou, saímos de olhos vermelhos, no banheiro chorei mais, choro mais ainda ao me lembrar da história – inclusive enquanto escrevo este úmido texto. Se for indício de humanidade, estou candidata ao Nobel. TS3 não é brincadeira. Sim, é um filme sobre brinquedos, aqueles mesmos que há tanto conhecemos: Woody, Buzz, Jessie, Sr. e Sra. Cabeça de Batata, Rex, Slinky, Porcão, Bala no Alvo e – meus preferidos – os etês fofíssimos do Pizza Planet (“Salvou nossas vidas! Seremos eternamente gratos!”). Aliás: é um filme com brinquedos. Mas nunca foi tão demasiada e humanamente sobre nós. Sobre o tempo e o que fazemos dele. Sobre o tempo e o que ele faz da gente. Sobre o tempo e o que fazemos com o que ele nos fez.
Apesar da aventura ritmada e dos alívios cômicos – como a metrossexualidade de Ken e o lado caliente que aflora em Buzz –, o que fica de Toy story 3 se resume na dúvida do Fábio, que saiu do cinema com a estranha sensação de não saber se seus brinquedos antigos, doados, haviam encontrado um lar feliz ou uma creche Sunnyside (o “inferno” da história). “Que pergunta doida, a gente sabe que os brinquedos não sentem e falam de verdade”, ele próprio se censurou. Não importa. A questão procede. Woody, Buzz, meus queridos etezinhos e os demais bonecos não estão no filme para se ser. Nem para ser os brinquedos que tivemos. Eles nos são. Encarnam aquela parte coloridamente essencial de nós mesmos, quase sempre amassada e soterrada por pilhas de seriedade, medo, tempo e exaustão que lhe jogamos por cima.
Se saímos massacrados da sessão, não é porque nos perguntamos quem ficou com a boneca Anjinha ou o carrinho Teteco, que nos conheceram aos cinco, sete, dez anos. Perguntamo-nos, sim, onde passou a morar aquilo que tanta importância teve para nossa parte colorida. Onde passou a morar nossa parte colorida. A quem (ou a que) entregamos nossa parte colorida. Em que mãos depositamos aquela pessoa que começou nossa vida em nosso lugar. Aquela pessoa que construía histórias com as folhas do jardim – antes de as construirmos com palavras. Aquela pessoa que acreditava em homem de capa vermelha, superforça e supervelocidade – antes de acreditarmos em salvar o mundo todo dia um bocadinho, mesmo sem sairmos voando de uma cabine telefônica. Aquela pessoa que colocava roupinhas num fósforo (!) de estimação – antes de aprendermos a cuidar de um ser vivente, às vezes até humano. Aquela pessoa, enfim, que inaugurou nossas vidas para nós, emprestando-nos a bagagem que se encheria ao longo do caminho. A pessoa que fomos antes de sermos; a pessoa que pintou um arco-íris de energia em nossos alicerces; a pessoa que (como o caubói Woody) não desistiu de nós, ainda que tenhamos temporariamente desistido dela. Aquela criatura esquisita e maravilhosa que salvou nossas vidas – e à qual seremos eternamente gratos.

30 de jun de 2010

Lollipop Guild

Um daqueles anúncios de internet na página. O slogan “descubra um mundo que já é possível” e o provocativo “passe o mouse”. Tudo bem: passe. Clicar eu não clico. Sabe-se lá o que pode vir de um anúncio de internet. Mas dar uma esfregadinha com o mouse, como quem esfrega curioso a lâmpada mágica, vá lá. Passei o mouse. O anúncio se estendeu, fez aparecer um carrinho que caminhava pela estrada. E o complemento da propaganda: “blindagem a partir de R$ 18.950”. Nos pontos da estrada em que o carrinho deslizava mansamente, dentro de sua bolha de felicidade, tudo se coloria. O cinzento da cidade se açucarava. Postes, por exemplo, eram vistos como pirulitos de Natal – aqueles vermelhos e branquinhos que os americanos chamam de candy canes. What a wonderful world.
Blindagem, claro; esse é o “mundo possível”. Santa tolice minha, Batman, achar que a minúscula inscrição abaixo do logotipo da marca – the miracles of science – teria algo a ver com progresso científico, benefícios coletivos, melhor qualidade de vida para todos, essas bobagens. O negócio é prático. Não pode vencê-los? Isole-os. Isole-se. Blinde-se. Blind-se, cegue-se, escude-se. Pague menos de vinte mil e construa sua redoma de açúcar, seu paraíso portátil, seu éden para viagem. Um universo de balas que não sejam perdidas. Entre para a Liga do Pirulito, a Lollipop Guild, como cantavam os munchkins de O mágico de Oz. Não tem 18.950 contos dando molezinha na carteira? Boa sorte com os tiroteios, os atentados, os sequestros, a vida fora da bolha. A casita de palha ou madeira prestes a cair ao primeiro sopro do Lobo Mau.
Não estou irônica e polianamente sugerindo que não devamos nos blindar, ou que seja feio e careta ter medo. Os cariocas somos escaldados por natureza, apavorados de fábrica. Antes de sacar a chave de casa, dou uma espiada no entorno, em todas as direções da rosa dos ventos. Ando engalfinhada na bolsa, passo longe de qualquer bicicleta ou moto ou pivete que dê pinta – ou não dê pinta – de querer arrancá-la. Uso o caixa eletrônico com o sigilo de um Ethan Hunt em plena missão impossível. Sim, eu blindaria até o corpo se pudesse. No Rio de Janeiro, nunca se sabe. No Brasil, nunca se sabe. No planeta Terra, nunca se sabe. Eu sei, porém, que proteger-se é uma coisa; ter a petulância de chamar a proteção de “um mundo possível” é outra bem diferente.
Blindemo-nos, mas com uma condição: não pensemos que resolve. Não pensemos em nenhum “agora sim”. Pensar “agora sim” nos faz ter a sensação de que, seguros, podemos nos aposentar do mundo – aquele único mundo possível, ainda e sempre coletivo. Aquele que ainda não vem (que nunca virá) em porções individuais, de bolso. Blindagem não é passaporte para dimensão paralela, nem cidadania garantida em outro planeta. Dentro de seu carro, de seu condomínio, de seu abrigo nuclear, a Constituição permanece a mesma. O hino também. Os postes não viraram pirulitos, os pedestres não perderam a capacidade de sangrar, os vizinhos não se tornaram imunes à dengue, aids, gripe suína, fogo, música alta às 2h da madrugada. Nem você, aliás. A rua continua cheia de moradores. Os moradores de Alagoas continuam precisados de casas, roupas e alimentos. Sua mulher continua esperançosa de um minuto de atenção. Seu filho continua necessitado daquela boa e carinhosa bronca. Todos ainda o aguardam, todos ainda esperam você dar expediente, o escudo não substitui livro de ponto. Armadura não é alforria de mundo. Blinde-se, mas continue na ativa.
Continue passando resolutamente o mouse, mas sem clicar em anúncio de internet. Nunca se sabe.

