27/11/2009

Start

A notícia de que a Atari relançou seu website e, como estratégia para chamar a atenção do público, disponibilizou gratuitamente alguns de seus arcades mais clássicos, como Asteroids, Adventure e Battlezone, mexeu com a minha memória afetiva – esta superfantástica amiga, capaz de guardar de tudo um pouco sem reclamar da poeira e do acúmulo de bugigangas.
Verdade verdadeira, não me lembro desses jogos que a Atari resolveu ressuscitar depois de tantíssimos anos. Minha lembrança dos tempos em que a gente enchia a mão de calos tentando controlar o joystick começa com o Pac-Man, conhecido também pelo carinhoso apelido de Come-Come. Era difícil engolir todos os tracinhos da tela sem ser “consumido” pelos fantasminhas nada camaradas (ao som daquela trilha eletrônica que todo atariano há de se recordar).
Outro clássico das minhas férias (quando o tempo era inteirinho dedicado a bater recordes no mundo virtual) era o River Raid, com um aviãozinho que tinha de detonar aeronaves e navios inimigos sem se esquecer, claro, de reabastecer nas faixas vermelhas e brancas com a inscrição “fuel”. Até pontes eu derrubava! Com tiros hoje inofensivos, de pouquíssimos kilobytes...
Eu também não resistia às desventuras em série do Pitfall, no qual um rapazito vestido todo de verde tinha de encarar os maiores desafios numa floresta barra-pesada: buracos, troncos de árvore desgovernados, lagoas infestadas de jacarés, escorpiões e outros bichos. Era preciso coragem e talento de Indiana Jones para sobreviver a tantos perigos!
Muitas saudades desse planeta de traços simples e aventuras infinitas chamado Atari. Talvez o charme que hoje enxergamos nele – um charme retrô – esteja justamente no fato de ser ele apenas um esboço da “realidade”, um rascunho “malfeito” – mas não menos divertido – de mundos possíveis e impossíveis, em que podíamos imaginar com mais liberdade, sem a interferência de zilhões de gigabytes...
Ih, lá vem o fantasminha!... Game over.

21/11/2009

Para quem acredita em fantasmas

Faz uns dias fui ao cinema assistir à enésima adaptação do clássico Um conto de Natal, de Charles Dickens, desta vez com Robert Zemeckis na direção e Jim Carrey como o patinhas da vez, o “bom” e velho Ebenezer Scrooge. Gostei. Primeiro porque não tentaram reinventar a árvore de Natal. Embora tenham utilizado as técnicas mais avançadas de animação (inclusive 3-D), as inovações param por aí. O filme segue passo a passo as linhas deixadas pelo escritor inglês − sem medo de, num mundo tão material e cínico, parecer ingênuo ou mesmo bobo.
E é aqui que mora a segunda razão, que ainda é um pouco da primeira, por que gostei de Os fantasmas de Scrooge (dispensável novo título dado a essa “nova” versão de A Christmas Carol): o espírito do original − com trocadilho, claro − foi mantido. Não se procurou relativizar ou suavizar as ideias moralistas de Dickens: estão lá o Scrooge antes dos fantasmas − avarento, mesquinho, cruel e que não suporta jingle bells, nozes e avelãs − e o Scrooge depois dos fantasmas − inacreditavelmente arrependido de suas vilanias, magicamente tocado por sentimentos de bondade e generosidade. Um homem renascido de suas cinzas.
Mas... e a digníssima plateia? Como reagiu diante de um final tão feliz, tão "convencional", tão “ingênuo”, tão “bobo”? Como um sujeito que esqueceu os bons valores (e hoje seria comparável a um ricaço apenas preocupado com os valores da bolsa de Nova Iorque) pode se transformar da noite para o dia; e mais, graças à visita de três fantasminhas “camaradas”? Lucros e dividendos à parte, o fato é que o público − na maioria crianças − comprou a ideia e aplaudiu com entusiasmo ao término da projeção. Ok, ok, isso pode parecer pouco, quase nada; mas, num mundo pós-Shrek, acostumado a "rir" dos contos de fada e fantasma, já é muito. Acredite.

