28 de dez de 2009

Mais amor que simpatias

Quando nascer outro ano
entre doze badaladas,
mergulhe já de mãos dadas
na vida, não no oceano.
No lugar dos três pulinhos,
dê três milhares de abraços,
e cubra de novos passos
os mesmos velhos caminhos.
Em vez dos ramos de flores
depositados nos mares,
jogue em todos os lugares
bons-dias e por-favores.
Em vez das taças de vinho
e dos pratos de lentilha,
leve porções de família
para quem está sozinho.
Em vez de palavras vazias
e rituais desgastados,
espalhe por todos os lados
mais amor que simpatias.
Não guarde no vão da carteira
poucas sementes já mortas,
mas plante sementes e portas
que durem a vida inteira.
Junte cada qual das peças
que ainda estão em colisão,
pois mais vale um só perdão
que milhares de promessas.
Sobretudo, o traje urgente
que cada um deve pôr:
uma roupa de qualquer cor
e um coração transparente.

23 de dez de 2009

Os fantasmas dos Natais passados

Eles me assombram todos os anos, no dia 24 de dezembro. Vai chegando a noite e, junto dela, meus pais, meu irmão, meus tios, minha prima. A (parte mais próxima da) família em torno da mesa da sala de jantar, usada raramente durante o ano, mas sempre no Natal. Mãe estende uma toalha bonita, arruma os pratos, os talheres, traz a salada de bacalhau, o bolo de frango, o pudim de leite, as castanhas, nozes e avelãs. E começamos a ceia ainda no meio da novela.
Nossa árvore, pequena no tamanho, mas capaz de abrigar todos os presentes do mundo – e as lembranças deste ultramenino que vos escreve –, espera sua vez enquanto pisca-pisca. O som tocando baixinho as canções natalinas da Simone e do Ray Conniff. Então é Natal! Jingle bells, jingle bells, jingle all the way! Que seja feliz quem souber o que é o bem... Oh what fun it is to ride in a one-horse open sleigh!
Começa o especial da Xuxa, e a gente começa a trocar os presentes, um de cada vez, com direito a fotos e filme que quase nunca conferimos depois: Mãe presenteia Pai, eu presenteio o mano, Tia presenteia Tio, minha prima me presenteia, Mãe presenteia Tia, meu irmão presenteia Pai, e assim vamos nós por mais de uma hora, rindo, falando as mesmas bobagens do ano passado, dos anos passados... Até a última fotografia, todos amontoados sobre o sofá da sala, e a mesmíssima festa.
Como se perseguissem o velho Scrooge, esses fantasmas mais do que camaradas hão de me assombrar novamente no próximo dia 24. Eles não desistem; são tão reais quanto o Papai Noel (que existe e vem, se deixarmos o sapatinho na janela do coração). Sorte a minha que tenho sempre esse Natal “assombrado”, que nunca precisei pedir um mundo diferente – que sei bem o que é ganhar, embrulhada num presente, a felicidade.

