24 de jul de 2010

De malas (des)feitas

Dias atrás, eu lia na Revista da TV dO Globo uma entrevista com a dramaturga Elizabeth Jhin. Impressionei-me com um comentário da autora: “(...) é estranho porque todo mundo se prepara para tudo: estuda para entrar numa faculdade; faz curso de noivos para se casar; quando vai ter filhos, lê um monte de livros sobre bebês; até para preparar um bolo você precisa estudar uma receita. E para a morte, que é a única coisa certa na vida de todo mundo, ninguém se prepara”.
Apesar de não ser exatamente indiferente à ideia da morte, eu nunca tinha elaborado o pensamento dessa forma, e a considerei perfeitíssima. Absurdamente genial pela própria simplicidade sem tabus, sem rodeios. Somos educados para continuar, não para terminar. Pergunta-se às crianças o que elas pretendem se tornar ao crescer – mas jamais lhes perguntam quem desejarão ter sido ao morrer. Recomenda-se aos universitários que engordem o curriculum vitae com mestrados e doutorados sem fim – mas ninguém lhes recomenda que seu curso de vida chegue bastante caudaloso a seu fim. Quer-se saber quando os jovens namorarão, quando os namorados casarão, quando os casados produzirão novas vidas – mas dificilmente se quer saber se todas essas vidas produzirão boas mortes. Obcecados que estamos pelo transitório, fingimos não ter tempo para pensar no definitivo. De fato não temos tempo: somos (tolamente cegos, pavões indefesos) tidos por ele.
Como nos preparar para a morte? Mais ou menos ao contrário do que fazemos com a vida. Para viver, abarrotamos as malas rumo à maior das viagens: mais bens, mais figurinos, mais diplomas, mais informações, mais contracheques, mais celulares, mais seguidores, mais experiências, mais clientes. Arrastamos um trailer de bagagem ao longo do caminho, sempre de olho no próximo minuto.
Para morrer, estaremos tão mais preparados quanto mais coisas formos deixando pela estrada. Quanto mais histórias contarmos, em vez de as guardarmos para o livro que talvez não chegue a ser escrito. Quanto mais perdões concedermos, em vez de os estocarmos à espera do pedido que nunca será feito. Quanto mais brinquedos presentearmos, em vez de os encaixotarmos para o filho que não teremos. Quanto mais abraços distribuirmos, em vez de os reservarmos para os grandes amigos que não viremos a conhecer (ou que não conseguiremos reencontrar). Quanto mais conhecimento partilharmos, em vez de o destinarmos apenas ao emprego que não acredita em salvar o mundo. Quanto mais tempo emprestarmos. Quanto mais exemplos dermos. Quanto mais ouvidos (e mãos) oferecermos. Quanto mais conselhos. Quanto mais gargalhadas. Quanto mais sementes.
Quanto menos houver de exclusivamente nosso, no fim, mais equipados estaremos para ancorar sem desvios de rota. Check-in bem-sucedido é o do viajante que chega a seu porto com as malas suficientemente vazias.

15 comentários:

Daniel Silva disse...

bem pensado. a gente se prepara pra tudo, menos pra morrer. quando a minha hora chegar, quero ter sido um jornalista reconhecido, respeitado por minha conduta profissional e, claro, ter ganho algum dinheiro e sido feliz.

abraço

Starting disse...

e eu não quero me preparar para morrer não, quero mesmo é aproveitar a vida que ainda me resta, pq qdo morrer vai ficar tudo o que eu não fiz, não vendi, não comi, não bebi, não beijei.. etc etc

negócio de morte ,, eu heim!

;)

luciana disse...

não acho que ninguem se prepara para a morte. talvez aconteca com muitos pq espera viver muito.

vejo pelos cristaos, que estao se preparando para uma vida apos esta, onde viverão com Deus, os espiritas que se preocupam em viver essa vida plena para nao terem que voltar.

outro exemplo sao pessoas, que procuram nao ter posses so para si, mas para deixar seus filhos em melhores condições quando morrerem. Meu pai conversa muito disso conosco, diz que nao estara aqui e quai os planos que ele pode fazer agora para nos ajudar.

May Bentes disse...

muito bom seu blog!
gostei bastante :D

May Bentes disse...

muito bom seu blog, gostei !

Marcus Alencar disse...

Essa reflexão é fundamental para podemos aproveitar o melhor transitório sabendo que o definitivo é tão importante quanto. Afinal, plantar sementes que possamos colher com orgulho no futuro, no fim da nossa história aqui na terra, é uma forma de se encerrar com o que se imagina de um bom final, feliz ou não.

Fernanda Alves disse...

ótima reflexão. Nessa vida corrida, vivemos planejando coisas, arrumando as malas, lendo mesmo sem ter a certeza do amanhã. Nos preparamos para tudo, menos para aquilo que vai acontecer a todos: a morte. É aquilo que ninguém quer falar, ninguém quer comentar... e quando ela chegar? Será que vivemos o fizemos tudo que realmente deveriamos ter feito?

Neuro-Musical disse...

De fato, eu nunca parei pra pensar por esse ângulo. Vivemos como se a vida não tivesse um fim, fazemos planos para um futuro que talvez nem exista e acho que devemos parar pra pensar nisso. Por isso que tenho uma filosofia muito interessante: Viva cada dia como se fosse o último. Ninguém está preparado.

http://cerebro-musical.blogspot.com

Guilherme Lombardi disse...

excelente seu blog, parabéns e sucesso!

Fabiane Aline disse...

Para falar a verdade eu já participei de um debate sobre esse assunto, mas mesmo assim procuro não pensar, procuro viver. Só que essa reflexão é interessante no ponto de vista do TEMPO. Aproveitar esse tempo não para vida em si, mas para aquilo que vc pode deixar e viver.
Parabéns pelo texto.
Aguardo sua visita novamente, pois é bem vindo.
Beijos.

lara mattos disse...

parabens pelo seu blog mt bom
eu tenhoo meu tbm em onstruçao mas ta indo se puder apareça e comente:)

www.lahmattosfsa.blospot.com

Cleber Paes disse...

Muito interessantes seus textos.

Mas uma hora todos iremos virar pó

Por isso que mundo é uma ilusão, pois mesmo se viver 200 anos acharemos pouco.

http://www.mundoirado.com

Bruno disse...

Acho importante pensarmos na certeza (por enquanto) da morte, já que o mundo corre para nem se quer envelhecer, corre p/ ser imortal. Mas muita coisa fica. Embora não acho q exista uma maneira de se preparar p morte. Mas acho que apontou bons motivos p pensarmos nela.
abraço

Juliana disse...

Existe uma frase que diz: viver cada dia como se fosse o ultimo...exatamente para aprendermos tudo q a nossa escola (a vida) nos oferece!!!

www.julyritmoquente.blogspot.com

Bjoks

Franciele Valadão disse...

Uauu, adorei!