16 de mar de 2010

Rapsódia in blue

Uma das maiores alegrias para o cinéfilo é sair da sala de projeção segurando uma pérola inesperada, recém-descoberta. Na última semana, eu e Fábio fomos os premiados. Era filme que eu, na verdade, há muito tempo perseguia, mas cujo horário só agora cruzou os meus: o ultra-adorável (500) dias com ela, estrelado por Joseph Gordon-Levitt (clone moreno de Heath Ledger) e Zooey Deschanel (clone exato de Katy Perry, com aqueles olhões espantosos que afogam a tela de azul).
(500) dias com ela não é apenas um filme fofo-alternativo como os igualmente deliciosos Cashback, Pequena Miss Sunshine e (o meu adorado) O fabuloso destino de Amélie Poulain, por exemplo. Trata-se, por que não dizer, de uma pequenina rapsódia. Rapsódia, na música, é uma colagem de melodias populares, juntinhas ao sabor do artista e não presas numa estrutura rígida. Guardadas as devidas proporções, é a definição perfeita para o simpático longa de Marc Webb. Em pouco mais de uma hora e meia de projeção, há um bocadinho de muita coisa: o recurso do narrador que reforça o tom de fábula da ação; a apresentação retrô da magnética Summer, personagem de Zooey Deschanel (por sinal, tanto o uso do narrador quanto as cenas biográficas de Summer lembram bastante o clima de Amélie Poulain); os episódios divididos pelo número de dias passados desde o primeiro encontro do casal – número este que surge ora numa tela alegremente “summer” (para os momentos felizes do protagonista Tom), ora num cenário cinzento (para seus dias de bola murcha); o musical saborosíssimo que resume o estado de espírito de Tom após a primeira noite de amor com Summer; a hilária recriação do cinema europeu cabeça que, por outro lado, retrata um protagonista confuso e deprimido... Estilices para dar e vender. Cada minuto é um flash. Destaque também para a sacada genial de, a certa altura, dividir a tela entre a metade da expectativa (de Tom) e a da realidade (do encontro). Simultâneas e ligeiramente diferentes, as versões do que teria sido e do que foi dão o tom exato do longa: o interesse do roteiro não é nem açucarar com soluções fáceis, nem azedar a vida dos apaixonados, e sim extrair desse embate sua necessária (e sustentável) leveza.
Boa parte da leveza de (500) dias com ela mora na onipresença do azul, adequadamente identificado com o “céu de verão” que a mocinha representa. Nos olhos oceânicos de Summer, em quase 100% dos figurinos da personagem, nos detalhes de sua casa, nas roupas de todos os figurantes que dançam com Tom na cena musical – lá está a cor que, em inglês, simboliza a tristeza, mas que visualmente funciona como uma lufada fresquinha. A dualidade do azul (e de Summer) é a mesma do filme: paradisíaco e algo tristonho, um quê de celestial e um quezinho de aflitivo, muito de masculino e muitíssimo de delicado, bastante de jovem e de clássico. Foi assim como ver o mar – a primeira vez, este ano, em que saímos com os olhos brilhando na certeza de termos inaugurado nosso próximo top ten. Imperdoável foi a ausência de (500) dias no top ten da Academia, ou a falta de uma indicação, pelo menos, para melhor roteiro original. Como disse o Fábio: paciência. Venceu o bege-areia, não era ano de azul no Oscar. Mas aqui em nossas plagas, distantes das pelejas americanas e já suficientemente escaldantes, nada melhor do que refrescâncias coloridas onde seja impossível não mergulhar.

18 comentários:

Janio Clever disse...