25 de jun de 2010

Superpop

Quem nunca quis ser um super-herói de verdade? Sair voando por aí, combater o crime, salvar a humanidade. Eu mesmo: já fui de Super-Homem a Change Dragon e, modéstia à parte, dei conta de todos os Lex Luthors e Gyodais. Pois é essa brincadeira de moleque, esse sonho juvenil de todos nós, o ponto de partida de Kick-Ass, ultrafilme baseado na graphic novel homônima escrita por Mark Millar e ilustrada por John Romita Jr.
Dave Lizewski é um adolescente inseguro (dããã... redundância...), com jeitão de nerd, aficcionado por HQs, cujo único "superpoder" é ser invisível para as garotas. Um belo dia ele decide comprar um traje de cores berrantes na internet e se transformar no justiceiro que dá nome ao longa. Claro, as coisas não dão certo de início; afinal, o rapaz é alguém que "apenas existe". Mas nada que alguns acidentes (não, Dave não é picado por uma aranha) não mudem o rumo da história...
Graças a um instante de verdadeiro heroísmo (e às onipresentes câmeras de celulares), Kick-Ass acaba virando um megahit no Youtube, o que atrai não só a atenção de fãs, mas também de um vilão mau, nada a ver com o Pica-Pau – o mafioso Frank D'Amico. Sorte do nosso "herói" que ele encontra os superamigos (super mesmo) Big Daddy e Hit-Girl para salvá-lo do perigo: de um lado, um Nicolas Cage se divertindo à beça como uma espécie de Cavaleiro das Trevas; de outro, uma garotinha com ares de indefesa, meio mangá, meio a Noiva (de Kill Bill), quebrando – literalmente – tudo. Uma dupla com muita dinâmica.
Politicamente incorretíssimo e pop até a última gota de sangue, Kick-Ass é um superfantástico remix de referências: se não bastasse ir de Ennio Morricone a Mika sem pudor, consegue ser a um só tempo violento (como na corajosa cena em que dois personagens são espancados – até a morte? –, com direito a transmissão ao vivo pela tevê e pela internet), cômico (como nas sequências em que Kick sai à procura de um gatinho perdido ou em que sua mãe é vítima de um aneurisma) e terno (como no desfecho, levemente doce e otimista). Uma mistura improvável e poderosamente colorida, que leva os filmes de super-heróis ainda mais alto e avante.

18 de jun de 2010

Muito barulho por tudo

Não preciso escrever que não sou exatamente uma fã de futebol: todos sabem disso. Também vou evitar chover no encharcado – o que eu provavelmente faria ao lamentar, por exemplo, que o patriotismo brasileiro se limite a aparecer de quatro em quatro anos e nunca se volte para coisas mais importantes do que uma bola rolando, ou períodos mais duradouros do que os noventa minutos de bola rolando, ou pessoas mais determinantes para o país do que as onze que correm atrás da bola rolando (e aquele que comanda apenas essas onze). Acredito em toda a political stuff, mas vou momentaneamente tirar meu time de campo – evitando também essa metáfora-clichê, para não parecer infame.
Justamente para não dizer o quanto eu gostaria de um Brasil menos supérfluo, menos deslumbrado, não menos festivo mas menos festeiro, que tivesse na folia uma consequência natural dos dias e não sua própria razão de ser, vou falar das vuvuzelas. É o ano delas: aquelas cornetinhas infernais que têm transformado os jogos e as ruas em manicômios a céu aberto. Sim, sempre houve cornetinhas infernais e torcedores barulhentos, e nem eu mesma defendo que se torça pelos respectivos bafana bafana silenciosamente. O exagero, porém, tem sido assustador. Nunca na história deste país, ou de outros países, deu-se paixão tão histérica pelo barulho e tamanho desprezo pela gentileza sonora, pela delicadeza, pelo comedimento. Não basta mostrar alegria: há que se mostrar desespero. Um desespero de mostrar-se, fazer-se visto, sinalizar-se no mapa com a sutileza de um facão de bandeirante.
Não me restrinjo aos estádios da Copa. Todas as existências são vuvuzeladas obsessivamente. Nas escolas, alunos "comunicam-se" aos brados com o professor que está a vinte centímetros de distância – e gozam de gritar recreativamente nos intervalos entre as aulas, ou (de preferência) nelas próprias. No metrô, somos docemente forçados a acompanhar conversas alheias, cara a cara ou no celular, berradas nos mais alcoviteiros detalhes. Somos também compelidos a apreciar os gostos musicais do próximo, uma vez que os fones (quase sempre ineficazes, aliás) começam a parecer por demais incômodos. Para que usá-los, se naturalmente toda a condução se sentirá honrada ao viajar no embalo de meu funk preferido? Daí passamos ao metafórico: para que calar o privado, resguardar o íntimo, preservar o misterioso, se a ordem do dia é viver em voz alta? Casar, separar, recasar, sofrer, bater, apanhar, trair, coçar, jantar, juntar, comprar fósforos, pegar o jeans na lavanderia, trocar a fralda do bebê – tudo é mais interessante, ou aparentemente mais for real, se feito no palco. Na frente das câmeras. Debaixo dos holofotes. Sobre as páginas dos jornais. Vuvuzela-se tudo sem a beleza antiga do pudor, esse nobre sentimento que recomenda evitarmos virar ópera de nós mesmos.
"História cheia de som e fúria, contada por um louco, significando nada", matutou Shakespeare sobre a vida. Gol de placa do Bardo – quanto ao som e à fúria. O busílis é que a história vem distribuindo significados para cada vez mais nadas, e os narradores (sei não) nascem cada dia mais loucos.

12 de jun de 2010

I will

Chegou o Dia dos Namorados, a data em que pombinhos trocam presentes, beijos, abraços e o que mais eles quiserem trocar. O encontro pode ser romântico, pode ser algo brega, pode ser até inteiramente cafona. Depende do senso estético de cada um. Há casais que arriscam noites temáticas, com direito a pétalas da rosa mais vermelha sobre a cama e “Bésame mucho” de trilha sonora...

Pois é. Pensei o mesmo que o leitor: “argh!”. O Dia dos Namorados pode ir além disso. Além da história dos pombinhos. Claro, troquem um milhão de presentes, beijos, abraços e o que mais quiserem (não necessariamente nessa ordem). Mas aproveitem também o Dia – de preferência todos os dias – para recordar (o tal do trazer ao coração) o que fizeram até aquele momento e para sonhar o que farão dali em diante. Juntar passado e futuro no mesmo presente faz um bem danado.

Se esse “presente” ainda for embrulhado com um papel bonito, uma fita elegante e discreta, vale até salpicar um bocado das rosas mais vermelhas sobre a cama. Mas só um bocado. Vale baixar a luz. Vale dar play na trilha sonora. Mas evitando-se “Bésame mucho”, pois – esperamos – esta noche não será la última vez. Que tal uma canção do Elton John? Ou dos Beatles? Ou dos Bee Gees? Roberto Carlos também está valendo.

Eu vou fazer isso. Vou trocar presentes, beijos e abraços. Vou recordar a viagem inesquecível que fizemos, a comidinha diferente que experimentamos, o melhor e o pior filme que vimos. Vou sonhar a viagem inesquecível que faremos, a comidinha diferente que experimentaremos, o melhor e o pior filme que veremos. Com um bocado das rosas mais vermelhas, a luz baixa, uma boa música. Vou fazer isso todos os dias. I will.

6 de jun de 2010

Noite de cinema

É um pássaro, é um avião? Não, é o maestro Roberto Minczuk subindo no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira, para reger o tema super-heroico composto por John Williams para o mais famoso filme sobre o filho de Jor-El. Só faltou a capa vermelha.

E não faltou mais nada. A noite começou com a visão do Municipal dominando a Cinelândia. Luzes novas, tintas novas, e o charme nada discreto das coisas antigas. A escadaria, os mármores, os vitrais, os lustres, até os banheiros são uma atração à parte – não só merecem a visita, como muitas fotos.

Voltemos, porém, ao concerto, o tributo a John Williams que valeu tão-somente minha segunda vez naquele teatro. A primeira de fato inesquecível. Depois de sobrevoar Metrópolis, vieram os acordes hitchcockianos de Tubarão, capazes de fazer gelar minha espinha mesmo estando a uma distância segura do mar. Ainda bem que, para diminuir a tensão, a trilha seguinte nos levou até Hogwarts. Cerveja amanteigada na veia.

Terminada a magia da pedra filosofal, os ouvidos ficaram mais jazzísticos, com o tema central de Prenda-me se for capaz, a prova de que Williams consegue escapar da pompa sonora dos épicos sem perder a circunstância das histórias mais intimistas. Mas esse parêntese minimalista durou pouco. Logo Minczuk, como se pusesse o chicote na cintura e o chapéu na cabeça, reiniciou a busca pela Arca da Aliança – a marcha vibrante de Indiana Jones antes do intervalo de quinze minutos.

