Comprei no sebo um voluminho de contos de Otto Lara Resende (professores adoram livros de contos, para os quais sempre têm intenções perversas). A edição, de 1992, principia por uma entrevista com o autor. Na última pergunta, o entrevistador se anima: “Em 1992, você comemora 40 anos de vida literária desde o seu primeiro livro, O lado humano (contos). Como se sente?”. A resposta é daquelas que ficam ecoando no cérebro: “[...] Como me sinto? Profundamente irrealizado, com um gosto terrível de incompletação e uma tremenda vontade de me reinaugurar. De começar. Há um velho em mim que não sou eu”.31 de ago. de 2010
Feitiço do tempo
Comprei no sebo um voluminho de contos de Otto Lara Resende (professores adoram livros de contos, para os quais sempre têm intenções perversas). A edição, de 1992, principia por uma entrevista com o autor. Na última pergunta, o entrevistador se anima: “Em 1992, você comemora 40 anos de vida literária desde o seu primeiro livro, O lado humano (contos). Como se sente?”. A resposta é daquelas que ficam ecoando no cérebro: “[...] Como me sinto? Profundamente irrealizado, com um gosto terrível de incompletação e uma tremenda vontade de me reinaugurar. De começar. Há um velho em mim que não sou eu”.28 de ago. de 2010
Pânico na tevê
Não sei se rio, se choro, se dou um berro, se me escondo debaixo da cama, se chamo de uma vez um exorcista ou os Caça-Fantasmas. O fato é que minha tevê não está bem. Todo dia, na mesma hora, ela interrompe minha novela favorita − só para me assombrar. E aí um bando de espíritos zombeteiros invade a casa sem cerimônia me oferecendo um lugar no paraíso. Vade retro.21 de ago. de 2010
Meu limão, meu limoeiro
15 de ago. de 2010
Balabanianas
Aracy é um vulcão em atividade. Um coração que não envelhece. Uma senhora locomotiva com motor Ferrari de mil cavalos. Um casarão onde cabem todas as alegrias. Um pecado rasgado, um deus-nos-acuda. Uma caixa de bombons cheia de surpresas, transas e caretas. A surpresa que sai da Toscana com sabor de mortadela; a transa que sai de baixo, de cima, do avesso; a careta que sai da Armênia com três "filhinhas" a tiracolo. Mangia che te fa bene!7 de ago. de 2010
Velha infância
O cafuné de Mãe me acordando. O ônibus que sacolejava meus bocejos até a escola. A professora que segurava minha mão quando eu era o primeiríssimo da fila. O lanchinho Mirabel que eu comia todos os recreios. A troca de figurinhas com os colegas. O pique-pega, alto, parede. O purê de batata com caldo de feijão no almoço. O Xou gravado para eu ver a tarde inteirinha. Pai chegando do trabalho com mais pacotes de figurinhas e perguntando "cadê meu beijo?". A novela das sete sassaricando. O jantar que eu não lembro. Os gibis do Tio Patinhas. Os travesseirinhos inseparáveis. A hora de dormir.31 de jul. de 2010
Crônica de uma morte anunciada
24 de jul. de 2010
De malas (des)feitas
17 de jul. de 2010
It's raining...
11 de jul. de 2010
Jabulani e mais dez
Juro que tentei. Me esforcei ao máximo. Até catei outro assunto "da hora" nos sites de notícia e de busca, mas só me ofereceram o goleiro Bruno, a Dilma Rousseff e o José Serra. Aí achei melhor declinar. E me render à Copa, ainda que aos 45 do segundo tempo. Tinhosa feito a Jabulani, ela acabou me pegando. Na veia. Onde a coruja dorme.5 de jul. de 2010
Não é brinquedo não
30 de jun. de 2010
Lollipop Guild
25 de jun. de 2010
Superpop
Quem nunca quis ser um super-herói de verdade? Sair voando por aí, combater o crime, salvar a humanidade. Eu mesmo: já fui de Super-Homem a Change Dragon e, modéstia à parte, dei conta de todos os Lex Luthors e Gyodais. Pois é essa brincadeira de moleque, esse sonho juvenil de todos nós, o ponto de partida de Kick-Ass, ultrafilme baseado na graphic novel homônima escrita por Mark Millar e ilustrada por John Romita Jr.18 de jun. de 2010
Muito barulho por tudo
Não preciso escrever que não sou exatamente uma fã de futebol: todos sabem disso. Também vou evitar chover no encharcado – o que eu provavelmente faria ao lamentar, por exemplo, que o patriotismo brasileiro se limite a aparecer de quatro em quatro anos e nunca se volte para coisas mais importantes do que uma bola rolando, ou períodos mais duradouros do que os noventa minutos de bola rolando, ou pessoas mais determinantes para o país do que as onze que correm atrás da bola rolando (e aquele que comanda apenas essas onze). Acredito em toda a political stuff, mas vou momentaneamente tirar meu time de campo – evitando também essa metáfora-clichê, para não parecer infame.12 de jun. de 2010
I will
Chegou o Dia dos Namorados, a data em que pombinhos trocam presentes, beijos, abraços e o que mais eles quiserem trocar. O encontro pode ser romântico, pode ser algo brega, pode ser até inteiramente cafona. Depende do senso estético de cada um. Há casais que arriscam noites temáticas, com direito a pétalas da rosa mais vermelha sobre a cama e “Bésame mucho” de trilha sonora...
