28 de dez de 2008

War

Em A vida é bela (um dos melhores filmes que retratam a Segunda Guerra), o mote é o jogo: adulto judeu transforma campo de concentração em tabuleiro e se desdobra para que criança judia veja como brincadeira todo o horror que a envolve. Em O menino do pijama listrado, o mote é também o jogo – que desta vez, porém, tem como tabuleiro o próprio filme, e como peças todos os personagens. Não é jogo de damas (um dos divertimentos freqüentes do protagonista Bruno), no qual só há diferença de lado e de cores – branco e preto, sim e não. Na verdade, é xadrez o que ali se joga: além da diferença de lado e de cores, há distinção clara de papéis entre peças da mesma cor. Ainda que lutem no mesmo “time”, nem todas as pecinhas arianas podem se mover em qualquer direção. E pouquíssimas sabem exatamente o quanto terão de sacrificar em nome de seu rei – ou Führer.
Bruno, o menino “nazista” que faz amizade com o pequeno judeu anunciado no título, não passa de um peão nessa partida. Tatibitateando no mundo deliróide criado por Hitler, só pode avançar uma casa por vez. É aquele que não tem malícia para ver além, aquele que não entende – com um não-entendimento que lembra o da jovem Anna, de A culpa é do Fidel, mas de um jeito muitíssimo menos bem-humorado e muito mais ingênuo. Apesar de Bruno aparentemente estar no time privilegiado, acaba sendo, como bom peão, um dos primeiros e mais indefesos perdedores: é forçado a deixar sua casa, seus amigos, seus avós, cumprindo sua cota semiconsciente de sacrifícios (no que também lembra Anna). Inocente, mas não santo. Imperfeito, mas inocente. Uma criança de oito anos, tão perdida em seu universo nazista quanto Shmuel, o amiguinho “empijamado” da mesma idade. Ambos peões, cada um em sua própria “equipe”, não admira que se tornem as peças mais próximas entre si. Apenas algumas casas do tabuleiro – apenas alguns arames de cerca – os separam. Encaram-se, observam as diferenças óbvias, mas não compreendem as diferenças impostas.
Menos inocentes do que (mas tão iludidas quanto) Bruno, a mãe e a irmã do menino realizam outros movimentos na peleja. Gretel, de doze anos, é o cavalo; a juventude domada, lavagem-cerebrada por Hitler. Elsa, a mãe, é a dama que caminha em todas as direções: o comodismo, o incômodo, a dúvida, a certeza, o desespero. Com cada elemento em sua fileira, cada um no seu quadrado, o filme automaticamente ganha duas características: 1) o caldo, que podia entornar a qualquer momento em pieguice ordinária, não entorna, já que o enredo tem a precisão de uma disputa de xadrez; 2) o desfecho é previsível para quem analisa o jogo posto, sem com isso deixar de ser emocionante. Adivinha-se friamente o que está por vir; sofre-se humanamente pelo que será impossível evitar. Tragédia anunciada. O movimento final da batalha e, depois, o silêncio. Xeque-mate.

35 comentários:

Marcus Alencar disse...

É verdade, o xeque-mate realmente torna as coisas previsíveis pois o final que todo jogador busca mesmo que os meios para tanto sejam variáveis. Muito interessante seu olhar sobre o filme, me deixou interessando em vê-lo.

Viviane Righi disse...

Nossa...
Juro que queria fazer um comentário à altura do seu post, que foi extremamente inteligente.

A guerra, em qualquer proporção, sempre foi e sempre será um tema muito difícil de ser explicado. A saída que o autor do filme encontrou para trabalhar o tema foi fantástica!

Móó legal disse...

duvido q foi vc qm escreveu isso!
aeauheauheuaheuhauehauhuahuhauhea
tô brincando...parabéns, muito bom o texto!
metáfora é o que há!

--
www.moolegal.wordpress.com

rfafla disse...

primeiro a comentar! \o/

gostei do seu comentario do filme, vc poderia virar colunista de jornal...

Fábio Flora disse...