Na volta (após a aventura dos banheiros lotados), uma paradinha no bar do teatro para comprar água. Copinho de plástico sobre o balcão, e um leve trepidar – tum, tum – fez o líquido tremer. Ninguém mexe um fio de cabelo. A visão do T-Rex é baseada no movimento. Brincadeirinha. Só para dizer que a trilha da vez era a de Jurassic Park, um tema que fascina (quase) tanto quanto os dinossauros de Spielberg.

Em seguida, veio o violino triste, triste de A lista de Schindler, de fazer a plateia tirar os lenços dos bolsos. Felizmente, o clima holocáustico não foi suficiente para levar ninguém até o lado negro da Força. Já os acordes inconfundíveis da Marcha Imperial, regidos pelo próprio Darth Vader (com seu sabre de luz vermelho)... estes, sim, fizeram o público delirar e aplaudir de pé o vilão mais amado (e pop) do cinema.

Last but not least, Minczuk e orquestra encerraram a noite com a provavelmente mais lírica peça de John Williams, E.T., um delicado voo de bicicleta sobre as notas musicais, e a lua ao fundo, enorme e romântica. Gran finale para a mais incomum sessão de cinema a que assisti, em que os olhos – sempre tão imprescindíveis – deram lugar aos ouvidos. Bravo! Bravíssimo!

31 de mai de 2010

Força do hábito

Assisti ao novo filme de Woody Allen, Tudo pode dar certo. Mediozinho – no máximo. A não ser que o leitor seja um daqueles que levariam o diretor para uma ilha deserta, eu garanto: pode evitar o longa sem remorsos. Nenhum filme, porém, passa totalmente em branco; no caso deste, o maior interesse (para mim, pelo menos) foi criado pela relação do protagonista Boris com a lolita Melody Celestine. Rabugento e misantropo até o último fiapinho de DNA, Boris simplesmente não quer gente. Melody acontece em sua vida e sua casa, como um toró: vem de não sei onde e vai ficando, ficando. Sem muito que fazer durante esse longo gerúndio, ela começa a se apaixonar por Boris, que obviamente a rejeita. O chato insiste que a moça procure um homem mais jovem e mais feliz – até que passa a se incomodar com a ideia (e mais ainda com o fato) de ela sair com um homem mais jovem e mais feliz, ou com qualquer outro homem. O passo seguinte é o casamento de Boris e Melody. Sim, você e eu já vimos esse filme com outros títulos, em outras salas de cinema. É um daqueles filmes (ao menos até certo ponto do enredo) em que o casal não surge, apenas se reconhece. Se constata. Um daqueles amores que não nascem do amor, e sim do costume.
Sei que o tenebroso “senso comum” se encarrega de detonar furiosamente esse tipo de relação. Em geral, exalta-se a romeu-julietice constante, os beijos inflamados, os olhos faiscando, os sinos repicando, o fogo, a paixão, raio-estrela-e-luar, meu iaiá, meu ioiô. O hábito, pelo contrário, é considerado um poderoso inseticida dos relacionamentos. “Não se pode cair na rotina nunca, nunca, nunca”, martela o mundo em nossos ouvidos. Quanta inocência. Afinal, mesmo os casais que não principiaram no hábito (que se conheceram no réveillon de Copacabana, no alto da Torre Eiffel, num bale de máscaras em Veneza) fatalmente chegarão a ele, caso tenham de fato se tornado um casal. Os que conviveram antes de se apaixonar, os que se apaixonaram antes de conviver – todos desembocarão em alguma espécie de rotina, estejam numa casinha com cerca branca ou dentro de um barco que dará a volta ao mundo. A principal, inevitável rotina já reside no fato de estarem sempre um com o outro. Mesmo para o mais ardente dos pares, em algum momento a presença do parceiro se tornará uma certeza macia e confortável. Um hábito.
A vilania não está nesse hábito. Ele é necessário em certa dose, como é necessário o costume de pisarmos no chão, andarmos para a frente, constatarmos que o céu continua azul, que ainda falamos nosso idioma. O hábito nos descansa do perigo que o próprio ato de viver já é. Vilões são os dois excessos: o pavor do hábito e o apego exagerado a ele. A primeira situação é a daquelas pessoas tão doentiamente crentes no “senso comum” que preferem decapitar o relacionamento antes que ele ameace adoecer, ou sequer espirrar. Repetem papagaiamente que “a fila anda” e que “o importante é ser feliz” para esconder que não têm peito suficiente de procurar o iogurte que ele/ela gosta, de lembrar do aniversário, de encarar homem gripado ou mulher na TPM. De gastar um mínimo de tempo para fazer alguém (um pouco mais) feliz. O segundo caso é o de quem, ao contrário, refestela-se na crença de que nunca abandonará ou será abandonado e, portanto, acha que não têm motivo suficiente de procurar o iogurte que ele/ela gosta, de lembrar do aniversário... De gastar um mínimo de calorias para fazer alguém (um pouco mais) feliz. O problema não é do hábito, mas do habituado – o habituado a achar que o outro não vale seu esforço, seja de aceitá-lo, seja de (re)conquistá-lo. O problema, em última instância, é a descomunal importância que inventamos para nós mesmos (nosso tempo, nossa vontade, nossa realização) e roubamos proporcionalmente dos outros. Como de costume.

27 de mai de 2010

Os incomodados que emudeçam

Outro dia, a cena de uma colega de trabalho esbravejando na bilheteria do metrô (porque “não havia troco disponível” para ela) trouxe à tona, mais uma vez, uma impressão antiga: não há espaço para os incomodados no Brasil. O país é continental, mas os incomodados não cabem nele. Pelo menos, não são bem-vindos. Se não me acredita, basta observar a reação daqueles que gravitam em torno dos incomodados, presenciando suas – quase sempre justas – indignações. Dois quintos da plateia suspiram chateadamente, olhando o relógio; dois quintos disfarçam o constrangimento trocando risinhos cúmplices com outros não-incomodados. Um quintinho, se tanto, ensaia algum apoio – mas raramente é forte o bastante para que o incomodado consiga, por clamor popular, a justiça que não consegue por ética, por cidadania ou (que piada!) por lei.
Um incomodado que demonstra seu incômodo é, em nossa terra, sinônimo de chato. Não admira. Somos filhos de uma história de violência e adulação. Nossa origem é metade pisoteada, metade pisoteante; somos tão descendentes dos que foram oprimidos – pelo chicote dos feitores, pelas armas dos jagunços, pelas botas dos bandeirantes, pela primazia dos nobres, pelas negociatas dos coronéis – quanto dos que bajulavam seus opressores em troca de um apadrinhamento de filho, de um título de barão ou de mais dois dias de sobrevivência. Nosso decantado (e às vezes odioso) “jeitinho” nasceu desse cruzamento da humilhação com o poder. É o jeito malandro de subsistência dos fracos, mas é simultaneamente um grito de indiferença: eu arranjei maneira de me virar, um braço em que me pendurar, não quero saber das consequências para os outros, que cada um se vire também. Quebrados pela História, aprendemos a ser lobos individualmente e cordeiros em grupo. Um incomodado reclamão é alguém que nos convoca a ser lobos em grupo, alguém que tenta nos tirar de nosso confortável anonimato malandro – e isso, definitivamente, não podemos permitir. Reclamar contra o patrão? Só na rádio-corredor, durante a pausa do cafezinho, e olhe lá.
Escandalizados, alguns jurarão que não, que o povo brasileiro é extremamente compassivo e solidário. Concordo. O brasileiro é extremamente compassivo e solidário quando se trata de solucionar problemas sem perturbar o sono dos governantes. É muito mais fácil fazer, recolher e separar doações para os desabrigados do morro do Bumba do que ficar, noite e dia, infernizando a vida dos políticos para que nunca mais haja desabrigados. É muito mais rápido se tornar um “Amigo da Escola” do que exigir mudanças que diminuam as discrepâncias da educação. Tornou-se muito mais acessível para nós, os pisoteados, lamber as feridas do que evitá-las; aceitamos levar as chibatadas no tronco em pleno dia, e só no escondidinho da noite experimentamos o auxílio dos que vêm limpar os machucados. Somos solidários sim, mas nos remendos. Solidários no vazamento e no curto-circuito, não na troca do encanamento e da fiação. Solidários nos fins, não nos princípios. Unidos mesmo – daquela união de base, que faz revoluções, que peita governos, que cobra providências, que é capaz de paralisar um país inteiro numa resistência organizada, seja esperneante ou muda – nós não somos, raramente fomos, Deus sabe se ainda seremos. Seremos, talvez, quando tacarmos no lixo nosso “jeitinho” Superbonder e remobiliarmos a casa com peças sem rachadura; quando jogarmos fora os epítetos de “cordial” e “pacífico” que algemam nosso povo a uma história de falso cor-de-rosa. Seremos quando nos assumirmos derrotados, em vez de brincar de apêndice do grupo dos vencedores. Quando engrossarmos a reclamação dos incomodados em pleno horário de expediente, em lugar de suspirarmos, atrás de nossos relógios e coleiras, pelo momento de eles calarem a boca.

