28 de fev de 2010

Medo de lagartixa

Hoje acordei com uma vontade inexplicável de listar meus medos: os eternos, os temporários, os sérios, os bobinhos, os que me fazem parar, os que me fazem seguir. Alguns são tão óbvios e me causam tamanho pavor – o medo da morte, por exemplo – que não merecem o espaço de uma cova. É melhor fingir que não existem; se, por acaso, eles insistirem e derem o fúnebre ar da desgraça, o jeito é não ter medo – de fugir. É o que faço. Corro pra bem longe.
Só não quero ficar longe de quem gosto. Nem pensar. A distância é outro medo eterno e sério. Daqueles que só fazem uma crônica mais cinzenta do que deveria. Minha ideia inicial era escrever sobre o medo da colorida comida japonesa (já superado com os devidos sushis e sashimis); da cabeleira selvagem do Caetano tropicalista (felizmente há muito substituída por fios grisalhos e comportados, bem menos assustadores); e do Baixo Astral, o ultravilão que por pouco não descoloriu o arco-íris de energia da Super Xuxa.
Também tenho medo de passar a vida inteira e não rabiscar uma obra-prima que seja; que seja da literatura, do cinema, da tevê, do Youtube. Um videozinho mambembe de quinze segundos, um flagrante filmado com a câmera do celular, uma bobagem com a poesia da “Dança do quadrado”; se tiver um milhão de acessos e a minha assinatura, já está valendo – valendo, quem sabe, uma visitinha ao programa do Jô, um convite para o sofá da Hebe!...
Sonhos... deixemos eles de lado. Porque o assunto aqui são os medos. Meu medo cotidianíssimo dos livros mal escritos, dos alunos mal-educados, do juiz que vai apitar o próximo jogo do Vasco, do metrô abarrotado e irrespirável na hora do rush. Claro, tenho também aqueles medos mais “coletivos”, compartilhados com boa parte da humanidade: o medo dos políticos que guardam dinheiro na cueca, dos homens-bomba que ameaçam a paz do planeta, das catástrofes provocadas pelo aquecimento global, dos figurinos da Lady Gaga.
Mas verdade seja dita: nenhum desses medos é tão forte quanto o horror (o medo ao quadrado) que tenho das lagartixas que moram no quintal aqui de casa. Só de pensar naquelas criaturinhas frias e rastejantes – saindo de seus covis no cair da noite – já sobe aquele arrepio!...

21 de fev de 2010

Nós, os dissimulados

Semanas atrás, a ex-bebebê Elenita acusava outra moradora da Casa, Fernanda, de ser a mais dissimulada do programa. “Ela força amizade com todo mundo para não ser votada”, diagnosticava a linguista. Aquilo me intrigou. Primeiro porque “forçar amizade” é expressão absurda; pode-se no máximo conquistar um amigo, seduzi-lo ou tentar chegar perto disso, mas forçá-lo é impossível. Pode-se também forçar alguém – e então não será um amigo. Os dois conceitos se excluem. Em segundo lugar, até onde pude perceber, minha xará lourinha sempre se mostrou controlada, doce e sorridente no jogo, sem se envolver sensivelmente em intrigas ou semear venenos pelos quartos. Pelo menos não enquanto eu estava assistindo. Mas o que mais me intrigou foi que, talvez, exatamente isso tenha motivado a acusação de Elenita: não uma atitude realmente falsa por parte da adversária, e sim a ausência da atitude hostil, neurótica e defensiva que se assumiu como natural aos participantes do programa. No BBB (segundo o código de conduta dos próprios bebebês), simpatia é dissimulação e gritaria é autenticidade. Só no BBB?...
Cá entre nós: dentro ou fora da Casa, não são poucos os que defendem essa psicologia “muderna” e torta. Se foi grosseiro, implicante, brigão, egocêntrico, insensível, desaforado, beleza! eis um autêntico. Se foi bonzinho, condescendente, gentil, suave, eis um banana – ou um falso. Parte-se do princípio (hoje em dia, sagrado) de que não se deve “trair” sua vontade, sua voz, sua ideia – esquecendo-se o detalhe de que todos têm vontades, vozes e ideias distintas e, portanto, a vida social iria à falência sem pequenas “autotraições”. Em outras palavras: qualquer convivência civilizada é impossível sem dissimulação. Não falo aqui, é óbvio, do cara-de-pau que faz ar de inocente enquanto mete dólares na meia ou na cueca, nega conhecimento de falcatruas, oferece droga dizendo que não faz mal, engana o marido (ou esposa) com o(a) colega do escritório, fofoca com o chefe sobre Fulaninho e com Fulaninho sobre o chefe. Isso é dissimulação do mal – puro egoísmo que só ajuda a tornar a sociedade inviável. O que aponto como fundamental é aquela dissimulação do bem que nos impede de agir como tratores. Quer se chame isso de generosidade, equilíbrio, superego ou de algum grau (necessário) de bananice.
Sem a dissimulação do bem, seríamos todos Isabéis. Sabe a Isabel, irmã da modelo Luciana de Viver a vida? pois é. Alguns ainda conseguem ser fãs de seu jeito perverso de dizer “verdades”, como se a crueldade (embora sincera) tivesse mais valor de mercado do que o hábito de tornar as pessoas menos infelizes. É preciso ser positivamente dissimulado para se transmitir esperança ao doente, mesmo que por dentro estejamos morrendo de tristeza e medo. É preciso ser corajosamente dissimulado para dizer ao filho que tudo vai ficar bem, ainda que se tenha sido demitido. É preciso ser equilibradamente dissimulado para não esganar a colega tagarela de voz estridente, o vizinho que pede tudo emprestado e não devolve, o atendente do hospital público lotado. É preciso dissimular para não deixar de dar “bom dia” quando estamos deprimidos, não faltar ao trabalho quando só queremos dormir, não fechar a cara quando recebemos um presente nada-a-ver (dado com carinho). Dissimular é preciso. Para viver, para conviver, para sobreviver – e deixar os outros sobreviverem na mais santa paz, na paz acessível. Dissimular para o bem não é mentir: é (se) aperfeiçoar. Afinal, não há mérito algum em manifestar exatamente o que somos e sentimos se, com isso, deixamos o mundo pior do que quando entramos nele.