15/11/2009

Cilada

video
Pobre amigo. Foi convidado para ser padrinho de casamento. Ok, o convite veio de uma amiga muito querida, e o leitor dirá que é uma honra (e é mesmo). Bom, isso até a página dois. O rapaz tinha acabado de comprar roupa nova, daquelas para casamento e festas afins. Só que a camisa escura e a calça cinza, suficientemente caras, vão continuar no armário. Porque, para o casório da amiga, o uniforme é terno preto. Que puxa!
Mas os gastos não param no provável aluguel do traje de gala. Tem o presente. O famigerado presente dos padrinhos. Uma geladeira duplex, um fogão de seis bocas, um LCD de 42 polegadas? Sorte dele, a noiva já mobiliou a casa e, portanto, não deve estar precisando de “utensílios” tão grandes. Ufa, ufíssima! De qualquer maneira, essa é uma conta que se divide com a madrinha, que, não por coincidência, é sua namorada – e está em apuros bem maiores. Por causa do vestido longo (que, de tão longo, merece um parágrafo só pra ele).
Pois é, o incrível caso do vestido longo. Onde encontrar um vestido longo para uma madrinha curta, digo, baixinha? Nessas lojinhas de aluguel que “decoram” nossos shoppings? Se a festa fosse à fantasia, ok, seria possível achar alguma coisa ali. Se fosse uma festa mais moderninha, informal, dessas em que os convidados recriam os zumbis de Thriller, dançam para a câmera e, no dia seguinte, para os milhões de usuários do Youtube, quem sabe. Mas não é o caso nem a ocasião – e a cruzada pelo Santo Vestido Longo continua...
Outra busca dificílima e longa, quase tão longa quanto o vestido da madrinha, é a canção que embalará a entrada dos padrinhos na cerimônia religiosa. Nesse quesito, a noiva é moderninha – o que tem tirado o justo sono do meu amigo e da sua namorada. Que “homenagem amiga”, guardada a sete chaves, estará reservada para eles quando pisarem o tapete vermelho? “Amigos para sempre”, “Canção da América”?...
É, amigo, a situação é delicada, eu sei (e agora os meus leitores sabem também); por isso, vou acender umas velas, comprar umas rosas bem bonitas, botar uma roupinha melhor, chamar um coral de meia dúzia de amigos do peito, de fé, irmãos camaradas (a Julia Roberts e a Cameron Diaz não estavam disponíveis, infelizmente), e say a little prayer for you...

11/11/2009

Já dizia o profeta

13 de novembro é o Dia Mundial da Gentileza. Se fosse cumprida à risca, pra valer mesmo, essa data substituiria uma cambada de outras comemorações. Claro que é fantástico ter uma penca de festividades ao longo do ano (adoro), mas seria ainda mais perfeito e civilizado não ter sequer a necessidade delas. Se o Dia da Gentileza fosse tão, mas tão sério que se estendesse pelos outros 364 dias (como é a proposta), qual o sentido de haver um quadradinho específico, na folhinha, para lembrar os filhos distraídos de ligar para suas mães – ou pais? Não haveria, afinal, qualquer mãe (ou pai) negligenciada(o) neste mundo, pois a gratidão é uma gentileza retrospectiva. Pra que um dia exclusivo de beijos e abraços namorados, se os casais abririam na agenda romances espontâneos, presentes just because, surpresas diárias? O amor nada mais é, ora bolas, do que uma gentileza persistente, criativa e criadora. Qual o propósito de um dia único para as mulheres, se em cada um deles os homens seriam corteses como Lancelot (e, mais do que corteses, justos – porque a justiça é uma gentileza social)? Até aniversários ficariam praticamente obsoletos, já que gentileza é a própria celebração do outro; é um parabéns contínuo, um “bem-vindo” cotidiano, um “você merece!” constante. Mesmo que, de vez em quando, não se mereça tanto assim.
Ninguém ache que acredito em pollyannices. Um mundo assim irretocável não brotaria, prontinho, entre uma dormida e uma acordada – cruzamento de uma epifania celeste com um “X” no calendário. Gentileza é músculo invisível do corpo: tem que exercitar. Sua ativação não é espontânea, como não é espontâneo o endurecimento do bíceps, tríceps ou coxas. Não é fruto de sentimento, e sim de decisão. Se fruto de sentimento fosse, estariam abonadas todas as grosserias feitas àqueles que não (ou que mal) conhecemos, que não amamos, de quem sequer gostamos. Estaria perdoada toda estupidez passional cometida nos dias em que sobra perrengue e falta estrogênio (ah, as meninas sabemos como é crucial essa falta). Nada; gentileza é filha de muita malhação, de disciplina similar à que se tem na academia. É agir que independe do sentir. Nosso adorável profeta dizia, corretissimamente, que gentileza gera gentileza. Pois a máxima não se aplica somente à reação alheia: quanto mais aquecemos o músculo da gentileza, tanto mais fácil também se torna, para nós, colocá-lo de novo em prática. Quanto menos o usamos, mais ele se atrofia e mais nos “ursamos”. Árduo, mas real: ser gentil é a única coisa que pode atenuar o esforço de ser gentil, assim como o costume com a carga mais baixa de um exercício físico é o que nos permite passar para a próxima.
Se amor é uma gentileza persistente, gentileza é um amor proposital. A gratuidade de se transbordar e adivinhar o outro. Vai além, muito além de “bons-dias” e “com-licenças” mecânicos: exige a delicadeza de prever (por exemplo, posicionar-se na escada rolante de modo a não barrar o trânsito dos mais apressados; não demorar vinte minutos no caixa eletrônico) e a delicadeza de aceitar (não bufar ruidosamente, digamos, se a senhorinha à frente demorar vinte e seis minutos no caixa eletrônico). Difícil? ninguém disse que era moleza, sobretudo nos dias em que saímos de casa sedentos de voltar com algum escalpo, qualquer um. Mas não é preciso ser aquele que sai munido da tinta mais pollyannamente cor-de-rosa, se ela não lhe assenta: cada um colore o dia do seu jeito, cada um é gentil numa cor. Desde que se seja a mão que produz a beleza, e não aquela – como a que apagou as inscrições no Viaduto do Caju – que a atropela e destrói em nome de uma suposta “ordem” ou “eficiência”, pintando o dia inteiro de cinza. Um cinzinha nada básico.