21 de mai de 2010

Speechless

O monstro mais famoso do mundo desde os zumbis thrillerianos. A mulher que todo Chapeleiro Maluco gostaria de ter. O guarda-roupa que faz morrer de inveja Cher, Bjork e todos os vilões de Gotham City. Uma tela de Dalí que canta e dança. A boneca Emília do século 21. A Xuxa dos tempos pós-baixinhos. A filha bastarda que Elton John jamais teve.
Talvez Lady Gaga caiba numa dessas definições. Ou não. Talvez elas não sejam tão exageradas quanto a moçoila-esfinge merece. Talvez o Chapeleiro não passasse da primeira xícara de chá ao lado dela – e olha que o sujeito convive há anos e mais anos com a Lebre Maluca, a Rainha Vermelha, o Gato Risonho...
Quem sabe Cher, Bjork, Charada, Espantalho, Hera Venenosa sejam básicos demais e nem mereçam a comparação? Talvez Dalí não seja suficientemente surrealista. Suas pinturas podem até cantar e dançar – só que nos sonhos. Já a menina da poker face canta e dança nos videoclipes, algo que, cá entre nós, vai muito além da realidade, digo, da surrealidade.
Emília do século 21? Sei não. Ela não parece ser feita de pano, mas de plástico – daquele plástico que leva décadas para se decompor. Ah, também não deve pensar como um ser humano, o que, aí sim, é uma maravilha. E Xuxa dos tempos pós-baixinhos? É, tem chance. Já foi vista usando ombreiras e tagarela uns mantras tão ou mais gagaístas que ilari-lari-lariê (ô, ô, ô) ou tindolelê nheco-nheco xique-xique balancê. Rah-rah-ah-ah-ah-ah! Rama-ramama-ah! Gaga-ooh-la-la!
Seria, então, “a filha bastarda que Elton John jamais teve” a melhor definição para nossa Lady? Seria ou não seria, não é a questão. Isso é o que menos importa. O que vale é colecionar algumas (in)definições divertidas até ficar mais do que sem palavras – irremediavelmente speechless –, até que a pista pop, pop, pop e a gente dance. Just, just, just, just dance.

14 de mai de 2010

Lentes de contato

Quando eu era pequena (quer dizer: menor), adorava assistir àqueles programinhas da TVE que reuniam animações do mundo inteiro, como Glub glub, Lanterna mágica e quetais. Outro dia me lembrei de um desses desenhos perdidos no tempo: a série francesa A princesa insensível, feita de miniepisódios que não chegavam a cinco minutos. Uma pérola. Praticamente sem falas, mostrava as tentativas que os diversos pretendentes da princesa faziam para conseguir que ela esboçasse alguma reação (e, por tabela, se casasse com o herói). Em cada episódio, um pobre rapaz se exibia diante da moça cheio de esperança, explorando sua maior habilidade de forma espetaculosa. Era um tal de malabarista malabaristando, cozinheiro cozinhando, príncipe montado em unicórnio – domando cão de três cabeças –, jardineiro brotando flores e folhagens mágicas de cada canto do palácio... E a princesinha ali, sentada no trono com cara de parede de consultório, sem mover um músculo. Todos iam embora decepcionados, ninguém entendia por que a megerinha demonstrava tanta indiferença diante da beleza. Até que, no último capítulo, o pretendente vencedor teve um único gesto: chegou perto da princesa e tascou-lhe... não, não um beijo! e sim um par de óculos no rosto. Pela primeira vez os olhos miudinhos da menina se abriram, o sorriso acompanhou e ela começou a aplaudir entusiasmada o show que faziam no castelo. Injustamente, todos no reino consideravam insensibilidade o que era apenas uma miopia escandalosa.
A “lição” para qualquer criança era clara: não se deve julgar pelas aparências, blablablá. Verdade. Mas a adulta de hoje, com as (sempre) novas lentes que a vida vai nos depositando no rosto, vê que a moral da história não parava por aí. Uma observação adultamente apropriada é a de que a princesinha só conseguiu ser si-mesma ao se unir a alguém muito mais interessado em fazê-la ver do que em ser visto. Não sermos vistos é nossa constante frustração, mas não costumamos nos dar ao trabalho de perceber que nem todos têm as pupilas reguladas para a “frequência” em que operamos; nem todos enxergam no mesmo espectro que enxergamos; não é o hardware de qualquer um que roda o software que nós rodamos. Podemos, sim, colocar nossas lentes em contato, fazer conversões do nosso tipo de “arquivo” para o do outro, traduzir o nosso mundo para a linguagem do mundo alheio. Porém, antes de mais nada, devemos reconhecer – sem sofrer – que existe esse gap entre a nossa plataforma e todas as demais. Ignorar o abismo é mergulhar dentro dele. Teimar em caminhar no universo de outra pessoa usando os óculos errados é a melhor forma de dar com a cara no poste.
Seria falsa, pois, a velha máxima de que visões opostas se atraem? Não acho que sim, não acho que não. É verdade que sempre confiei muito mais no poder das semelhanças, mas não é difícil encontrar quem relate cinco ou seis casos de romances estranhos e bem-sucedidos, entre apaixonados de diferentes planetas: a zen-budista e o pastor luterano, a intelectual sedentária e o alpinista radical, a corintiana e o palmeirense, a macrobiótica e o dono de churrascaria. Ser ou não ser oposto – esta não é a questão. Há torcedores de times rivais que partilham a pipoca no sofá e há almas praticamente idênticas que se divorciam por causa da posição do rolo de papel higiênico. A única regra possível não é a de falar a mesma língua do parceiro, mas de se dispor a andar com um dicionário debaixo do braço – se for preciso, por toda a vida. A única bandeira branca não é a igualdade, e sim a disponibilidade para a diferença. Miopia social, todos têm; só alguns, entretanto, se lembram de corrigir o próprio grau antes de conseguir espiar o mundo alheio com olhos e coração suficientemente abertos.