15 de fev de 2010

Come fly with me

Ryan Bingham é um sujeito livre, leve e solto, cujo trabalho é voar de cidade em cidade mundo afora demitindo funcionários de empresas que precisam cortar gastos. Ele carrega consigo uma pequena mala que guarda apenas o essencial. Nas raríssimas horas de folga, volta a seu apê básico, branco, sem fotografias, sem nada que o personalize – prático, funcional. Sua única meta é acumular milhagens. Não para fazer aquela viagem dos sonhos; mas para atingir a marca de dez milhões de milhas. Um recorde para poucos.
Assim é o protagonista de Up in the air, novo filme de Jason Reitman (o diretor dos bons Obrigado por fumar e Juno). Vivido por um George Clooney a cada dia mais à vontade no papel do sedutor cínico, Ryan se vê sem chão – ou sem céu, no caso dele – ao se deparar com a possibilidade de não precisar mais viajar para eliminar suas vítimas. Graças a um sistema de teleconferências a ser implantado em sua firma, ele poderá fazer seu trabalho no conforto do escritório, diante do computador, pela internet. E o melhor: no final do dia, poderá voltar para casa.
Péssima ideia. Pois a “casa” de Ryan são os aeroportos, as filas de check-in, as salas de embarque e desembarque, os aviões. É ali, naquele ambiente convenientemente impessoal, que ele pode viver a vida nômade que escolheu para si, uma vida em eterno movimento, para o alto e avante, de conexões apenas casuais, sem aquelas escalas “chatas” e “descartáveis” como família, amigos e outros etcéteras que só fazem crescer – e pesar – ainda mais nossa bagagem no decorrer dos anos.
Nada, porém, que a linda Alex – aparentemente tão "desencanada" quanto Ryan –, a jovem e promissora Natalie – responsável pelo tal sistema de teleconferências e que, de certo modo, ocupa o lugar da filha que ele jamais teve – e um inescapável convite para o casamento de sua irmã não pudessem mudar. Com um roteiro agridoce – que não aterrissa no happy end fácil –, a direção precisa de Reitman e canções escolhidas a dedo, o carismático anti-herói acaba conduzido a rever seus conceitos sobre a vida e, em última instância, sobre o que pode ser (muito) bom levar em nossas mochilas de viagem, ainda que elas pesem um pouquinho mais.

