27 de mar de 2009

Hoje vai ser uma festa

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Ela fazia a gente acordar todo dia, bem cedinho, nos coloridos anos 80. Fazia a gente comer aquele pão quentinho e gostosinho, tão saboroso, um arrepio, de querer mais um (mais um!). Xegava Rainha, de ombreiras e botas, em sua nave espacial – para brincar, pular, dançar, correr, cair no xão. Fazia da nossa manhã um circo: a foca com a bola no nariz, o elefante bancando o xafariz, a macacada toda de uma vez. Fazia da nossa vida uma festa do estica-e-puxa, com direito a pinguim tomando sauna, escoteiro vestido de general, o He-Man dançando um rock gravado por Tom Jobim, a She-Ra namorando o Esqueleto no jardim (!). Vivia inventando danças novas, feito o xuxuxu-xaxaxá e o tindolelê. Brincava de índio, liberava geral, estava sempre de bem com a vida, de vento em popa, feliz pra burro, assim com o mundo. Também nos ensinava o a de amor, o b de baixinho, o c de coração, o i de ilariê – e x o que que é? Lua de cristal que fazia a gente sonhar, fazia a nossa vida xeia de emoção. Com essa gauxinha de Santa Rosa, era bom demais ser moleque, deixar correr solto o que a gente quisesse, ser super-humano, superincrível, sentir o xeiro da bala, do capim, até do xulé. Maria da Graça era – e continua a ser, aos 46 anos, completados hoje – um arco-íris de energia. Parabéns, Xuxa!

21 de mar de 2009

Quem poderá nos defender?

É provável que tudo tenha começado com a explosão de Krypton: o Superman de Richard Donner caiu na Terra feito meteoro em 1978 e mostrou ao mundo o quão para-o-alto-e-avante poderia voar um filme que bebesse na fonte dos quadrinhos. Uma narrativa clássica sobre (quem sabe) o maior super-herói de todos os tempos, ou pelo menos o mais forte – certamente o mais politicamente correto, o exemplo a ser seguido, a estrela-guia em azul e vermelho. Quase dez anos depois vieram os Batmans de Tim Burton, com cenários ultragóticos e vilões incrivelmente fantásticos, como o Coringa de Jack Nicholson e a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer. Por fim, adentraram na passarela os Batmans de Joel Schumacher, que transformaram a saga do morcegão – e dos super-heróis no cinema – em purpurina...
O século XX já dava os últimos acenos, e os justiceiros fantasiados pareciam definitivamente condenados à aposentadoria. Mas só pareciam. Porque eis que surge um moço chamado Bryan Singer na direção de X-Men, uma adaptação sóbria – I mean, sem collants amarelos – e muitíssimo fiel ao espírito dos mutantes. Mas Singer não estava sozinho na Sala de Justiça. Sam Raimi, Peter Parker e o Homem-Aranha deixaram sua spidercaverna para provar que um super-herói podia ser mais do que um sujeito mascarado, disposto a escalar arranha-céus pendurado numa teia – ele podia ser um homem de carne-e-osso e enfrentar as "grandes responsabilidades" do dia-a-dia, aquelas que não precisam de "grandes poderes" para serem assumidas.
Infelizmente, no entanto, tudo no cinema tem duas caras: para cada Homem-Aranha, X-Men ou Iron Man (outra adaptação pra lá de bem-sucedida), há duas ou três Muheres-Gato com figurino de Elektra... "Santas porcarias, Batman!", diria o menino Robin, nesse caso um prodígio de bom gosto (porque aquele conjuntinho sunga verde, colete vermelho e capa amarela, cá entre nós...). Por falar no homem-morcego, não é que o Sr. Wayne pôs outra vez Gotham City no mapa das telonas? Graças à direção de Christopher Nolan e a um roteiro com pegada mais realista, o Cavaleiro das Trevas ressurgiu (in)crível em Batman begins e virou obra-prima em The Dark Knight – claro, com a colaboração insanamente estupenda do Coringa de Heath Ledger.
Após o sucesso de crítica e público do filme estrelado por Christian Bale, restou uma charada e tanto a ser decifrada, bem mais "difícil" que Bruce Banner em dia de mau-humor: que caminho tomarão os próximos longas inspirados em HQs de super-heróis? A resposta pode ser Watchmen, o calhamaço cinematográfico de Zack Snyder baseado nos doze volumes escritos por Alan Moore e ilustrados por Dave Gibbons – um filmaço apenas para adultos, no melhor sentido do termo, em que os personagens mascarados (de fato ou metaforicamente) são humaníssimos, por que não dizer super-humanos, e têm de encarar o maior arquivilão de todos. Eles mesmos.