7 de mai de 2010

Menina maluquinha

Ela acorda no meio da noite, muito assustada. Sonhou mais uma vez que caía na toca do coelho. Sonhou não, pesadelou. O medo da Rainha Vermelha, o medo de perder a cabeça, o medo de ficar louca. Um medo cheio de razão, por mais irracional que possa parecer. Porque Alice está perdendo as estribeiras. Se é que já não perdeu. Mas isso não é necessariamente ruim. Ao contrário. Pode ser o início de uma vida sã.
Por mais bizarro que seja (e é, ou não), voltar a Wonderland – o estranho mundo recolorido pelo Chapeleiro Tim Burton – é tudo que Alice precisa para crescer. Mas não crescer tanto. Alto lá. Ou seria baixo lá? O fato é que, às vezes, diminuir um bocado é o melhor a ser feito – se quisermos passar por uma porta minúscula, que se abre com uma chavinha menor que nosso dedo mindinho.
Depois a gente aumenta, diminui, diminui outro tanto, aumenta de novo, estica e puxa até descobrir o tamanho ideal (que não existe de se pegar, pois não há vestido azul que nos sirva a vida inteira). Alice e Tim, se serve de consolo, acharam os amigos ideais numa terra cheia de maravilhas, mistérios e perigos: um chapeleiro com os olhos maiores que qualquer espelho e as caras do Johnny Depp, um gato com o poder de aparatar, além de uma intrépida trupe de bichinhos à moda de Nárnia.
Acharam também a vilã mais que ideal: mimadíssima, crudelíssima, tiraníssima e issimamente cabeçudota. Uma delícia vermelha. Como um morango mofado. Talvez ela fosse mais útil – e, melhor ainda, desagradável – do lado de cá da toca do coelho. Nosso mundinho anda igualmente cheio de maravilhas, mistérios e perigos, não necessariamente nessa desordem. E uma rainha como ela cortaria sem dó nem piedade aquelas cabeças que não merecem os corpos que têm.
Mas voltemos a Alice, que, depois de voltar a Wonderland e cumprir sua missão impossível (de se desacreditar), volta à sua vida louca vida, nada breve – aquela vidinha mais ou menos, tantas vezes sem mais nem menos, em que a maioria das lagartas morre ainda no casulo, em que poucas e boas (como ela, menina maluquinha) viram borboletas e voam muito além do arco-íris, sem perder sua saudável loucura.

30 de abr de 2010

Segredos de liquidificador

Como já disse o Fábio, O segredo dos seus olhos foi o filme que mais vezes nós não vimos. Foram cinco tentativas até conseguirmos cumprir a missão. Na primeira, faltou luz no cinema e o dinheiro foi devolvido; na segunda, a falha de refrigeração da sala (em pleno Saara carioca) fez com que desistíssemos de pegar a sessão. Na terceira e na quarta, pepinos de última hora no serviço riscaram o cinema da agenda. Eu já estava começando a achar que teimar nesse objetivo era desafiar uma impossibilidade cósmica – mas felizmente, na quinta tentativa, os céus se abriram e nós cumprimos nosso trabalho de Hércules. Valeu a insistência. El secreto de sus ojos (no sonoro título original), Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010, é um filmaço – um peliculón, como diriam seus conterrâneos argentinos. Quem já assistiu aos adoráveis O filho da noiva e O mesmo amor, a mesma chuva sabe, de antemão, que a atuação de Ricardo Darín e a direção de Juan José Campanella fazem uma tabelinha para Pelé nenhum botar defeito. É pôr na jogada a habilidade magistral de Guillermo Francella e Soledad Villamil (nos respectivos papéis de amigo e amada do protagonista) e correr pro abraço.
Nos olhos dos personagens de Soledad (Irene Menéndez Hastings) e Darín (Benjamín Esposito) reside boa parte do “segredo” do título: o amor presente, nascente, crescente, visualmente dialogado mas nunca verbalizado (a não ser tendo o papel como intermediário). Além de no relacionamento mudo do casal principal, o “segredo” mora nos olhos de Isidoro Gómez, considerado culpado pelo crime que movimenta a trama – e mora duas vezes: no olhar pidão que ele dirige à vítima, Liliana, e no olhar devorador que pousa sobre o decote de Irene. O “segredo” mora também nos olhos de Ricardo Morales, marido da jovem assassinada – olhos que caçam o suspeito implacavelmente, mas que são, no dizer de Benjamín, “olhos de puro amor” em tudo que se refere a Liliana. Interessante notar que os olhares de Benjamín, investigador do assassinato, “rimam” e se misturam com os dos personagens que deste participam: a câmera fotográfica o flagra tão encantado por Irene quanto Gómez por Liliana, e não há um só momento em que ele não imite Morales nos “olhos de puro amor” dirigidos à amada.
Para quem se animou ao ler “assassinato”, um porém. Embora seja a espinha dorsal do enredo, o crime não envereda por investigações mirabolantes e se presta, antes, a servir de base para análises psicológicas, pretexto para críticas políticas e – principalmente – espelho de sentimentos e vivências do protagonista. Mais pessoal do que factual, El secreto é história de espírito machadiano, em que as impressões e memórias são filtradas pelos olhos (eles aí de novo!) alheios, tal qual em Dom Casmurro ou no famoso conto “Missa do Galo”. São segredos de liquidificador, como diria Cazuza – lembranças, simpatias, opiniões pessoais batidas no mesmo suco com os fatos e as informações objetivas. Bebe-se relatividade. No decorrer de toda a trama, há pequeninas pistas de que o que estamos vendo pode não ser 100% fiel aos acontecimentos, ao mesmo tempo que não há provas de que não seja. Isso é muito bem representado na metáfora da tecla que falta na máquina de escrever de Benjamín: falta-nos também, por vezes, esse elemento que poderia “fechar” cada frase do texto, esse elo perdido que nos levaria à terra de todas as certezas. Entretanto, como prova Benjamín ao fim da trama, é perfeitamente possível dispensarmos essa “tecla” e completarmos as lacunas por nós mesmos. Coisas de pós-modernidade, coisas de Machado. Não é uma narrativa “cheia de nadas” – como a vida que Morales deseja para quem o afastou de seu amor –, é uma história repleta de tudos: os muitos silêncios falam eloquentemente, de maneira doce ou perversa. Uma história sem únicas respostas, na qual – diria Guimarães Rosa – mais se aprende ao fazer outras maiores perguntas.