7 de fev de 2010

Prazer em conhecer-me

Como o Fábio já contou no post anterior, acabamos de voltar de uma viagenzita a Cabo Frio, com direito a uma esticadinha em Búzios. E quem leu o post deve ter ficado com a impressão de que sempre fui exímia (ou, pelo menos, apaixonada) mergulhadora, admiradora convicta do mar e frequentadora assídua do Pepê ou Posto 9. Nada mais absurdo. Quem me conhece mais de perto sabe que costumo fugir de praia como o Cadu foge da Anamara, não levo o menor jeito pra camarão empanado e nunca tive, com o mar, intimidade que fosse muito além do “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Sempre jurei de pés juntos que preferiria, até a morte, uma viagem de serra-mato-montanha a uma de sol-areia-oceano. Sabe aquele avatarzinho que você cria para si mesmo em alguns sites (e dentro da cabeça)? O meu jamais surgiria numa paisagem que se parecesse com o Havaí ou Fernando de Noronha. Provavelmente ele apareceria, dando adeusinhos sorridentes, diante da Torre Eiffel, do Castelo da Cinderela, de casinhas coloniais ou de uma cerejeira florida. Praia nunca foi minha praia; nunca me representou ou definiu.
E aí viajei. No primeiro dia, uma caminhada à beira-mar, água batendo na perna e a estranha sensação de pertencimento àquela paisagem alienígena, deliciosamente salgada e gelada. No segundo, um passeio de escuna e a oportunidade de cair no meio do mar de Búzios. O Fábio mergulhou e eu – para não perder a coragem e a chance – o segui sem pensar muito. Nos dias seguintes, em cada praia visitada, era eu quem mais se demorava entre as ondas; uma ânsia esquisita de sentir os lábios rachando de sal e a água abraçando o corpo inteiro, geladamente. Fiz as pazes com o mar – que aparentemente não sabia que estávamos brigados, tal a simpática alegria com que me recepcionou. Talvez ele tivesse razão. Não foi com ele que eu brigara, e sim com a superpopulação, o desassossego, a areia emporcalhada e o sol saariano do Rio de Janeiro. Nada que a praia vaziamente matinal (no horário certo, na temporada certa), a segurança e o vento fresquinho de Cabo Frio não pudessem resolver.
Uma viagem ou situação de exceção não muda a personalidade de ninguém; faz, pelo contrário, uma depuração ocasional. Um efeito salina: longe das ondas costumeiras, das influências de sempre, o que era menos sólido evapora e o que sobra é você. Você com mais ou menos refinamento, mais ou menos medos, mais ou menos frescuras do que achava que tinha. Às vezes necessidades diferentes, reações distintas. Claro: uma situação de exceção também é uma onda, também é uma influência. Nossa autenticidade não é, necessariamente, exclusiva nem absoluta nesses períodos. Mas é nesses períodos que levamos menos bagagem, física e emocional (o que é uma mala perto de uma casa inteira, do trabalho, das contas...?), ou temos menos tempo de acessá-la. Contamos mais com menos; somos o que nos fica de mais básico. Temos um espaço menor para carregar todas as autoinformações sobre as quais dormimos confortavelmente – e, por isso, nos vemos obrigados a ser mais quem tendemos a ser e menos quem nos acostumamos a ser. Depois voltamos para casa e tentamos não enterrar o tesouro (ou não ignorar o problema) descoberto.
Voltei para casa com muita vontade de não enterrar o tesouro, de não deixar de andar à beira-mar, de não perder o gosto de sal nos lábios, de não ficar longe da firmeza que a água exige do corpo (mesmo que fosse numa hidroginástica). Com a vida que temos, é difícil. Porém, pela primeira vez desde que comprei o computador – há anos! –, mudei o papel de parede: tirei o fundo-padrão do Windows e deixei a foto do mar (sem rostos, sem areia: só do mar) de Búzios. Ele continua não me definindo – assim como a Torre Eiffel, o Castelo da Cinderela, as casinhas coloniais e a cerejeira florida, sozinhos, não me definem. Mas talvez não seja má ideia nos definirmos pela urgência de lembrar que sempre devemos deixar um porta-retrato preparado para um novo amigo.

3 de fev de 2010

Aquela areia

Uma viagenzinha de nada até Cabo Frio e Búzios pode ser tudíssimo quando se está em boa companhia. Você desliga o mundo como se fosse um celular. Pisa a areia, pula as ondas, sente o vento. Não tem pressa, não tem correria, não tem os relógios do mundo inteiro ao seu redor, todos tiquetaqueando feito o coelho da Alice. É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!
Como a menina que se jogou no insano País das Maravilhas, nossa Fernanda se atirou no mar sem medo de ser feliz, sem receio da água (muito) fria e aproveitou segundo por segundo. Tirou todas as fotos possíveis, com a alegria de quem descobre – e se apaixona por – uma nova paisagem a cada flash.
Catamos conchas, subimos dunas e pedras, visitamos Brigitte Bardot, encontramos um sirizito fazendo sua dancinha típica – popularizada por Vesgo, Sílvio Santos e Galvão Bueno –, tomamos água de coco, navegamos de escuna e por pouco não tocamos um transatlântico... Éramos quase personagens de Manoel Carlos! Shimbalaiê!
Mas, como toda onda – que vem até a praia, acena suave e retorna ao mar –, nossos dias azuis voltaram para casa, levando consigo os barquinhos coloridos dos pescadores e deixando na memória apenas um bocado de areia; não a que faz da gente autênticos camarões empanados, fritando sob o sol – mas aquela onde rabiscamos um coração e construímos um castelo.