31 de mai de 2010

Força do hábito

Assisti ao novo filme de Woody Allen, Tudo pode dar certo. Mediozinho – no máximo. A não ser que o leitor seja um daqueles que levariam o diretor para uma ilha deserta, eu garanto: pode evitar o longa sem remorsos. Nenhum filme, porém, passa totalmente em branco; no caso deste, o maior interesse (para mim, pelo menos) foi criado pela relação do protagonista Boris com a lolita Melody Celestine. Rabugento e misantropo até o último fiapinho de DNA, Boris simplesmente não quer gente. Melody acontece em sua vida e sua casa, como um toró: vem de não sei onde e vai ficando, ficando. Sem muito que fazer durante esse longo gerúndio, ela começa a se apaixonar por Boris, que obviamente a rejeita. O chato insiste que a moça procure um homem mais jovem e mais feliz – até que passa a se incomodar com a ideia (e mais ainda com o fato) de ela sair com um homem mais jovem e mais feliz, ou com qualquer outro homem. O passo seguinte é o casamento de Boris e Melody. Sim, você e eu já vimos esse filme com outros títulos, em outras salas de cinema. É um daqueles filmes (ao menos até certo ponto do enredo) em que o casal não surge, apenas se reconhece. Se constata. Um daqueles amores que não nascem do amor, e sim do costume.
Sei que o tenebroso “senso comum” se encarrega de detonar furiosamente esse tipo de relação. Em geral, exalta-se a romeu-julietice constante, os beijos inflamados, os olhos faiscando, os sinos repicando, o fogo, a paixão, raio-estrela-e-luar, meu iaiá, meu ioiô. O hábito, pelo contrário, é considerado um poderoso inseticida dos relacionamentos. “Não se pode cair na rotina nunca, nunca, nunca”, martela o mundo em nossos ouvidos. Quanta inocência. Afinal, mesmo os casais que não principiaram no hábito (que se conheceram no réveillon de Copacabana, no alto da Torre Eiffel, num bale de máscaras em Veneza) fatalmente chegarão a ele, caso tenham de fato se tornado um casal. Os que conviveram antes de se apaixonar, os que se apaixonaram antes de conviver – todos desembocarão em alguma espécie de rotina, estejam numa casinha com cerca branca ou dentro de um barco que dará a volta ao mundo. A principal, inevitável rotina já reside no fato de estarem sempre um com o outro. Mesmo para o mais ardente dos pares, em algum momento a presença do parceiro se tornará uma certeza macia e confortável. Um hábito.
A vilania não está nesse hábito. Ele é necessário em certa dose, como é necessário o costume de pisarmos no chão, andarmos para a frente, constatarmos que o céu continua azul, que ainda falamos nosso idioma. O hábito nos descansa do perigo que o próprio ato de viver já é. Vilões são os dois excessos: o pavor do hábito e o apego exagerado a ele. A primeira situação é a daquelas pessoas tão doentiamente crentes no “senso comum” que preferem decapitar o relacionamento antes que ele ameace adoecer, ou sequer espirrar. Repetem papagaiamente que “a fila anda” e que “o importante é ser feliz” para esconder que não têm peito suficiente de procurar o iogurte que ele/ela gosta, de lembrar do aniversário, de encarar homem gripado ou mulher na TPM. De gastar um mínimo de tempo para fazer alguém (um pouco mais) feliz. O segundo caso é o de quem, ao contrário, refestela-se na crença de que nunca abandonará ou será abandonado e, portanto, acha que não têm motivo suficiente de procurar o iogurte que ele/ela gosta, de lembrar do aniversário... De gastar um mínimo de calorias para fazer alguém (um pouco mais) feliz. O problema não é do hábito, mas do habituado – o habituado a achar que o outro não vale seu esforço, seja de aceitá-lo, seja de (re)conquistá-lo. O problema, em última instância, é a descomunal importância que inventamos para nós mesmos (nosso tempo, nossa vontade, nossa realização) e roubamos proporcionalmente dos outros. Como de costume.

8 comentários:

luciana disse...

os filmes do woody allen sao bons, mas nao acho nada la essas brastemp. assisti vichy cristina barcelona e é um filme legal, mas nada maravilhoso como dizem.

luciana disse...

nao caio mais nessa do woody allen nao, vejo gosto, mas nao suspiro.

jaka disse...

Recentemente eu vi Vicky Cristina Barcelona, acho q na HBO, esperava mais desse filme, porem gosto da visão do Woody Allen do "pessimismo realista" dos filmes dele, sempre há uma liçao q se pode tirar deles.

Nanda Oliveira disse...

Os comodados. Se acomodar com a vida, com o dinheiro, com tudo é rídiculo. Não só ridiculo, é triste, uma pessoa q se acomoda com o amor, com aquela mesma pessoa, com o minimo, vive do minimo e é minimamente feliz.
Isso é horrivel.
Mas o pior é q existe amor por convivência, era assim, afinal, os casamentos do temp oda minha avó. ;//

BEIJOS !

Cíntia L. Freitas disse...

Nossa, muito bom o seu texto. Parabéns.

Macaco Pipi disse...

o cara só faz filmaooo

Neuro-Musical disse...

Além de uma critica, você nos levou a uma reflexão muito interessante. Não há como escapar da rotina, fato. Mas há como torná-la mais agradável ao lado de quem se gosta.

http://cerebro-musical.blogspot.com

indivídua disse...

eu faço minha as tuas palavras sobre hábito... acredito que uma rotina pode ser um porto seguro para os casais... e sobre o woody, este está igual peru: todo ano tem um, tá insosso mas as pessoas insistem em dizer que gostam...

http://celuliteseoutrasestranhezasdemulher.blogspot.com/