14 de mar de 2009

Gracinhas

Faz alguns dias que estou tentando escrever alguma coisa sobre a entrevista da Hebe à Marília Gabriela que foi ao ar no último dia 8, no canal a cabo GNT. Era uma ótima oportunidade de falar do Dia Internacional da Mulher, dos inacreditáveis oitenta anos da mais antiga apresentadora da tevê brasileira, do quão bom é o programa da Gabi... Mas que nada! Foi um tal de escrever e apagar, escrever e apagar até...
... eu cair de cama por causa de um piriri. Foi na quarta-feira. Acordei com diarreia e náusea. Não conseguia botar isso no estômago. Nem fui dar aula – não me aguentava em pé. Na quinta, até levantei melhor, mas ainda enjoado. E tome Floratil, Plasil, mais algum remédio de sufixo -il... e, ah!, a sopinha de feijão da mamãe, com legumes picados, macarrão-parafuso e carne moída. Nhami, nhami!
Agora já estou recuperado, pança zerada, prontinha para o próximo rodízio de pizzas, o próximo sanduíche do McDonald's, o próximo docinho de sobremesa. Só que a cabeça não zerou junto, pois continuei querendo-tentando escrever alguma coisa sobre a entrevista da Hebe, sobre o quanto ela não gosta de remexer no passado – porque "prefere olhar pra frente" –, sobre o quanto curte a vida sem pensar nas artrites da idade, ou sem se importar com o que as pessoas acham dela, de seus figurinos alegres, de seu jeito perua de ser.
Seria tão bacana dizer que a Hebe não faz análise, não precisa de psicólogos e afins. Afinal, tem seus animais de estimação, como as galinhas Chambica e Chamboca, que fazem companhia a ela, que a escutam com paciência de psiquiatra. Seria interessante também falar da paixão e do tesão (sic) dela por Roberto Carlos. Cá entre nós, ou a mulher não tem vergonha de expor sua atração (física mesmo) pelo Rei ou está fazendo piada. Ou as duas coisas.
Mas o melhor de tudo – o que ainda me fez-faz ter vontade de escrever alguma coisa sobre essa entrevista – foi a frase, palavra ou verso de preferência que Marília sempre pede ao convidado do dia antes de encerrar seu programa. É costume o entrevistado encher o peito, fazer aquela cara de conteúdo e lembrar um poema de Pessoa, uma letra de Chico Buarque, um pensamento de Confúcio. Mas não a Hebe.
– Gosto muito daquela... Como é mesmo? É dando, é dando...
– ... que se recebe? – completou Marília, tentando ajudar.
– Não, não, é dando que se engravida!
É ou não é uma tirada digna de fechar com chave-de-loura um bate-papo entre duas mulheres tão bem-sucedidas em suas respectivas carreiras? Também é ou não é um excelente ponto de partida para uma crônica despretensiosa, ao menos agradável de se ler? Mas desta vez não deu. Já era. Desisto. Tentei, me esforcei e, após dias quebrando a cabeça, o máximo que consegui foi uma dor de barriga. Chega!

8 de mar de 2009

Eu não sou cachorro não

Toda temporada de Oscar é a mesma coisa: uma certa decepção em relação aos esquecidos (Por que não Wall.e? Por que não Batman?) e um certo tédio em relação aos indicados (lá vem mais filme deprê, de grande-biografia-americana, político...). Não é à toa que, invariavelmente, nosso top ten no fim do ano acaba excluindo os preferidinhos da Academia. Sim, em geral são trabalhos corretos; mas muito técnicos e sem pegada, sem aquele frescor da exceção à la Juno. Este ano, porém, apesar da decepção e do tédio das indicações periféricas – Milk, O leitor e cia. –, o acerto principal compensou tudo. Num ato de ousadia bissexta, eis que o troféu vai para uma história que não é apenas realidade-nua-e-crua, de tiros voando e mundo se deteriorando. Quem quer ser um milionário? (Slumdog millionaire), grande campeão de 2009, ganhou com realidade sim, mas também com doçura, jeitinho de conto de fadas e despudor da própria felicidade. Ou seja: ainda que tenha embolsado o Oscar, é filme para realmente se gostar.
Misture num panelão a favela, as gangues e as malandragens de Cidade de Deus (com direito a um moleque que é projeto de Zé Pequeno), as coincidências premonitórias de Sinais (com muito mais charme e melhor costura), as perguntas do Show do milhão, o remelexo de Bollywood e derrame tudo sobre um romance de Charles Dickens. Este é Slumdog millionaire, pérola globalizada de simpatia. Impossível não torcer para o protagonista Jamal Malik, herói à moda mais antiga, como só os Peris, D’Artagnans e Lancelots sabiam ser. Nada de anti-herói pastoso, que flutua entre luz e sombra; nada de Macunaíma. Como os órfãos desventurados e determinados de Dickens, Jamal “corre atrás” com integridade, peripécia após peripécia, na busca fiel de seu Graal (um dos maiores obstáculos, aliás, é um personagem bem dickeniano, que lembra Fagin – o explorador de crianças de Oliver Twist –, mas de modo mais sombrio). Jamal é inocente; não é ingênuo. E, adoravelmente, não há nenhuma negativização de sua inocência heroica, de sua postura caval(h)eiresca, a despeito das modernices atuais – que acham fashion demolir e relativizar. Em Slumdog, mocinhos e vilões estão em seus campos tradicionais, sem muito espaço para relativizações. Escolha ousadíssima. Esteticamente, é muito mais fácil ser muderno, dá muito mais ibope ser iconoclasta. Difícil é construir uma obra nota dez com esse grau de maravilhoso maniqueísmo.
Não é que o roteiro seja perfeito; não é. A referência ao deus Rama, por exemplo, fica ligeiramente confusa, tanto quanto alguns detalhes sobre a maneira de Jamal saber certas respostas (basta já ter cantado uma música para guardar o nome de seu letrista?). Mas o conjunto é tão acertado, tão funcional, que a gente perdoa. O título original diz tudo: apesar do ponto de partida modesto – mais uma história de Cinderela, que poderia ser um desastre de pieguice –, Slumdog é ultramilionário cinematograficamente, esbanjando cores e ângulos só seus, sem medo de ser feliz. Não é cachorrinho que entra clandestino no Kodak Theatre ou na Marquês de Sapucaí. É escola que entra na avenida pra ganhar, de coração inteiro e exposto, fazendo o povo sair contente e não dar a mínima para um ou outro erro técnico. Assim como Jamal Malik, o filme é simplesmente verdadeiro demais e conhece todas as respostas. Impossível não levar o prêmio. Estava escrito.