O olhar infantil de Bruno e Shmuel – ainda parcialmente intocado pela "sombra da razão" – mostra o quanto aquele (ou qualquer) mundo nazista não faz sentido, o quanto o preconceito não faz sentido. Um filme que todos deveriam assistir, especialmente as crianças, os futuros donos do tabuleiro. Elas ainda podem salvar o mundo e o homem antes da última rodada.

ligiaferraz disse...

ah fiquei louca pra ler o post todo, mas fiquei com medo que falasse mais do que eu queria saber! ganhei o livro de natal e quero ler antes de assistir o filme! to muito curiosa. quero logo terminar o que eu to terminando pra começar esse! e depois que eu terminar, volto aqui e leio a critica de novo, agora até o final! hehehe
beijao

greatdj disse...

Não tive a oportunidade ver o filme ainda, mas O menino do pijama listrado parece ser bem atraente e inteligente.
Jà vi A Vida É Bela e dele pude tirar grande proveito, meu pai adora este filme e vê-lo quase sempre.
O filme é lindo e mostra com uma grande beleza o cenário da segunda guerra.

André disse...

tche: vou ser sincero - nao tenho corrida para comentar um post destes - sou uma anta procurando um espacinho - eu assisti a vida é bela do benigni e achei uma bosta---nao gosto dele - filmes de guerra pela otica de crianças, que prenstem desde esperança e gloria faz tempo que nao assisto...O menino do pijama listrado nem que meu camelo me de de presente para assistir nao assistiria...nao gosto mais de relembrar a guerra e o sofrimento - hoje as coisas estao piores e nao existe armas e sim apenas ganancia. desculpa mas sou um ignorante e nao posso dar pitacos.
um grande abraço!!!

André disse...

estou novamente aqui para incomodar...nao gosto de nao comprender um texto...war...o xadrez sempre me fascinou mas eu era um porra louca...sai atacando e me fudia rapidinho - xeque...toda a guerra que criamos num tabuleiro me fascina mas dai a analogia com a guerra de verdade onde nao existem regras de nenhum tipo que me grilou. abraços!!!

Marcos Lima disse...

O mundo é um jogo, minha cara, e retratar isso em filmes já faz parte da atualidade.

Você me deixou curioso pra assistir ao filme. Vou tentar vê-lo.

Beijos
http://senhor-do-tempo.blogspot.com/

Marcio Santos disse...

esse filme deve ser mto bom heim!



Se puder passa no meu blog:

http://paginadacomedia.blogspot.com/

David Sampaio disse...

O filme "A vida é bela" é muito bonito mesmo.
Com certeza, todos se emocionaram com a lição de humanidade que o pai dá ao filho, mesmo com todas as brutalidades de uma guerra.

Muito boa sua postagem.

http://arvoreando.blogspot.com/

verossimel disse...

karamba texto excelente de mta responsa, parabens

Guilherme Santos disse...

legal
ja vi a vida é bela
varias vezes
e gosto muito

soublogueiro disse...

Tb asssisti o filme a vida é bela,
agora o outro eu nao assisti...
quem sabe eu nao pegue pra assistir

mutio bom!

Mikaella disse...

Parece ser muito interessante o filme... Apesar de eu não gostar muito do assunto, irei assistir. E teu texto, nossa! Faço minhas as palavras de todos os outros comentários. Muito bom mesmo. Parabéns.

Jack disse...

ae dps da uma passadinha la no meu blog
http://balaidenego.blogspot.com/
humor simples e pratico ;D

Alice Daniel disse...

Uma crítica plena e inteligente. Além de muito bem escrita. Parabéns!

Lucas disse...

Vou tentar ver esso filme, o livro nao pretendo ler. Mas melhor q a vida e bela e impossivel.

ana disse...

deu muita vontade de assistir...mto bom seu texto!

Oitentando disse...

Concerteza me deixou na curiosidade tambem...terei que assisti-lo!!!Muito boa a postagem!!!
Abraços!!!

Isis disse...

Cara,achei o livro ótimo agora me deu vontade de assistir ao filme!Deve ser tão bom quanto!

\ó/

Aniinhah disse...

Realmente... A vida é bela... E nos traaz surpresas ! O filme é muito lindo, e eu tbm gostei do seu Post !!

Paraabéns !!

Beeijos =*

Bruninho disse...