24 de abr de 2010

Libertos e agiotas

A chuva que torturou Rio de Janeiro e Niterói já foi há algumas semanas, e as cidades – que jeito? – seguem adiante. O morro do Bumba evaporou dos noticiários. Políticos já estocaram no freezer as urgências que desaparecem em dias de sol, e só voltarão a existir na “surpresa” da próxima enchente. Brasileiros que somos, varremos a lama (literal e figurada), suspiramos e prosseguimos, com o para-brisa limpo o suficiente para andarmos mais alguns metros. Mas a chuva continua por aí – chovendo metáforas e consequências.
Meu caso, por exemplo. Naquela terça-feira de manhã, cheguei ao trabalho com a água pelos joelhos. Por que não fiquei em casa? Porque, simplesmente, não sabia do apocalipse. Com tevê e rádio desligados, confiei no que via pela janela: uma chuva aparentemente normal, como tantas outras. Do outro lado do metrô, ela não era como tantas outras. E aí já era tarde. Por pura desinformação, fui a única professora a conseguir chegar à escola, além da própria diretora.
Fiquei, depois, matutando a situação. Sei bem que não foi exclusivamente por falta de notícias que apareci por lá naquele dia. Muitíssimo menos por amor ao serviço ou preocupação com a diretora, com os alunos, com quem quer que seja. Apareci na escola por total incapacidade de faltar – exatamente como quando era eu a aluna e, mesmo sem estar a fim de assistir às aulas, não queria ter mais trabalho após a falta, nem queria precisar “catar” algum caderno com a matéria completa. Apareci na escola pelo mesmo motivo de sempre: por mim. Já que não tinha ideia completa do caos, queria mostrar que, ainda numa situação tão adversa, eu seria capaz de tudo para estar presente. Eu seria a funcionária mais comprometida possível. E para que mostrar isso? Elementar: para ter uma espécie de “bônus” a ser usado quando eu realmente precisasse me ausentar. O lado mais egoísta da responsabilidade.
Não é raro agirmos assim: ficarmos obcecados em ser sempre credores e nunca devedores; construirmos uma piscina de bônus inesgotáveis e nadar neles todos os dias, como o Tio Patinhas em suas riquezas – sem jamais gastá-los. Sermos, enfim, agiotas familiares, profissionais, emocionais, sentimentais: emprestadores de boas ações, mas sob altos juros. Nem sempre esse tipo de “agiota”, porém, quer que a dívida seja paga em novos favores; basta-lhe, às vezes, a eterna culpa e gratidão dos beneficiados, espécie de algema invisível. O maior senão é que o “agiota”, acostumado a converter relações em transações, nunca estará preparado para elogios, auxílios ou afetos gratuitos, uma vez que não poderá merecer o que não segue a lógica do merecimento. Nunca poderá pagar o valor do que não tem preço. A fortuna de um agiota emocional é feita apenas de promissórias; se receber, em gratuidade, muito mais do que é capaz de oferecer, seu coração acaba entrando em choque e abrindo falência.
O oposto dos agiotas emocionais são os libertos – aqueles que estão realmente livres de culpas e conseguem, portanto, receber e doar com a mesma naturalidade e alegria. Ainda usando a situação das chuvas, temos exemplos de libertos naquelas pessoas que não hesitam em largar o trabalho (ou os filhos, ou a faxina, ou o controle remoto) no momento em que percebem que alguém tem de ajudar a separar as doações que chegam para as vítimas das enchentes. Libertos são aqueles que perguntam “por que não eu?” e descartam todas as desculpas que conseguem criar como resposta. Libertos têm exata noção de seu próprio valor: exatamente o mesmo que o de todos os outros. Liberta é algo que eu serei um dia – espero que breve –, quando já não me preocuparei em fazer bonito e preferirei fazer o necessário, o urgente, o imperativo. Porque ficar cuidando só de sua própria vida é coisa de quem não tem mais o que fazer.

17 de abr de 2010

Vou-me embora pra Helgoland

Lá sou amigo do rei e, nas horas de folga, amante da rainha. Lá tenho a cama que eu quero, no quarto que o Marcelo Rosenbaum decorou. Até sou feliz aqui. Mas em Helgoland – que, para quem não sabe, é uma ilhota alemã situada no Mar do Norte – não há ex-BBBs falando de seus “projetos” no TV Fama, não há políticos falando de seus “planos” depois da chuva e do morro derramado, não há o José Roberto Wright falando da arbitragem do Campeonato Carioca. Na verdade, lá não há TV Fama, não há chuva nem morro derramado, muito menos Campeonato Carioca (o que, convenhamos, é melhor ainda).
Lá em Helgoland a existência é uma aventura à Indiana Jones, de tal modo vibrante e inconsequente que ouvimos a trilha sonora de John Williams a cada amanhecer. E como não farei ginástica, pois não vou precisar: lá a pizza e o sorvete não engordam, e o pior que pode haver é você ter um piriri, oh yeah! Também não andarei de bicicleta, porque não sei, não tenho que saber e ninguém tem raiva de quem não sabe. Aliás, não saber e não querer aprender isto, isso ou aquilo é coisa muito bem vista em Helgoland.
Lá na ilha tem tudo. É outra civilização. Tem até a Dona Benta contando estórias na beira da praia. E não tem a moça do Santander, do Itaú, do Bradesco, do Banco Mundial, do FMI, do FBI, da CIA, da C&A, da Nasa, aquela chata com voz de robô enferrujado que me liga cinco vezes por dia para me oferecer crédito consignado e, ao ouvir um “não, não estou interessado”, pergunta por que não estou interessado, por que vou estar deixando passar a chance de realizar os maiores sonhos da minha vida: “O senhor não sonha estar comprando um carro, uma casa, estar fazendo uma viagem?”. No gerúndio, não, minha filha.
É por essas e tantas outras que vou-me embora pra Helgoland. Lá, quando eu estiver mais feliz, mas feliz de não ter jeito, quando de noite me der vontade de dar uma festinha à fantasia – lá sou amigo do rei e, nas horas de folga, amante da rainha –, terei Sir Elton John cantando e tocando no piano vermelho que escolherei (as minhas canções favoritas) e os melhores amigos da vida inteira com seus celulares devidamente desligados. Vou-me embora pra Helgoland. E não volto mais. (Quer dizer, até volto, quando acordar...).

11 de abr de 2010

Aquarela animada

Faz uma semana entrei numa livraria como quem não queria nada e dei de cara com um livrão de capa colorida e rostos bem familiares: Charlie Brown, Manda-Chuva, os Flintstones, os Jetsons, Tom & Jerry e outros tantos superamigos da minha nada velha infância. Saudade deles. Saudade que me fez garimpar um cantinho tranquilo da loja para folhear página por página do tal livro, o Animaq – almanaque dos desenhos animados, de Paulo Gustavo Pereira.
Quem um dia se divertiu com as travessuras do Pica-Pau, acompanhou Scooby e sua turma desmascarando “fantasmas” nada sobrenaturais ou já se imaginou pilotando o Mach 5 certamente vai adorar essa antologia, que reúne zilhares de desenhos e curiosidades do fantástico mundo da animação. Uma verdadeira corrida maluca, que começa nos anos 1930, com o charme da provocante Betty Boop, e vai até o melhor desenho de todos os tempos da última semana, que pode ser o Ben 10 ou qualquer outro animê legitimamente norte-americano.
Uma delícia reencontrar Eric, Hank, Diana, Sheila, Presto e Bobby (ainda) perdidos na Caverna do Dragão; o lalalalá dos Smurfs azucrinando Gargamel; Zé Colmeia e Catatau surrupiando cestas de piquenique em Jellystone; o (nada) bom e (muitíssimo) velho Mum-Rá evocando antigos espíritos do mal a transformar aquela forma decadente no ser de vida eterna... (Tudo isso enquanto o He-Man dançava um rock gravado por Tom Jobim, e a She-Ra namorava o Esqueleto no jardim...)
Tempos bons que invariavelmente voltam quando um sujeito ultrafeliz – como deve ser esse Paulo Gustavo – resolve embarcar numa aventura bem à moda Ducktales (uh-uh!) e desenterrar moedinhas que ficam mais valiosas com o passar dos anos, tesouros como o timing cômico da dupla Papa-Léguas e Coiote; a ironia de cada “que que há, velhinho?” do Pernalonga; e as altas viagens que os Muppet Babies faziam – sem sair do quarto – até que a Babá (só as pernas dela, é verdade) aparecesse e perguntasse “Is everything all right in here?”. Yes, Nanny!
E, se o leitor pensa que that’s all, folks!, está ligeirinhamente enganado. Pois esse Animaq é um almanacão de mais de trezentas páginas, e nele cabem ainda todo o reino de Dar-Shan, a lendária Flor das Setes Cores e latinhas de um espinafre especialmente vitaminado, além de tantas outras estórias de um mundo que não cabe numa folha qualquer, que não se faz com apenas cinco ou seis retas – um mundo que, contrariando a famosa letra de Toquinho, jamais descolorirá.