1 de mar de 2009

Guns and roses

Randy “The Ram” Robinson, personagem central de O lutador, é um gente-boa: trata com atenção os fãs, trabalha dignamente para pagar as dívidas, é querido pelos amigos, protege e corteja (com delicadeza atrapalhada) uma dançarina de boate, brinca boa-praçamente com as crianças, tenta humildemente se reaproximar da filha. Aquela velha história da fera sensível, o gigante de bom coração. E, como na velha história, o coração – em todos os sentidos – é o fraco da fera. Só não existe, nesta fábula, o mundo que trai e persegue o pobre “monstro”, nem o Adversário que incorpora o mal a ser vencido. Humana, demasiadamente humana, a narrativa é pós-moderníssima: Randy assume, ao mesmo tempo, os papéis de protagonista e de antagonista. Tal qual um Rei Midas às avessas, ou um serial killer de si mesmo, vai estragando progressivamente as próprias chances. Não por má intenção ou inconsciência; antes por distração, por fraqueza, por inabilidade. Humano – demasiadamente humano.
Muitíssimo tentador comparar o longa a outro recente exemplar dos ringues: A luta pela esperança. Enquanto o filme estrelado por Russell Crowe aposta na estrutura de conto de fadas redentor (a começar pelo título original, Cinderella Man), a história de Randy “The Ram” detona a lógica da Carochinha. Em A luta..., o espírito do herói garante a eficácia dos sopapos; a eficácia dos sopapos tem por objetivo a vitória e a sobrevivência digna do herói; os sopapos se destinam (pelo menos uma vez) ao verdadeiro inimigo: o combatente malvado. Em O lutador, a eficácia dos sopapos reside justamente em garantir o espírito do herói, que, através dos sopapos, deseja fugir da mera sobrevivência digna. Os sopapos se destinam sempre a amigos – e é engraçado vê-los combinando docemente a “coreografia” da luta, que pode incluir apetrechos de dar inveja ao psicopata Jigsaw. Terminada a carnificina, todos se cumprimentam e parabenizam, amicíssimos. Não há combatentes malvados. A vitória? é o que menos importa. Ao contrário de Jim Braddock (o “Cinderella Man”), Randy Robinson não luta para viver – em nenhum dos sentidos que possa ter essa afirmativa. Randy Robinson luta apenas para conviver consigo mesmo enquanto vive. Dá a si próprio o destino kamikaze dos incompetentes – aqueles que não veem infelicidades como estímulo para o nado, mas como desculpa para o afogamento.
Triste e demasiadamente humano, palpável, crível, “The Ram” é personagem que “existe de se pegar”, conforme diria Drummond. Homem de armas e de rosas (para combinar com a trilha sonora que o acompanha na luta final); homem de brutalidades e ternuras, de ringues farpados e de cartões para a amada. É fácil ter-lhe simpatia, é fácil torcer por ele. Difícil é construí-lo na medida certa, no pequeno espaço que desvia tanto da pieguice quanto da truculência. Golpe certeiro de Mickey Rourke, que detonou o rosto, mas bombou o talento. Apesar dos muitos pesares, surras e nocautes do meio do caminho, o moço mostra que continua (ou passou) a ser um ator tough enough.