21 de dez de 2009

Delicatessen

Assim como os já manjados (com trocadilho, por favor) A festa de Babette, Como água para chocolate, Chocolate e Ratatouille, o atual Julie & Julia é sobre a alquimia do cozinhar. E, assim como todos os seus pares, Julie & Julia não é apenas sobre a alquimia do cozinhar – usando as artes da panela ora como símbolo, ora como colete salva-vidas em relação ao mundo cruel. O de praxe, o de sempre. Mas aquilo que, em A festa de Babette, era sinal de gratuidade e generosidade; que, em Como água para chocolate, era desafogo dos sentimentos recalcados; que, em Chocolate, era veículo de transformação social; e que, em Ratatouille, era demolição dos preconceitos – torna-se agora, no filme de Nora Ephron, a própria chance de realização pessoal. Uma luzinha no fim da pergunta “O que estou fazendo aqui?”. É um posto relativamente novo. Babette, Tita, Vianne e Remy, protagonistas dos outros filmes citados, simplesmente cozinham – têm esse dom sem grandes explicações e constroem suas histórias já contando com o talento prévio. Julie Powell e Julia Child, personagens-título do longa atual, aprendem a cozinhar – são suas histórias que as levam a construir, desenvolver e aperfeiçoar o dom, dando-lhe não mais o jeitinho de poder mágico, e sim de recheio e tempero dos dias. Eis que a alquimia se mostra como um fim, e não um meio (ou começo). Julie e Julia não são, a priori, perfeitas fadas da cozinha, embora tenham nascido com a semente; é a cozinha que, depois de muito frequentada e buscada, lhes dá o condão e as asas que não tinham em sua vida “pregressa”.
O fato de Julie e Julia não terem poderes mágicos, porém, não significa que Julie & Julia não os tenha. É uma daquelas guloseimas com selinho Wonka de qualidade, filme perfumado e generosamente saboroso como uma delicatessen em que se passeia, de propósito, para ficar com água na boca dos cheiros e paladares variados. Daquelas histórias onde não há nada que não deixe na língua um resíduo bom de biscoito amanteigado e baunilha. Para os profissionalmente desiludidos, serve de bandeja a comfort food de dois relatos de sucesso. Para os blogueiros desesperançados, o exemplo de uma iniciativa que acertou o ponto. Para os cozinheiros enrustidos, a pitadinha de coragem que acaba de encorpar o molho. Para os românticos (in)confessos, o açúcar de dois casamentos ultrafelizes (que, no entanto, não são capazes de diabeticar ninguém). Para os fãs de Meryl Streep, a diva em mais uma deliciosa composição de personagem, afetado na aparência, mas rigorosamente reconstituído. Para os neofãs de Amy Adams, a fofa cada vez mais fofa – cupcake que desmancha nos olhos de tão macio, mas na medida certa. Para qualquer cinéfilo de bom gosto, o petisco extra: mais um adorável Stanley Tucci na vasta galeria de adoráveis Stanley Tuccis, sempre roubando (justamente) algumas atençõezinhas do prato principal.
No momento em que todas as telas se voltam para o arrasa-quarteirão Avatar (que não deve ficar fora aqui do blog por muito tempo), veja Avatar, mas dê-se de sobremesa esta outra delícia de essência puramente natalina, familiar e quente como uma ceia repleta – e, como a ceia repleta, de resultado não totalmente perfeito, mas sinceramente feliz. Em meu humilde cardápio retroativo de 2009, é quitute já garantido entre os top ten. Bon appétit!

17 de dez de 2009

Um show de rock’n’roll

Em meus 29 anos de vida, nunca tietei artista nenhum – mas devo confessar, sem medo de mentir, que o Roupa Nova me deixa perigosamente perto disso. Amor nascido numa infância de anos 80, por causa da irmã nove anos mais velha que quase furava os discos do grupo, de tanto os fazer girar, girar, girar, girar, girar, girar na antiga vitrola. Amor nascido de cada tema de novela, de cada nota que sabia o jeito e o lugar de acariciar os ouvidos, de tornar o mundo todo azul. Mas show dos meninos, que era bom, nunca tinha visto: era sempre longe demais, tarde demais, dia de semana demais, eu criança demais. Ou eu simplesmente andava meio desligada, desremunerada, e perdia a chance. A felicidade então nos sorriu, e o Fábio logo espalhou a novidade pelo ar: show do Roupa no Citibank Hall! Desta vez, tudo batia – cidade, idade, calendário, finanças... Agora sim, agora vai: hora de finalmente comprar o que a infância sonhou!...

Compramos: eu, Fábio e – claro – a irmã nove anos mais velha, que quase furava os discos do grupo (e hoje fura os CDs). O prometido repertório deste Roupa Nova em Londres era uma mistura das canções do novo álbum com aquelas que deliciaram gerações a fio. Prometido e cumprido com precisão britânica. Tudo começa com uma simpática animação dos meninos no telão, desfilando na terra da rainha. Já no palco, Paulinho e seu vozeirão abrem os trabalhos com “A cor do dinheiro”, reciclagem do sucesso “Correndo perigo”. Em seguida, ele e Serginho alternam as classiconas “Sapato velho” e “Linda demais” – nunca velhas, sempre lindas – e as carentes “Toma conta de mim” e “Volta pra mim” (o hino sagrado da dor-de-cotovelo music). Emoção à flor da pele. Ricardo Feghali adentra o palco com sua fofíssima guitarra cor-de-rosa da Hello Kitty. “Gostaram da guitarrinha? Tô muito viado com ela?”, ri o figuraça, convocando a participação do público em “Cantar faz feliz o coração”. Faz mesmo. Principalmente quando é Serginho quem canta, com sua voz de carinhar, um medley de delícias como “A viagem”, “Anjo”, “Sonho”, “Amar é”, “Seguindo no trem azul”, “Começo, meio e fim”... Mil motivos para amar Serginho – e gritar para todo mundo ouvir. Paulinho faz um solo de percussão e enche a casa de “Felicidade”. Ainda ao som de “Clarear”, tudo se apaga; iluminando-se apenas com uma lanterna, Nando discursa, ecologicamente, por um pouco de luz nessa vida. Mas falar é pouco pra quem quer mais. Após a dobradinha cardíaca “Coração da terra” e “Coração pirata”, o dueto virtual “Reacender”, as românticas “Mais feliz” e “A força do amor”, as agitadas “À flor da pele” e “Todas elas”, os indefectíveis acordes de “Dona” e a desesperada “Meu universo é você”, reúnem-se todos os roupas no palco, lado a lado. Bom sinal! Já é tempo de uma homenagem dos seis rapazes do Rio aos quatro de Liverpool. Perfeição absoluta, “She’s leaving home” nos rouba a respiração – algo assim transcendental.