Pois é. Pensei o mesmo que o leitor: “argh!”. O Dia dos Namorados pode ir além disso. Além da história dos pombinhos. Claro, troquem um milhão de presentes, beijos, abraços e o que mais quiserem (não necessariamente nessa ordem). Mas aproveitem também o Dia – de preferência todos os dias – para recordar (o tal do trazer ao coração) o que fizeram até aquele momento e para sonhar o que farão dali em diante. Juntar passado e futuro no mesmo presente faz um bem danado.
Se esse “presente” ainda for embrulhado com um papel bonito, uma fita elegante e discreta, vale até salpicar um bocado das rosas mais vermelhas sobre a cama. Mas só um bocado. Vale baixar a luz. Vale dar play na trilha sonora. Mas evitando-se “Bésame mucho”, pois – esperamos – esta noche não será la última vez. Que tal uma canção do Elton John? Ou dos Beatles? Ou dos Bee Gees? Roberto Carlos também está valendo.
Eu vou fazer isso. Vou trocar presentes, beijos e abraços. Vou recordar a viagem inesquecível que fizemos, a comidinha diferente que experimentamos, o melhor e o pior filme que vimos. Vou sonhar a viagem inesquecível que faremos, a comidinha diferente que experimentaremos, o melhor e o pior filme que veremos. Com um bocado das rosas mais vermelhas, a luz baixa, uma boa música. Vou fazer isso todos os dias. I will.
6 de jun. de 2010
Noite de cinema
É um pássaro, é um avião? Não, é o maestro Roberto Minczuk subindo no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira, para reger o tema super-heroico composto por John Williams para o mais famoso filme sobre o filho de Jor-El. Só faltou a capa vermelha.
E não faltou mais nada. A noite começou com a visão do Municipal dominando a Cinelândia. Luzes novas, tintas novas, e o charme nada discreto das coisas antigas. A escadaria, os mármores, os vitrais, os lustres, até os banheiros são uma atração à parte – não só merecem a visita, como muitas fotos.
Voltemos, porém, ao concerto, o tributo a John Williams que valeu tão-somente minha segunda vez naquele teatro. A primeira de fato inesquecível. Depois de sobrevoar Metrópolis, vieram os acordes hitchcockianos de Tubarão, capazes de fazer gelar minha espinha mesmo estando a uma distância segura do mar. Ainda bem que, para diminuir a tensão, a trilha seguinte nos levou até Hogwarts. Cerveja amanteigada na veia.
Terminada a magia da pedra filosofal, os ouvidos ficaram mais jazzísticos, com o tema central de Prenda-me se for capaz, a prova de que Williams consegue escapar da pompa sonora dos épicos sem perder a circunstância das histórias mais intimistas. Mas esse parêntese minimalista durou pouco. Logo Minczuk, como se pusesse o chicote na cintura e o chapéu na cabeça, reiniciou a busca pela Arca da Aliança – a marcha vibrante de Indiana Jones antes do intervalo de quinze minutos.
Na volta (após a aventura dos banheiros lotados), uma paradinha no bar do teatro para comprar água. Copinho de plástico sobre o balcão, e um leve trepidar – tum, tum – fez o líquido tremer. Ninguém mexe um fio de cabelo. A visão do T-Rex é baseada no movimento. Brincadeirinha. Só para dizer que a trilha da vez era a de Jurassic Park, um tema que fascina (quase) tanto quanto os dinossauros de Spielberg.
