10 de ago de 2009

Superfantástico amigo

Mãe todo mundo sabe: é aquela decantada em verso e prosa, padecer no paraíso, desdobrar fibra por fibra, barriga, sangue, o cordão unindo indiscutivelmente duas (ou três, ou quatro...) pessoas durante quase um ano. Pai, não. Paternidade ninguém vê: não tem útero agigantando, não tem cordão umbilical cortável com tesoura física. Não tem provas materiais – além de um pouco romântico DNA. Por quase um ano, ele engravida de maneira teórica: destinatário paciente de uma encomenda que vem do exterior e demora meses para ganhar todas as peças, funcionar direito, ser finalmente liberada pela alfândega. A mãe acompanha o produto desde a fábrica; o pai (fazer o quê) está em casa aguardando, ansioso e confuso, o carteiro tocar a campainha. O filho lá, no forno, é ainda alguma coisa estranhamente terceirizada. E na vinda, um susto. Paternidade é espantada e súbita. Mãe é cargo com direito a estágio; pai começa numa promoção automática.
Mãe é base, padrão, o substantivo da frase: culturalmente se espera que ela esteja sempre ali – referência, quartel, núcleo do sujeito. Por não ser hospedeiro e sim espectador (e expectador), pai tem sido injustamente tratado como mero lucro. Na biologia animal, entende-se que sim; no enredo humano, porém, é diferente o negócio. Se pai não é a substância primeira, que alimenta com sua própria matéria, é, em compensação, o adjetivo que presenteia de cores novas a estrutura de origem. Não dá à luz, mas intensifica e direciona a iluminação. Não cede o leite, mas, no esforço de ser perdoado pela limitação do corpo, derrama-se a si mesmo em todos os possíveis zelos e providências. Pai (se é digno do nome que transporta) leva a vida inteira reconstituindo, na preocupação, o parto que não teve; fabricando, no peito e nos braços, o berço que ele não foi; produzindo, nas brincadeiras (e broncas), o cordão que nunca lhe foi cortado. Estuda Direito para contrabalançar a mãe promotora, faz Economia para não ir à falência com a filha adolescente, vira motorista para resgatar os pimpolhos na balada, tira brevê para fazer o pequeno voar pelo quintal em seus ombros. Em seus ombros faz questão de apoiar o teto da casa, gigante Atlas que é – de seu mundo particular.
Mãe tem os filhos; pai os adota. E não é bolinho adotar os próprios filhos. Nasçam ou não de sua genética, de seu sangue, de sua espera, são perfeitos desconhecidos de seu organismo até que se vão, pouco a pouco, misturando a ele. Claro, a adoção também vale para as mães. Mas pai não tem bônus. Não tem o vazio da barriga, a nostalgia física que, depois de longos nove meses, torna a mãe uma inevitável reincorporadora de seu filho. O coração do pai precisa aprender a ter a necessidade e a saudade que sua barriga não tem. Sejamos justos: não é para qualquer um. Se já é difícil amar sem obrigação os amigos plantados e colhidos pelo caminho, que dirá os amigos obrigatórios. Pois pai é o ser superfantástico que, embora já esteja lá pelo meio da viagem, aceita nos recolher – não mais que de repente – em seu lindo-balão-mágico-azul; não nos expele um dia do útero, mas nos faz nascer dia a dia para dentro de si mesmo, num parto reverso que dura todo o tempo regulamentar da jornada. Difícil é, mas tão lindo, não precisa mudar: com ele o mundo fica bem mais divertido.

28 comentários:

Cáah disse...

Lindo esse texto, pena que eu não posso diser isso tudo a respeito do meu pai.
Minha mãe sempre teve função dupla na minha vida!
Beijoos.

Leo disse...

Mãe tem o dom divino de dar a luz, e o pai é aquele que fica fazendo graças, mesmo que agente não escute, quando agente ainda está dentro da barriga.
Achei muito lindo o seu texto.
Parabéns!!!

http://parada-ob.blogspot.com/

DANIEL BP disse...

Gostei do teu blog. Parabéns!

Nerd Loide disse...

putz jogou pra lá no texto ... o pior que os pais sempre são deixados de lado mesmo ... rsrs
dá tanta importância ao pai que dizem por ai pai é o que cria e não o que faz

Hique disse...

pai fica pra trás, vira apenas instrumento.








mas o meu foi apenas isso.

War Inside My Head disse...

De extrema importancia o amor paterno e materno , é o que nos nutre , que nos molda a sermos responsaveis e seres humanos!

Flá Romani... disse...

Gostei muito do seu texto!!! Mãe é mãe

Dash' 2.0 disse...

Pai é pai neh!

www.parano-id.blogspot.com

plaidy disse...

