7 de ago de 2010

Velha infância

O cafuné de Mãe me acordando. O ônibus que sacolejava meus bocejos até a escola. A professora que segurava minha mão quando eu era o primeiríssimo da fila. O lanchinho Mirabel que eu comia todos os recreios. A troca de figurinhas com os colegas. O pique-pega, alto, parede. O purê de batata com caldo de feijão no almoço. O Xou gravado para eu ver a tarde inteirinha. Pai chegando do trabalho com mais pacotes de figurinhas e perguntando "cadê meu beijo?". A novela das sete sassaricando. O jantar que eu não lembro. Os gibis do Tio Patinhas. Os travesseirinhos inseparáveis. A hora de dormir.
Meu mundo era descomplicado. Nem nos sonhos impossíveis era tão perfeito. Como perfeito era o do pequeno Nicolau, menino inventado pelos franceses René Goscinny e Jean-Jacques Sempé (e que agora virou filme, Le petit Nicolas). Muito amado pelos pais, o garoto vivia numa casa simples mas aconchegante, tinha amigos que adorava e uma professora docinho-de-coco. Que mais poderia querer? Que resposta poderia dar à surrada pergunta que toda criança um dia ouviu: que você quer ser quando crescer? Ele não sabia, eu também não. Porque não queríamos crescer. O mundo não tinha que mudar. O mundo não tinha o que mudar.
Só que a vida de Nico (se me permitem a intimidade) sofreu uma reviravolta daquelas quando ele passou a acreditar que seus pais tinham encomendado um irmãozinho. Temendo ser deixado de lado e – pior – ser esquecido numa floresta, arrumou mil atrapalhices para mostrar a eles que era indispensável. Só que ele não agiu sozinho. Contou com a ajuda dos amigos, uma trupe intrepidamente batutinha: o Alceu, um nhonho que sonhava ser ministro só por causa dos banquetes; o Clotário, um godines que sentava na última carteira da sala e nunca sabia o que estava acontecendo; o Godofredo, um riquinho que comprava todas as fantasias que o papai podia pagar; o Agnaldo, um bumbunzinho-de-ferro que ia aos céus sempre que tinha a chance de, por exemplo, citar os principais afluentes do Sena diante dos colegas...
Esses (e outros) meninos eram de pintar o sete, enchiam qualquer tela de graça, leveza, de uma saudável ingenuidade – e mereciam nota dez por isso. Como também mereciam nota dez os pais de Nico. Os dois eram adoráveis, muitíssimo bem-humorados, embora soassem um bocado esquisitos quando nos convidavam para jantar em sua casa. Estavam sempre tropeçando na lagosta e viajando na maionese. Quantas vezes não os imaginei possuídos por um espírito tão zombeteiro quanto o Beetlejuice e dançando a "Banana boat song" pela casa. Pena que nem todo sonho bobo vire realidade colorida.
Vou sentir saudades de Nico, de sua família, de sua turma. Do mesmo jeito que sinto saudades de um tempo em que a maior preocupação era um dever de casa, em que viajar na mala de uma linda Belina azul era a maior diversão, em que toda a maldade do mundo se resumia a Odete Roitman e Maria de Fátima, em que existia um sorvete chamado Sem Nome, em que Vó corria atrás de mim e do meu irmão no quintal, em que ainda não me preocupava (tanto) com vírgulas, pontos e letras, em que "o que você quer ser quando crescer" era apenas mais uma pergunta sem resposta. Um tempo em que Nico e eu só sabíamos de uma coisa – que era bom ser moleque enquanto pudéssemos.

15 comentários:

Piolho de Cinema disse...

pow...

os desenhos, o primário, os filmes, as roupas, e até mesmo os cortes de cabelo. nossa que tempo bom.
Agora é essa p.... de trabalho casa, casa trabalho.


Saudade...

greg disse...

Nem fala, sinto falta da infância!!
tempos bons
http://naosentindo.blogspot.com

Rogerio disse...

recordar a velha infância....sempre e bom...relembrar...tudo que passou por nossas vidas...

Flor Tulipa disse...

Nossa eu tenho muita SAUDADES de minha infância =/...Mas eu amo recordar cada momento que passei é inesquecivel.
Parabéns peli blog muito massa

beijokas Tulipais

indivídua disse...

nostalgia pura!!!! lindo, lindo... adorei realmente o texto. e que vontade que me deu de ver o filme agora. meus parabéns, vc conquistou uma leitora

Tricotando a quatro mãos disse...

bateu uma saudade enorme da minha infacia, veio um filme na minha cabeça. Relembrei de tanta coisa!
e fiquei com vontade de assistir o filme do nicolau, nunca tinha ouvido falar, mas gostei muito da historia!

Jéssica.

Alexandre Terra disse...

eu sinto falta da infancia e da adolescencia, epoca feliz!

Vaunei Guimarães disse...

bom..gostei...escreve bem!
http://vauneiguimaraes.blogspot.com/

Anônimo disse...

muito legal o texto e adoro tb a musica velha infancia :)

João Arêas disse...

Belo texto. Parabéns.

Depois passa no meu blog.

http://enigmasdocotidiano.blogspot.com/

Até mais.

Gu Paiva disse...

Ah... que vontade de reviver tuuuuuuudo! E como queria crescer rápido... ah se eu soubesse de toda essa saudade. Post perfeito!

Franciele Valadão disse...

Adorei o post.

Aline Cruz disse...

Quem não sente saudade da infância.... As vezes estou num saudosismo que não cabe em mim...

Muito bom post..

Beijos!!

http://entrelinnhas.blogspot.com/

Guilherme Lombardi disse...

todos sentimos saudades da infancia, pois lá eramos genios. Hoje não passamos de ignorantes que acreditamos saber muito!

Anônimo disse...

Que filme maravilhosa Fábio, que passou na minha mente. Fantástico.