3 de abr de 2010

Feliz reaniversário

Todo mundo faz pelo menos dois aniversários por ano. Um deles é (óbvio) no dia em que completa x anos de nascimento. O outro é na Páscoa. Digo isso independentemente do tipo de crença religiosa que se tenha – ou que não se tenha. Qualquer vida neste mundo teve (ou terá) de se refazer depois de uma queda, de um erro, de uma fase, de uma decepção, de um obstáculo, de uma tristeza, de uma pequena morte. Qualquer vida neste mundo, por conseguinte, merece e precisa celebrar sua revida, seu novo capítulo, sua cura, seu aperfeiçoamento, ou mesmo a simples esperança do aperfeiçoamento e da cura (porque decidir virar a página é o primeiro passo para dar continuidade à história). Todo mundo tem sua Páscoa – essa feliz edição revista, ampliada e melhorada de si mesmo.
O nome Páscoa, como sabemos, tem sua origem e essência na palavra passagem. Para os judeus, representa especialmente a passagem da escravidão (no Egito) para a liberdade (de buscar uma terra totalmente sua). Para os povos anteriores aos judeus, a passagem de um tempo de natureza estéril (o inverno) para o viço e a abundância de cores, calor e promessas de frutos (a primavera). Para os católicos, a passagem da morte de Jesus Cristo (numa cruz) para sua ressurreição (poucos dias após). Em todos esses casos, tão absurdamente forte é a pulsão de vida que as muralhas – embora também absurdamente fortes – não podem deixar de se render diante da intensidade estarrecedora. A Páscoa dos judeus dobrou os joelhos e o orgulho de um faraó cabeça-dura, que, como todos os faraós, se considerava um deus na terra. Dividiu ao meio o Mar Vermelho, a ponto de ele se deixar atravessar a pé enxuto. Enfrentou quarenta anos de pedreira e caminhada no deserto. A Páscoa dos povos antigos se sobrepunha à nevasca que parecia matar qualquer expectativa de se continuar extraindo o sustento da terra – muda, desolada por três meses. A Páscoa de Jesus fez um corpo mudo, sepultado há três dias, rolar a pedra do túmulo e ressurgir mais pleno. Vida (com vezão): 1; Morte (com emezão): 0 – a ultimate fighting de todos os tempos.
Esse deve ser sempre o placar. Através dos anos, séculos e milênios, esse é o abençoado clichê que deve continuar se repetindo, over and over. Também para você. Seja qual for o seu faraó cabeça-dura (quem sabe não é você mesmo?), que ele ganhe ouvidos de escutar e mãos de libertar. Seja qual for o seu Mar Vermelho, que ele se abra sob os seus pés e se curve à sua imensa vontade de seguir caminho. Seja qual for o seu deserto – arenoso ou gelado –, que você saiba buscar o frio ou o quente que lhe faltam para que aquele caminho floresça. Seja qual for o seu túmulo neste instante, que não haja pedra no mundo capaz de sepultar seus sonhos por muito tempo. Seja qual for sua pequena e provisória morte, que ela seja diariamente substituída por uma vida teimosa, grande e definitiva. Que todo “desaniversário” (como se diz no País das Maravilhas) seja na verdade um “reaniversário” – mais uma chance de dizer sim ao que pode ser e ao que virá; mais uma oportunidade de comemorar a vitória sobre o que já foi. Feliz Páscoa! felizes páscoas, felizes passagens; que essa força esteja com você – sempre.

31 de mar de 2010

Além do arco-íris

Mesmo quando criança, nunca fui fã inveterada da Xuxa – não comprava roupas dO Bicho Comeu e jamais manifestei a vontade de participar do programa, a que só assistia de vez em quando (e mais por causa dos desenhos). Conhecia as músicas, via alguns filmes: o básico, e olhe lá. Mas, como qualquer filha dos oitenta, cresci com o “Ilariê” tocando em um ouvido e a ladainha dos detratores da Xuxa (e de apresentadoras louras em geral) papagaiando no outro. As beldades – com botas maiores do que seus shortinhos – “erotizavam precocemente” as crianças, diziam. As minissaias de couro com saltões eram ícones fetichistas, resmungavam. Essa loura já até fez filme de sacanagem com um “baixinho”, sussurravam. Enquanto isso as crianças – que, na época, nunca tinham ouvido a palavra “fetichista” na vida e não tinham uma ideia lá muito concreta do que pudesse ser “erotizar” – só queriam defender o time das meninas (ou dos meninos) no palco, ter sua carta lida no ar, garantir as figurinhas que faltavam no álbum, vencer o Baixo Astral, pintar um arco-íris de energia e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Ganhando prêmio em brinquedo, é claro.
Talvez meus olhos de menina estivessem fechados para essa tal “ultraerotização” da infância dos oitenta; talvez eu não visse o símbolo perigosíssimo que um homem vestido de tartaruga representava, a entidade perversa que uma nave espacial sugeria e o aspecto fálico que ombreiras pontiagudas continham – vai saber. Só sei que hoje, em nossos tempos sem apresentadoras ombrudas na TV, o arco-íris é outro. Crianças de dez, onze, doze anos têm ideias bem diferentes das antigas sobre o que sejam jogos de meninas e meninos – e o prêmio não é em brinquedo. No play, no parque, na rua, na sala de aula, exibem pulseirinhas docemente coloridas que, uma vez arrebentadas por outrem, não levam a uma queixa soluçante para a mãe ou professora (“E...le... es...tra...gou... mi... nha... pul...sei...ra! snif, snif...”), e sim a uma prendinha básica a ser paga pelo arrebentador de pulseiras (ou pela vítima do cujo). Coisas leves, de acordo com a cor da pulseirinha trucidada: dar beijo de língua, mostrar os seios, fazer dança erótica, sexo oral, sexo anal, sexo “propriamente dito”...
Não sei se é possível comentar o fato. Não sei se precisa. É preciso, porém, recapitularmos em que momento o elo foi perdido; por que se rompeu aquilo que ligava a infância à imagem de inocência. E por que foi fabricado um novo elo, atando perigosamente as brincadeiras de criança àquelas próprias dos adultos. Não, não foram os 1980s a cena do crime – ou eu teria presenciado pique-pegas bem menos lúdicos nos recreios de escola. Foi (tem sido) mais recentemente, no play, no parque, na rua, na sala de aula, debaixo de nossos narizes, que a (quase) inocente “pêra, uva, maçã, salada mista – o que você quer, sem eu dar nenhuma pista?” vem se transformando num papai-e-mamãe direto, sem rodeios, sem ilusões. O que, eventualmente, vem transformando crianças em papais e mamães diretos, com menos ilusões ainda. Trocando aquilo que eram pelo que ainda não deveriam ser; aquilo que merecem pelo que (inadvertidamente) desejam. Não é uma troca justa; não há pote de ouro algum no fim de um arco-íris não autêntico, que desmancha nos dedos. E não há terra alguma para além do arco-íris que tanto afagam. Pelo menos não uma como o lar. O que está se arrebentando na infância, no mundo, não é (só) algo físico ou palpável como as coloridas pulseirinhas de silicone; mas – assim como elas –, uma vez que se arrebenta, não tem mais volta.

27 de mar de 2010

Corrida maluca

Outro dia me perguntaram se estava tudo bem por aqui. E eu, quase automático, respondi que sim, que tudo corria bem, que a vida seguia em frente, ligeira, ligeira, e que a gente tentava acompanhá-la. E aí me dei conta do “problema”, se isso for um problema: o tal corria. O mundo tem girado tão rápido que às vezes me deixa suficientemente tonto para não gozar – ou gozar menos do que poderia – a parte do tudo e do bem.
Meu pai fez sessenta anos na última semana; uma (melhor) amiga casou há quinze dias e já está com um filhote na cabeça (só na cabeça, que eu saiba...); outra, dos tempos da escola, deixou o Brasil, fez um pit stop nos States e agora aparece em Israel, casadíssima, grávida e feliz... Todas boas, ótimas notícias, mas que correm tão apressadas quanto os 140 caracteres do Twitter; basta um clique, uma piscadela, e a página da vida é atualizada!...
E eu, do lado de cá, tento resistir. Vou levando a vida com os pés no freio, enquanto a vida se encarrega do acelerador. Leio meus livros com a atenção que cada vírgula merece; faço as vezes do professor careta e chato para meus alunos “moderninhos”, cheios de pressa de deixar a infância; e vivo um namoro romanticamente sossegado, certo de que um roteiro bem escrito só vira bom filme com uma direção sensível e cuidadosa.
Não estou – não estamos – aqui para vencer uma corrida maluca; não estamos aqui nem mesmo para correr. A vida em si já é afobada demais, abarrotada de prazos, cobranças e outros badulaques desnecessários. Vamos com calma, aproveitemos o tudo e o bem nosso de cada dia. Olhemos a paisagem, seus detalhes, curtamos – e não encurtemos – o caminho. O corre-corre, a gente deixa pro Dick Vigarista, que, bem sabemos, não vai ganhar nenhum “grande prêmio”, a não ser as risadinhas do Muttley...