Em seguida, veio o violino triste, triste de A lista de Schindler, de fazer a plateia tirar os lenços dos bolsos. Felizmente, o clima holocáustico não foi suficiente para levar ninguém até o lado negro da Força. Já os acordes inconfundíveis da Marcha Imperial, regidos pelo próprio Darth Vader (com seu sabre de luz vermelho)... estes, sim, fizeram o público delirar e aplaudir de pé o vilão mais amado (e pop) do cinema.
31 de mai. de 2010
Força do hábito
27 de mai. de 2010
Os incomodados que emudeçam
Outro dia, a cena de uma colega de trabalho esbravejando na bilheteria do metrô (porque “não havia troco disponível” para ela) trouxe à tona, mais uma vez, uma impressão antiga: não há espaço para os incomodados no Brasil. O país é continental, mas os incomodados não cabem nele. Pelo menos, não são bem-vindos. Se não me acredita, basta observar a reação daqueles que gravitam em torno dos incomodados, presenciando suas – quase sempre justas – indignações. Dois quintos da plateia suspiram chateadamente, olhando o relógio; dois quintos disfarçam o constrangimento trocando risinhos cúmplices com outros não-incomodados. Um quintinho, se tanto, ensaia algum apoio – mas raramente é forte o bastante para que o incomodado consiga, por clamor popular, a justiça que não consegue por ética, por cidadania ou (que piada!) por lei.21 de mai. de 2010
Speechless
O monstro mais famoso do mundo desde os zumbis thrillerianos. A mulher que todo Chapeleiro Maluco gostaria de ter. O guarda-roupa que faz morrer de inveja Cher, Bjork e todos os vilões de Gotham City. Uma tela de Dalí que canta e dança. A boneca Emília do século 21. A Xuxa dos tempos pós-baixinhos. A filha bastarda que Elton John jamais teve.14 de mai. de 2010
Lentes de contato
Quando eu era pequena (quer dizer: menor), adorava assistir àqueles programinhas da TVE que reuniam animações do mundo inteiro, como Glub glub, Lanterna mágica e quetais. Outro dia me lembrei de um desses desenhos perdidos no tempo: a série francesa A princesa insensível, feita de miniepisódios que não chegavam a cinco minutos. Uma pérola. Praticamente sem falas, mostrava as tentativas que os diversos pretendentes da princesa faziam para conseguir que ela esboçasse alguma reação (e, por tabela, se casasse com o herói). Em cada episódio, um pobre rapaz se exibia diante da moça cheio de esperança, explorando sua maior habilidade de forma espetaculosa. Era um tal de malabarista malabaristando, cozinheiro cozinhando, príncipe montado em unicórnio – domando cão de três cabeças –, jardineiro brotando flores e folhagens mágicas de cada canto do palácio... E a princesinha ali, sentada no trono com cara de parede de consultório, sem mover um músculo. Todos iam embora decepcionados, ninguém entendia por que a megerinha demonstrava tanta indiferença diante da beleza. Até que, no último capítulo, o pretendente vencedor teve um único gesto: chegou perto da princesa e tascou-lhe... não, não um beijo! e sim um par de óculos no rosto. Pela primeira vez os olhos miudinhos da menina se abriram, o sorriso acompanhou e ela começou a aplaudir entusiasmada o show que faziam no castelo. Injustamente, todos no reino consideravam insensibilidade o que era apenas uma miopia escandalosa.7 de mai. de 2010
Menina maluquinha
Ela acorda no meio da noite, muito assustada. Sonhou mais uma vez que caía na toca do coelho. Sonhou não, pesadelou. O medo da Rainha Vermelha, o medo de perder a cabeça, o medo de ficar louca. Um medo cheio de razão, por mais irracional que possa parecer. Porque Alice está perdendo as estribeiras. Se é que já não perdeu. Mas isso não é necessariamente ruim. Ao contrário. Pode ser o início de uma vida sã.30 de abr. de 2010
Segredos de liquidificador