... Que vira o maior carnaval. Quase no fim da festa, ao rock então o grupo (e a gente) se rendeu: Roupa Nova na veia, fazendo diferente o que mais ninguém faz. Somos convocados para a beira do palco – onde me materializo sem pestanejar. “Lança-perfume”, “Show de rock’n’roll” e “Whisky a go-go” nos viram de ponta-cabeça, nos fazem de gato e sapato; não dá pra ficar imune. A noite inteira passa num segundo, neste segundo, e os meninos se vão. Snif. Volta pra mim, Roupa, pra todos nós! Eles voltam, como que desafiando: do you wanna dance? E então atacam num medley furioso que vai de “Sweet child o’ mine” a “We are the champions”, passando por “Have you ever seen the rain”, “Stayin’ alive”, “Twist and shout”, “Satisfaction”, “We will rock you”... They do rock us, meus dedos tocam os de Paulinho e os de Nando, um autógrafo de Paulinho vem cair aos pés do Fábio. Sonho plenamente realizado, pacote ultracompleto (incluindo camiseta e pingente comprados na lojinha externa). E mais um item da wish list riscado com lápis de ouro – mas só até a próxima vez, porque o coração... já se apronta pra recomeçar. Sabe como é. Um sonho a mais não faz mal...

7 de dez de 2009

Ensaio sobre a conveniência

Hoje decidi bancar a Martha Medeiros e escrever – escrever não, fi-lo-so-far – sobre nossa vidinha mais ou menos. Nada de cinema, tevê, música ou outro alucinógeno que faz a gente sonhar que vive numa galáxia muito, muito distante ou naquele Leblon que parece pertinho, mas não é. A vida nem sempre tem efeitos especiais, não é o tempo inteiro como um intervalo de margarina, muito menos toca suave 24 horas por dia como uma canção do Elton John.
Ok, ok, estou sendo radical. Há Spielbergs por aí com bons truques na manga, capazes de nos fazer acreditar no velho e surrado futuro da humanidade; há dias em que o margarina way of life parece real; e há até noites em que o Rocket Man cisma de fazer um show na Apoteose. Ainda bem. O mundo agradece.
Mas o ensaio aqui é sobre aqueles dias e noites em que nos achamos (quase) um lixo, quando temos um instante de lucidez e percebemos que as pessoas gostam da gente não exatamente pelo que somos, mas por aquilo que oferecemos. Como uma lojinha de conveniências, aquela que você visita depois da meia-noite só porque está precisando de um cigarro, de um salgadinho ou de umas pilhas.
Pense bem: sua sogra te “adora” porque você é “sensacional” ou porque você cai como uma luva no tipo de cônjuge com o qual ela sonhou para sua cria? Você está com seu/sua companheiro/a porque o/a admira ou porque ele/a se ajusta exatamente àquilo que você sempre imaginou ser o ideal para uma vida a dois, àquilo que lhe é mais... conveniente?
E a coisa se estende: você vota no candidato X porque ele promete podar as árvores do seu bairro ou porque ele promete cuidar de toda a cidade? Você torce pelo time Y porque é seu time do coração ou porque de fato merece ser o primeiro? Você se aproxima do sujeito Z porque te faz rir hoje, na mesinha do bar, ou porque te fará rir mais à frente, com um empurrãozinho no trabalho?
Essas perguntas parecem idiotas, provocam algumas respostas óbvias, e são tudo isso mesmo. A sogra adora o genro porque cai como uma luva no tipo de marido com o qual ela sonhou para sua filha. O rapaz gosta da moça porque a admira e ela se ajusta exatamente àquilo que ele sempre imaginou para uma vida a dois. Esse mesmo rapaz vota no candidato X porque ele prometeu podar as árvores do seu bairro (da sua rua, na verdade...), cujos galhos estavam invadindo sua janela. Ele torce pelo time Y porque é seu time do coração e, por isso, merece ser o primeiro – sempre. Ah, e ele se aproxima do sujeito Z porque sua vidinha mais ou menos estava de menos e precisava urgentemente de uma pitada de bom humor. Conveniente, não?