21 de mar de 2010

As cinco frases

Domingo passado, na Revista dO Globo, veio uma entrevista com Claudia Burlá, geriatra respeitada e médica paliativa (medicina paliativa – que aparece de passagem, inclusive, na atual novela das nove – é aquela que se dedica a melhorar a qualidade de vida das pessoas com doenças incuráveis). Em dado momento, ela contou o caso de uma paciente com demência, cuja filha morava no exterior devido, em grande parte, ao mau relacionamento que tinha com a mãe. A médica ligou para a filha da paciente e tascou: “Você não vai ter outra chance de resolver as pendências com sua mãe. Posso pôr o telefone no ouvido dela para você falar cinco frases: me desculpe, eu te desculpo, muito obrigado, eu te amo e adeus”. A mulher concordou, a reaproximação foi feita e, no dia seguinte, a doente morreu com esse capítulo devidamente encerrado.
O que mais me tocou na entrevista foi o poder de síntese de Claudia Burlá ao propor as cinco frases essenciais à filha pródiga. Se esse script foi de fato seguido, em uma conversa que provavelmente não durou nem uma hora, talvez nem meia, talvez nem quinze minutos – dado o estado crítico da paciente –, falou-se muito mais do que normalmente se falaria em dez anos. Às vezes, numa vida inteira. Nessas cinco frases, de no máximo três palavras cada uma, está o mais básico dos básicos de qualquer relação humana bem-sucedida: a autocrítica, a compaixão, a gratidão, o amor e a consciência de que todo segundinho merece um fecho redondo, de ouro, para o caso de ser um epílogo. O sábio roteiro de morte feito pela dra. Burlá é um dos mais belos, objetivos e completos roteiros de vida. Nem todos os to-bes de Shakespeare, nem todos os condores de Castro Alves ou a oratória de Vieira chegam perto do impacto dessas onze palavras. Tivesse eu poder, a dra. Claudia vestiria o fardão da ABL só por elas. E não haveria chá no mundo que as pagasse.
Sempre me angustiou a ideia de uma despedida tão súbita que nem desse ocasião a essas onze palavras, ou pior: que pairasse como uma lembrança negativa, com um “a culpa é sua”, um “você não tem mesmo jeito” ou até um mero “que saco!” suspenso no ar. Suspenso eternamente, sem nenhuma cena do capítulo seguinte, nenhum diálogo posterior. Uma despedida não feita, malfeita. Hoje eu sei exatamente o que espero: que quaisquer despedidas (todas as provisórias, todas as definitivas) sejam permeadas por aquelas cinco frases, por aquelas onze palavras, e naquela mesma ordem. Primeiro, a admissão dos nossos erros – porque nenhuma aproximação é feita com uma pedra na frente. Depois, a remoção gratuita (e irreversível) das pedras alheias – porque um perdão não concedido encrava no peito como uma unha que não cortaram bem. Em seguida, o reconhecimento de que o outro tem muito mais delícias do que pedras. Quando a (re)conquista já for total, nada melhor do que celebrar o momento com a frase mais inteira de todas. É o único modo de deixar os laços tão apertados que nem a quinta frase consiga parti-los. Ever.
Claro que o objetivo não é repetir as sentenças da dra. Claudia a cada instante, como um mantra enlouquecido. Mesmo porque, se não forem sinceramente sentidos, dizer os trechos a toda hora será mera canastrice. A intenção é que se os diga numa frequência saudável, sempre que as circunstâncias pedirem; nem engoli-los, nem cuspi-los a torto e a direito. Mas a intenção, sobretudo, é tirar o monopólio dos lábios e deixar essas frases penduradas nos olhos, nos braços, na vida, de maneira que a voz não tenha a exclusividade de dizê-las. E mais sobretudo ainda: é dizê-las mesmo assim, mas antecipando-as com exemplos tão concretos que falar nem seria preciso.

16 de mar de 2010

Rapsódia in blue

Uma das maiores alegrias para o cinéfilo é sair da sala de projeção segurando uma pérola inesperada, recém-descoberta. Na última semana, eu e Fábio fomos os premiados. Era filme que eu, na verdade, há muito tempo perseguia, mas cujo horário só agora cruzou os meus: o ultra-adorável (500) dias com ela, estrelado por Joseph Gordon-Levitt (clone moreno de Heath Ledger) e Zooey Deschanel (clone exato de Katy Perry, com aqueles olhões espantosos que afogam a tela de azul).
(500) dias com ela não é apenas um filme fofo-alternativo como os igualmente deliciosos Cashback, Pequena Miss Sunshine e (o meu adorado) O fabuloso destino de Amélie Poulain, por exemplo. Trata-se, por que não dizer, de uma pequenina rapsódia. Rapsódia, na música, é uma colagem de melodias populares, juntinhas ao sabor do artista e não presas numa estrutura rígida. Guardadas as devidas proporções, é a definição perfeita para o simpático longa de Marc Webb. Em pouco mais de uma hora e meia de projeção, há um bocadinho de muita coisa: o recurso do narrador que reforça o tom de fábula da ação; a apresentação retrô da magnética Summer, personagem de Zooey Deschanel (por sinal, tanto o uso do narrador quanto as cenas biográficas de Summer lembram bastante o clima de Amélie Poulain); os episódios divididos pelo número de dias passados desde o primeiro encontro do casal – número este que surge ora numa tela alegremente “summer” (para os momentos felizes do protagonista Tom), ora num cenário cinzento (para seus dias de bola murcha); o musical saborosíssimo que resume o estado de espírito de Tom após a primeira noite de amor com Summer; a hilária recriação do cinema europeu cabeça que, por outro lado, retrata um protagonista confuso e deprimido... Estilices para dar e vender. Cada minuto é um flash. Destaque também para a sacada genial de, a certa altura, dividir a tela entre a metade da expectativa (de Tom) e a da realidade (do encontro). Simultâneas e ligeiramente diferentes, as versões do que teria sido e do que foi dão o tom exato do longa: o interesse do roteiro não é nem açucarar com soluções fáceis, nem azedar a vida dos apaixonados, e sim extrair desse embate sua necessária (e sustentável) leveza.
Boa parte da leveza de (500) dias com ela mora na onipresença do azul, adequadamente identificado com o “céu de verão” que a mocinha representa. Nos olhos oceânicos de Summer, em quase 100% dos figurinos da personagem, nos detalhes de sua casa, nas roupas de todos os figurantes que dançam com Tom na cena musical – lá está a cor que, em inglês, simboliza a tristeza, mas que visualmente funciona como uma lufada fresquinha. A dualidade do azul (e de Summer) é a mesma do filme: paradisíaco e algo tristonho, um quê de celestial e um quezinho de aflitivo, muito de masculino e muitíssimo de delicado, bastante de jovem e de clássico. Foi assim como ver o mar – a primeira vez, este ano, em que saímos com os olhos brilhando na certeza de termos inaugurado nosso próximo top ten. Imperdoável foi a ausência de (500) dias no top ten da Academia, ou a falta de uma indicação, pelo menos, para melhor roteiro original. Como disse o Fábio: paciência. Venceu o bege-areia, não era ano de azul no Oscar. Mas aqui em nossas plagas, distantes das pelejas americanas e já suficientemente escaldantes, nada melhor do que refrescâncias coloridas onde seja impossível não mergulhar.