Pelo visto serei o primeiro a comentar este post, então como não sou cinéfilo e nem vi a película em questão, procurarei manter o bom senso e não falar daquilo que não sei. Por outro lado, sei quando alguém sabe do que está falando e principalmente quando ele consegue se fazer entendido naquilo que quer expressar, e este é caso do seu post.Parabéns! Com relação à 7ª arte e todas a demais formas de entretenimento, tomei uma decisão que recomendo a todos, além de atentar para a qualidade, originalidade, harmonia, etc..., o conteúdo deve passar pelo crivo de Fl. 4:8:"tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe..."
Grande abraço.
VISITE: http://enquantoehdia.blogspot.com

Vestibulando disse...

Parabéns pelo blog, realmente está muito bem moderado, com ótimos textos. Inclusive sobre o filme
(500) dias com ela. As suas referências sobre o mesmo e a boa crítica, nos fazer ter uma ânsia em assistir este filme, que para a primeira impressão de muitos, pode ser taxa como um velho filho adolescente.
Visite o nosso blog
www.blog.maisestudo.com.br

Abs
MaisEstudo.

Rafael Portillo disse...

O cinema Com Rapadura fala bem deste filme, e fiquei animado em assisti-lo. espero que em breve o Rapaduracast faça um podcast sobre este filme.

Enquanto ao seu texto, fiquei contente em saber que ainda existe gente que sabe escrever bem na internet. Você está de parabens.

Eve disse...

Muito legal, gente! Parabéns!
Estou seguindo.. beijos

http://amigoerro.blogspot.com

Frater disse...

Queridos, ainda não assisiti. Certamente o farei.
Depois de uma crítica-poesia dessas...Ah, também sou adoradora de "Amélie Poulain".
Beijos!

Mauro Siqueira disse...

"Venceu o bege-areia, não era ano de azul no Oscar." Muito bom isso!! :)

Gostei muito desse filme, o jeito de rapsódias - não tinha vista dessa forma, vlw Ultramuito! - e o tom de diário com contagem regressiva.. quem assiste já sabe que eles não fcam juntos, afinal são '500 dias", rs. Adorei a trilha sonora é especial cheia de The Smiths, sem falar nas camisas do Joy Division que o Tom usa! :D

Vanda disse...

Obrigada por vir con hecer meu blog Hei no stress, quando puder passe no meu Planeta!!

Vanda

www.planetadablogueira.com

Pobre esponja disse...

Não ouvi falar, mas farei o possível para assistir. Amo filmes, e se alguém com tanto conhecimento escreveu tão positivamente sob tal, já ganhou meu crédito.

abç
Pobre Esponja

Ítalo Richard disse...

Poxa, vou procurar por esse filme, pelo que você descreveu parece ser bem interessante. Tiro pelas boas referências Pequena Miss Sunshine e O fabuloso destino de Amélie Poulain, que adoro!

Parabéns, blog muito interessante. Vou bisbilhotar um pouco mais. Rsrss.

Abraço

www.todososouvidos.blogspot.com

Renan Ogawa disse...

Não vi o filme ainda mas você escreveu muito bem sobre ele, fiquei curioso!
visite: http://renance.blogspot.com

KASSIO KIBOR disse...

parabens pelo blog
e quanto ao filme
vou tentar ver ele.

Millena Blogueira disse...

Interessante o filme.Fiquei curiosa para assistí-lo.

Phellipe salaroli disse...

Muito bom, gostei e passarei a frequentar mais vezes! ABçs e sucesso

luiza! disse...

Ahhh, eu quero muito ver! *----*
Está nos cinemas, ou já saiu?

Wander Veroni disse...

Oi Fernanda!

É tão bom ir ao cinema ver um filme que vale a pena e nos faz pensar que valeu a pena cada centavo do ingresso ou do tempo destinado à película.

Faz tempo que não vou ao cinema, por causa do meu trabalho. Mas, assim que tiver um tempo de folga, vou asssitir esse filme que vc resenhou, ok.

Abraço

eu quero ser você. disse...

rá, agora deu vontade de assistir!

seuvicio disse...

A Zooey é irmã da Emily e se encontra na nova temporada de Bones.

kbritovb disse...

até coloquei esse filme no meu blog mas ainda num assisti