Realmente e mesmo assim pais são tão importantes quanto :D

30 e poucos anos. disse...

Seu texto está muito bom ..... sou pai e tenho pai e sei das relações e sentimentos envolvidos.

Kelly Christi disse...

Adorei o omodo como vc tratou as diferenças entre pai e mãe, realmente, por masi que eles nos amem, há diferenças...

bjitos

http://www.pequenosdeleites.blogspot.com

Lorena Alves disse...

Ain que lindo ! Meu pai é exatamente assim uma mãe que não deu a luz, mas que desdobra em quantos forem preciso só pra me ver sorrir . *_*

Parabéns , seu texto ficou
MA-RA-VI-LHO-SO !!

Simply disse...

Em suas particularidades, pai e mãe têm igual importância na vida de uma pessoa.
Apesar da proximidade física da mãe ser mais constante, a presença do pai como ser legislador é tanto quanto necessária.

bjs

adenilson disse...

belo texto rapaz.
parabens
mostrou d forma linda a importancia de pai e mãe e quando são mais q pais..são amigos...
parabens mesmo...
sucesso
espero vir mais vezes.

e tá convidado a vir no
www.bocadekabide.blogspot.com

abraços e ótima kuarta

BRUNO disse...

Costumo dizer que sou avesso à essas comemorações, mas em vista daqueles capitalistas selvagens que utilizam dessa data lhe forçando a comprar algo, mas adoro homenagens e belos textos assim. Meu pai já se foi, desde pequeno fui muito ligado à minha mãe, tive muitos problemas com ele, mas fica a a saudade.

Abraços!

http://tempo-horario.blogspot.com/

paginasonline disse...

Sou mãe e sei bem como é tudo isso que vc escreveu, até pq ser mãe é algo divino...
Mas em contrapartida, tem muitos pais por aí que são muito mais "mae" do que muitas espalhadas por aí que abandonam seus filhos como vemos com frequência na tv...

Acredito que os pais mereçam um lugar nessa divindade de se ter um filho.

Bela postagem, parabéns pelo blog.

BjOs

Andreia disse...

Minha mãe me manteve em seu ventre, mas meu pai me tinha em seu coração. Não vejo o pai só como um instrumento, mas ele participa sim, compartilhando ansiedade, preocupação e a alegria junto com a mãe.

mundodrive.com disse...

Boa!

palavras ao vento disse...

resumindo ma~e é tudo...belo texto parabesn...

Diego Janjão disse...

huahaua

por isso é PAI!

e claro que fica mais divertido!

O mundo de cada um disse...

Cara que palavras lindas. Você concerteza deve ser pai. E conseguiu demonstrar odo esse amor e essa vontade de demonstar o seu afeto c om palavras bem colocadas. Hoje mesmo eu numa clínica esperan do para ser atenido vi um pai abraçado a um filho, que parecia meio adoentado. Normalmente se vê mães fazendo esses papéis. Por que não pais? E me deu louca vontade de ser pai naquele momento, deve ser muito bom.

Tiago Dadazio disse...

BELAS PALAVRAS!

E HP É UMA BOSTA SEMPRE!

Wellington disse...

Gostei do seu texto! =) Meus pais melhoraram muito nos últimos anos, antes era barra aguentá-los! Só melhoraram depois que saí de casa! hihihi Mas, suas palavras foram muito legais, relacionando um monte de coisas! =)

Parabéns!

Abraços!

http://neowellblog.wordpress.com/

Gutt e Ariane disse...

Poxa, tem muitos pais por aí que são muito mais "mae" do que muitas espalhadas por aí que abandonam seus filhos como vemos com frequência na tv...

Acredito que os pais mereçam um lugar nessa divindade de se ter um filho.

Sabrina disse...

Adorei o post, Fernanda! Só hoje pude parar para me "atualizar" no Ultramuito. Homenagem merecida aos pais, sobretudo ao seu. Fica aqui o meu beijo para ele com bastante atraso e carinho. :-)

J.F. Marques disse...

Você escreve muito bem, seus textos são fáceis de ler, e prendem a atenção do leitor até o último ponto final, parabéns.

Fábio Flora disse...

Pai é o cara na arquibancada torcendo por mim; é o goleiro que me defende do mundo quando estou sob pressão; é o camisa 10 que me dá o passe certeiro quando estou em dúvida; é o atacante que faz os gols quando estou em apuros; é o treinador que me orienta, que me mostra o melhor caminho. Pai é seleção, é fenômeno, é craque. Com ele no meu time – fazendo tabelinha com Mãe –, a vitória é certa, a taça é nossa.

Cláudia Zanini disse...

Lindo o texto!
Temosque dar mto valor aos nossos pais
Eles nao sao eternos =/