Como já disse o Fábio, O segredo dos seus olhos foi o filme que mais vezes nós não vimos. Foram cinco tentativas até conseguirmos cumprir a missão. Na primeira, faltou luz no cinema e o dinheiro foi devolvido; na segunda, a falha de refrigeração da sala (em pleno Saara carioca) fez com que desistíssemos de pegar a sessão. Na terceira e na quarta, pepinos de última hora no serviço riscaram o cinema da agenda. Eu já estava começando a achar que teimar nesse objetivo era desafiar uma impossibilidade cósmica – mas felizmente, na quinta tentativa, os céus se abriram e nós cumprimos nosso trabalho de Hércules. Valeu a insistência. El secreto de sus ojos (no sonoro título original), Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010, é um filmaço – um peliculón, como diriam seus conterrâneos argentinos. Quem já assistiu aos adoráveis O filho da noiva e O mesmo amor, a mesma chuva sabe, de antemão, que a atuação de Ricardo Darín e a direção de Juan José Campanella fazem uma tabelinha para Pelé nenhum botar defeito. É pôr na jogada a habilidade magistral de Guillermo Francella e Soledad Villamil (nos respectivos papéis de amigo e amada do protagonista) e correr pro abraço.24 de abr. de 2010
Libertos e agiotas
A chuva que torturou Rio de Janeiro e Niterói já foi há algumas semanas, e as cidades – que jeito? – seguem adiante. O morro do Bumba evaporou dos noticiários. Políticos já estocaram no freezer as urgências que desaparecem em dias de sol, e só voltarão a existir na “surpresa” da próxima enchente. Brasileiros que somos, varremos a lama (literal e figurada), suspiramos e prosseguimos, com o para-brisa limpo o suficiente para andarmos mais alguns metros. Mas a chuva continua por aí – chovendo metáforas e consequências.17 de abr. de 2010
Vou-me embora pra Helgoland
11 de abr. de 2010
Aquarela animada
3 de abr. de 2010
Feliz reaniversário
Todo mundo faz pelo menos dois aniversários por ano. Um deles é (óbvio) no dia em que completa x anos de nascimento. O outro é na Páscoa. Digo isso independentemente do tipo de crença religiosa que se tenha – ou que não se tenha. Qualquer vida neste mundo teve (ou terá) de se refazer depois de uma queda, de um erro, de uma fase, de uma decepção, de um obstáculo, de uma tristeza, de uma pequena morte. Qualquer vida neste mundo, por conseguinte, merece e precisa celebrar sua revida, seu novo capítulo, sua cura, seu aperfeiçoamento, ou mesmo a simples esperança do aperfeiçoamento e da cura (porque decidir virar a página é o primeiro passo para dar continuidade à história). Todo mundo tem sua Páscoa – essa feliz edição revista, ampliada e melhorada de si mesmo.31 de mar. de 2010
Além do arco-íris
Mesmo quando criança, nunca fui fã inveterada da Xuxa – não comprava roupas dO Bicho Comeu e jamais manifestei a vontade de participar do programa, a que só assistia de vez em quando (e mais por causa dos desenhos). Conhecia as músicas, via alguns filmes: o básico, e olhe lá. Mas, como qualquer filha dos oitenta, cresci com o “Ilariê” tocando em um ouvido e a ladainha dos detratores da Xuxa (e de apresentadoras louras em geral) papagaiando no outro. As beldades – com botas maiores do que seus shortinhos – “erotizavam precocemente” as crianças, diziam. As minissaias de couro com saltões eram ícones fetichistas, resmungavam. Essa loura já até fez filme de sacanagem com um “baixinho”, sussurravam. Enquanto isso as crianças – que, na época, nunca tinham ouvido a palavra “fetichista” na vida e não tinham uma ideia lá muito concreta do que pudesse ser “erotizar” – só queriam defender o time das meninas (ou dos meninos) no palco, ter sua carta lida no ar, garantir as figurinhas que faltavam no álbum, vencer o Baixo Astral, pintar um arco-íris de energia e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Ganhando prêmio em brinquedo, é claro.27 de mar. de 2010
Corrida maluca
Outro dia me perguntaram se estava tudo bem por aqui. E eu, quase automático, respondi que sim, que tudo corria bem, que a vida seguia em frente, ligeira, ligeira, e que a gente tentava acompanhá-la. E aí me dei conta do “problema”, se isso for um problema: o tal corria. O mundo tem girado tão rápido que às vezes me deixa suficientemente tonto para não gozar – ou gozar menos do que poderia – a parte do tudo e do bem.