21 de mar de 2010

As cinco frases

Domingo passado, na Revista dO Globo, veio uma entrevista com Claudia Burlá, geriatra respeitada e médica paliativa (medicina paliativa – que aparece de passagem, inclusive, na atual novela das nove – é aquela que se dedica a melhorar a qualidade de vida das pessoas com doenças incuráveis). Em dado momento, ela contou o caso de uma paciente com demência, cuja filha morava no exterior devido, em grande parte, ao mau relacionamento que tinha com a mãe. A médica ligou para a filha da paciente e tascou: “Você não vai ter outra chance de resolver as pendências com sua mãe. Posso pôr o telefone no ouvido dela para você falar cinco frases: me desculpe, eu te desculpo, muito obrigado, eu te amo e adeus”. A mulher concordou, a reaproximação foi feita e, no dia seguinte, a doente morreu com esse capítulo devidamente encerrado.
O que mais me tocou na entrevista foi o poder de síntese de Claudia Burlá ao propor as cinco frases essenciais à filha pródiga. Se esse script foi de fato seguido, em uma conversa que provavelmente não durou nem uma hora, talvez nem meia, talvez nem quinze minutos – dado o estado crítico da paciente –, falou-se muito mais do que normalmente se falaria em dez anos. Às vezes, numa vida inteira. Nessas cinco frases, de no máximo três palavras cada uma, está o mais básico dos básicos de qualquer relação humana bem-sucedida: a autocrítica, a compaixão, a gratidão, o amor e a consciência de que todo segundinho merece um fecho redondo, de ouro, para o caso de ser um epílogo. O sábio roteiro de morte feito pela dra. Burlá é um dos mais belos, objetivos e completos roteiros de vida. Nem todos os to-bes de Shakespeare, nem todos os condores de Castro Alves ou a oratória de Vieira chegam perto do impacto dessas onze palavras. Tivesse eu poder, a dra. Claudia vestiria o fardão da ABL só por elas. E não haveria chá no mundo que as pagasse.
Sempre me angustiou a ideia de uma despedida tão súbita que nem desse ocasião a essas onze palavras, ou pior: que pairasse como uma lembrança negativa, com um “a culpa é sua”, um “você não tem mesmo jeito” ou até um mero “que saco!” suspenso no ar. Suspenso eternamente, sem nenhuma cena do capítulo seguinte, nenhum diálogo posterior. Uma despedida não feita, malfeita. Hoje eu sei exatamente o que espero: que quaisquer despedidas (todas as provisórias, todas as definitivas) sejam permeadas por aquelas cinco frases, por aquelas onze palavras, e naquela mesma ordem. Primeiro, a admissão dos nossos erros – porque nenhuma aproximação é feita com uma pedra na frente. Depois, a remoção gratuita (e irreversível) das pedras alheias – porque um perdão não concedido encrava no peito como uma unha que não cortaram bem. Em seguida, o reconhecimento de que o outro tem muito mais delícias do que pedras. Quando a (re)conquista já for total, nada melhor do que celebrar o momento com a frase mais inteira de todas. É o único modo de deixar os laços tão apertados que nem a quinta frase consiga parti-los. Ever.
Claro que o objetivo não é repetir as sentenças da dra. Claudia a cada instante, como um mantra enlouquecido. Mesmo porque, se não forem sinceramente sentidos, dizer os trechos a toda hora será mera canastrice. A intenção é que se os diga numa frequência saudável, sempre que as circunstâncias pedirem; nem engoli-los, nem cuspi-los a torto e a direito. Mas a intenção, sobretudo, é tirar o monopólio dos lábios e deixar essas frases penduradas nos olhos, nos braços, na vida, de maneira que a voz não tenha a exclusividade de dizê-las. E mais sobretudo ainda: é dizê-las mesmo assim, mas antecipando-as com exemplos tão concretos que falar nem seria preciso.

11 comentários:

T.aaaatý disse...

Você escreve muito bem! E adorei a imagem do post! :D Beijs

Ítalo Richard disse...

Belíssimo post! AS vezes nós somos tão mesquinhos e orgulhosos que somos incapazes de reconhecer nossos erros! As cinco frases são uma lição de humildade.

Parabéns!
www.todososouvidos.blogspot.com

seuvicio disse...

Fico com os to bes, condores e sermões, que são histórias q tocam mesmo nos momentos mais comuns, não apenas numa hora crítica em que os envolvidos se encontram altamente emocionados. No dia-a-dia as tais cinco frases perdem efeito pq se são repetidas apenas por repetir, começam a soar como mentira.

kbritovb disse...

muito legal a história

saudeecompanhia disse...

Excelente!O ser humano não gosta de assumir seus erros, mas muitas vezes é necessário.

Leandro Merlllin disse...

Excelente percepção, mas há ainda um limite tênue entre as mais diversas emoções da realidade em analisar fatos sobre a vida dessa maneira. Mas mesmo assim, serve de reflexão para perceber o comportamento humano e como não damos importâncias à determinadas coisas. Parabéns, de verdade. :)

L. Oliver disse...

a imagem e historia são muito boas; parabens.;

Raiana Reis disse...

Fui conquistada por este blog, ao menos pela leitura dos últimos posts da Fernanda, realmente tocada, por essa temática da importância da fala, do contato, das declarações, algo que eu privo muito nas relações e que é essencial, não guardando rancores e ofertando o nosso melhor a cada momento, e não apenas um último. Bela forma como vc escreve Fernanda, intensidade nas palavras e uma colcha de idéias perfeitas. Ontem por coincidencia estava assistindo o (500)dias com ela e no post anterior vc me fez reviver as delícias desse filme acentuando suas cores... Parabéns!

Pobre esponja disse...

Nossa, que emocionante...
As palavras de "carinho-amor" estão inflacionadas, banalizadas.
Médicas como esta, além de serem sensíveis para com o próximo, são geniais.
Òtimo post!

abç
Pobre Esponja

Fábio Zen e Débora disse...

A coisa da espontaneidade,de falar o que sentimos e por vezes passam-se anos,décadas e a pessoa que gostamos não sabe a intensidade disso.Gostei do post em si,só não gostei da citação positiva acerca da ABL,a qual o Sr Sarney tem cadeira e um poeta como Mário Quintana foi rejeitado quatro ou cinco vezes,aí é piada.Sucesso com o blog.

Atanervo disse...

Sabe, você falou direitinho: "o mais básico dos básicos de qualquer relação humana bem-sucedida". Acostumar a dizer essas frases e pensar no sentido de dizê-las é o básico para uma vida próspera.

Te desejo muito sucesso, você merece!

Beijos!