31/10/2009

Os outros

Pode-se não gostar de um filme e achá-lo muito bom ao mesmo tempo. Isso foi o que concluí ao assistir a Distrito 9 (produção mais recente de Peter Senhor dos anéis Jackson), por insistência do Fábio, que já namorava o longa há algumas semanas. Não é para estômagos de sangue quente, e por isso não posso dizer que achei propriamente uma delícia a experiência sensorial – embora no roteiro, nos efeitos, na inovação e na coragem a produção seja, sem dúvida, impecável. Seus primeiros trinta, quarenta minutos se aproveitam de nossa nobreza ao mostrarem uma “favela alienígena” no esplendor de seu asco: criaturas repulsivas, barracos nojentos, vacas mortas dependuradas servindo de “berçário” a ovos de ETs, imagens quase fétidas, o horror, o horror. Tudo isso seguido pelas reações físicas não menos desagradáveis que Wikus Van De Merwe (o protagonista “humano”) tem ao se contaminar com o fluido alienígena. A partir daí, vencidas as primeiras náuseas, o filme engrena bonito. Não que haja réstia de beleza nas cenas áridas e violentas, e sim na habilidade fantástica com que se misturam ação, perseguição, documentário, ficção científica, política, heroísmo e denúncia social, numa história que encarna um perfeito mestiço de Cidade de Deus com A bruxa de Blair e A mosca.
Mestiçagem, por sinal, é a alma do filme. Não apenas seu formato representa a fusão de vários gêneros (tão bem tecida que não notamos o privilégio de um ou outro): seu conteúdo é um grito pela miscigenação dos pensamentos, dos quereres. Numa proposta subentendida, não há meio de compreendermos e respeitarmos o alheio sem, de certa forma, nos misturarmos a ele – emprestando um pouco de sua vida à nossa vida, de seus olhos aos nossos olhos. Propositalmente, Distrito 9 nos leva a detestar os ETs enquanto Wikus Van De Merwe é 100% terráqueo, e simpatizar com eles quando o protagonista começa a se tornar fisicamente igual aos “camarões” (nome pejorativo dado aos aliens) e a procurar abrigo no mesmo gueto que antes destruía. Wikus nunca é tão plenamente humano como quando seu DNA já é, em grande parte, alienígena, uma vez que a vivência do perseguido resgata nele a empatia que deveria nos definir por essência. Também de propósito, e em contraste com a situação de Wikus, estão representadas na história diversas maneiras (anti)“humanas” de ser em relação ao outro: a destruição do diferente por razões “científicas” (como nas antigas experiências nazistas), a exploração comercial, a devoração literal das qualidades alheias (encarnada pela gangue nigeriana liderada por Obesandjo, que pratica “alienfagia”). E, para reforçar a ideologia antipreconceito nem tão subliminar, o cenário escolhido para o estacionamento da nave-mãe dos ETs (e para a criação do Distrito 9) não é Nova Iorque, Washington ou qualquer outro top ten de filme-catástrofe, e sim Johannesburgo, na África do Sul – terra que ainda manca pelas sequelas do apartheid.
Distrito 9 nos causa repulsa, sim; mas a aversão física que abre o longa se esvai, para dar lugar ao nojo social. De nós mesmos. De como o sentimento que nos leva a proteger nossa espécie pode nos transformar em uma outra – no mau sentido. De como a genética que nos distingue pode, facilmente, servir de pretexto à frieza que nos nega. De como jogamos fora, em nome daquilo que nos humaniza visualmente, aquilo que nos humaniza efetivamente – e que é tão essencial quanto (para lembrar a velha raposa do Pequeno príncipe) invisível aos olhos. De como nós também podemos ser o inferno dos outros.