Cara, nunca vi esse filme

:x

Sempre vi q passa na TV mais nunca consegir pegar ele por inteiro

Um dia eu ainda vejo

XD


visite-> www.xisde-xd.com

Marcel disse...

O Xadrez é o melhor e mais completo de todos os jogos de guerra. Cada movimento tem sua explicação, sua especificidade, que se enquadra adequadamente à suposta personalidade de cada peça.

Nunca assisti "A vida é bela", mas já li muitos artigos, a maioria elogiosa. Me lembrou um outro, um pouco diferente, "Adeus Lenin".

Belo post. Espero não demorar a assistir!

Leandro Rocha disse...

Muito Bom o Blog!
Sensível e inteligente!

Posso fazer a divulgação dele no meu?

só pra lembrar: http://surtocoletivo.wordpress.com/

Bru disse...

Filmes sobre a Segunda Guerra são demasiadamente tristes, choro em todos. E "A Vida é Bela" é um dos filmes mais maravilhosos que eu ja vi.

Beijos :*

Elaine Mck disse...

Eu nunca vi o filme, mas quero parabenizar pelo post, super inteligente, com essa dica que você deu estou com vontade de assistir, esse resumo que você fez dá vontade de querer saber mais e mais .

Amplexos .

Ellen Regina - facetasdemim disse...

Não entendo nada de xadrez. Nada mesmo.

Quanto ao filme, assisti há muuuito tempo e confesso q gostei do enredo, apesar de romantizado demais. Foi linda a mensagem que passou, tanto de inocência, por parte da criança, quanto de superação, por parte do pai.

Janes William disse...

Oi, Fer! Estou aqui pq vi seu link no orkut agora há pouco.
Desculpe-me, não sei o que comentar, pois vc explicou o filme com tantos detalhes que, sem assisti-lo, não conseguirei acrescentar nada. Mas recebo sua postagem como uma recomendação, e agradeço muitíssimo! :))
Vou assistir o filme e depois retorno aqui, ok?
Um feliz super 2009 a você e a toda sua família!!
J.W.

simple_chi! disse...

uau adorei a sua análise, muito boa (aposto que teria ido bem na prova que tive sobre o livro se tivesse colocado isso!! ahhaha desculpa..) bom, achei muito legal a comparação com um jogo de xadrez, mas quando eu li o livro ele me tocou por motivos diferentes que não a guerra... posso estar viajando mas quando eu li o livro eu lembrei de como eu via as coisas na minha infância... a ingenuidade das crianças apagam as diferenças entre as pessoas, no livro vemos que para Bruno não há diferença entre ele e um judeu, nem mesmo o fato de Shmuel estar usando um pijama sujo, estar magro e com o cabelo raspado, bruno não vê isso, vê a possibilidade de uma amizade, a quando eu era criança diferenças físicas também não importavam pra mim, simplesmente porque eu não as via, e via sim uma possibilidade de brincar!! negros, pessoas com deficiências físicas, pessoas com deficiência mental, eu não as via assim, eu as via como possíveis amigos... mas aí uma dúvida que pode ser a maior besteira de todas veio a minha cabeça... "porque não é mais assim?" porque quando a gente cresce pode ver mais diferenças do que realmente existem? quantas vidas já não custaram essa mudança que vem com o fim da infância? e porquê?? tudo não seria muito mais fácil se a gente simplesmente não perdesse a ingenuidade da nossa infância? talvez nós não saberíamos a teoria da relatividade, talvez não pudéssemos construir máquinas, e nossa vida não seria tão luxuosa e complexa, mas será que não teríamos menos mortes, menos sofrimentos?

Daniel Moraes disse...

ótima análise mesmo o_o
quanto mais blogs assim eu leio, mais convícto eu fico de que não da pra mim =P

belo post.

Miriã Soares disse...

Assistirei aos filmes.
Comentário: que senso critico, que percepção aguçada vc tem!!! parabens

30 e poucos anos. disse...

O filme é excelente e o seu comentário ficou muito bom!!

Anônimo disse...

Legal!

Sempre assisto Tvs Online e Filmes Online pelo http://www.assistatvonline.net.br/

Também é muito bom!