6 de jan de 2010

A liberdade é azul

Há uma palavra-chave para entrar na sintonia de Avatar: conexão. Definitivamente, um filme de conexões. A começar pela própria compra do ingresso – que, pela primeira vez, fizemos pela internet, já que todas as sessões legendadas 3D se esgotavam antes que conseguíssemos visitar Pandora. À parte essa pequena coincidência inicial, cada partícula da obra (aliás, do monumento) de James Cameron mostra uma face do conectar-se. O longa em si já é um surpreendente entrelaçamento de Pocahontas com Matrix, e destaca justamente as conexões que são privilegiadas nesses dois filmes: homem-natureza e homem-máquina, respectivamente. Como numa raiz de árvore, feixe de neurônios ou engrenagem de fábrica, desse eixo central parte uma infinidade de relações secundárias, num tecido orgânico e harmonioso: a conexão da criatura com o criador, de um membro da comunidade com o outro, de um gêmeo com o outro, de uma espécie com a outra, de uma língua com a outra, do amante com o amado, do racional com o irracional, do vivente com o antepassado, do sonho com a práxis, do sono com a consciência, da ciência com o objeto de estudo, do dever com a ética, do humano com o diferente, do homem com o animal, do homem com o corpo, do corpo com a vontade, da limitação com a liberdade. Quase todas as ligações do mundo cabem numa sessão de Avatar. Durante e depois: o que é puro deslumbre para os olhos vira alimento inesgotável para os neurônios.
A conexão pelos olhos – de um ser com o outro e do homem com o mundo – é, por si só, tema recorrente no filme, da primeira à última cena. Além de os constantes “nasceres” estarem representados nos movimentos de pálpebras e pupilas, o namastê da raça na’vi se traduz na frase “I see you” (“Eu vejo você”). Não é o distraído “See you” que se diz numa despedida à americana: é o ver do encontro, o ver de parar para ver; o ver de admirar, compreender e reconhecer o reflexo da divindade no olhar alheio. E é lindo constatar como a relação afinada e íntima entre todos os seres, tão decantada em qualquer ecomovie (“Nós somos tão ligados uns aos outros/ neste arco, neste círculo sem fim”, já dizia Pocahontas), ganhou belíssima tradução visual nas tranças dos na’vi – que literalmente “plugam” nos animais, na terra, nos ramos da árvore sagrada que recebe suas orações. Difícil não se lembrar da energia vital dos cabelos de Sansão. Mas é mais lindo ainda perceber o quanto essas conexões naturais, orgânicas, são superiores em força e duração àquelas realizadas entre homem e traquitanas eletrônicas, interrompidas com um mero corte de eletricidade, um simples ato de truculência. As oposições de Avatar são óbvias e antigas, sem que por isso soem batidas – o apolíneo contra o telúrico, o patriarcado contra o matriarcado, o metal contra a terra. Papo velho, cara nova: muito além de um povo “primitivo” que se conecta ao planeta, os na’vi são o planeta – em sua própria carne são azuis como a Terra, nosso planeta de nome e alma tão femininos quanto a metafórica Pandora.
É interessante o fato de que, diferentemente do que acontece em Matrix, o avatar do “escolhido” Jake Sully também é sua própria carne, e não um simples holograma. Enquanto Neo se projeta num reino de mentira e assepsia, Jake vive mais plenamente através de um segundo corpo, mais conectado à sua mente do que o original (neste, afinal, suas pernas e sua coluna estão “desplugadas”). Ao contrário dos contratantes de Jake, os quais desejam de Pandora o que ela não lhes pode dar – o metal unobtanium, que até no nome simboliza o que não pode ser obtido –, o protagonista faz ao Planeta-Mãe o pedido certo, a liberdade mental e física que lhe faltava. Ecos de Pocahontas: “Você só vai conseguir/ desta terra usufruir/ se com as cores do vento colorir...”. Apenas com a disposição de ligar-se, e não de romper, é possível conseguir do planeta (qualquer um) a resposta correta; não os males que saíram da caixa da mítica Pandora, e sim a única coisa que nela ficou guardada: a esperança.

22 comentários:

João Victor Borges disse...

ainda não vi, mas tô louco pra ir.
dizem que é muito bom mesmo,
tenho amigos que já viram 5 vezes seguidas :o

http://anpulheta.blogspot.com

LADY DARK ANGEL disse...

eu nao assisti o filme,mas visitei q comentava apaixonadamente sobre ele,me arrependi d nao ter visto

Nova Quahog disse...

vale demais pelos efeitos!
assistam no cinema!

Anny Maria disse...

Eu fui ver o filme um dia desses e é super legal , tambem achei um pouco critico em relação a destruição da natureza .. e tambem nos leva a um mundo diferente do nosso.
demais avatar .


Quando puder visite o meu blog : http://oegodaapple.blogspot.com/

ate mais. =)

Rodrigo disse...

interessante mano, parabens pelo blog.

Acesse www.relaxamane.com

abraços...

FelippeOliver disse...

A sua linha de raciocinio para com o filme,é sem duvidas a melhor que vi até agora.
Sucesso!

Silvio disse...

Muito bacana! Espero ver o filme, parece ser bom!

Forte abraço.

Neuro-Musical disse...

Ual!
Só ouço elogios em volta deste filme e estou absolutamente louco para assistir. Não tenho oportunidades, mas um dia eu vou e quero assistir no cinema!

http://cerebro-musical.blogspot.com

Niemi Hyyrynen disse...

O filme é muito bom,

rs antes eu pensava que teria algo mais haver com o desenho americano ...

:D mas é muito melhor que isso, e a estética do filme é unica

Jonathan Alves disse...

eu ainda não assisti! ,mas pretendo

Fabio Bustamante disse...

Não assisti esse filme ainda. Não sei se vou assistir, pois o tema não me interessa muito. Vejo que falam muito bem de "Avatar". Talvez eu assista por ser um filme bem elogiado.

www.botecodohumor.blogspot.com

Myriam disse...

depois desse texto eu verei o filme rsrs...

beijos

passando para retribuir a visita, obrigada e volte sempre la...

Rodz Online disse...

Assisti em 3D comprando com 2 dias de antecedencia. Achei o filme muito bom, efeitos fantásticos mas o marketing sem dúvida fez o seu papel em relação a expectativa que se criou em relação ao filme.

esdras b disse...

Mais afiada do que nunca na primeira postagem de 2010, o texto está fabuloso. É sempre um deleite ler as postagens de vcs, se já estava mto afim de ver o filme, agora estou absolutamente encantado, vou assistir o qto antes.
Espero possuir a mesma grandeza de sensibilidade pra sentir o filme assim como vc.

Abços!!!

Blog do Gustavo disse...

Bacana...to com vontade de assisti-lo!!

Pobre esponja disse...

Só se fala desse filme. Gostei de sua explanação, pois estou curioso para ver tal filme - mas em 3D.

abç
Pobre Esponja

Fernanda Alves disse...

Eu tive problemas para ver o filme, primeiro a sessão em 3D já tinha se esgotado, o jeito foi ver o filme em 2D msm. O filme é incrivel, muito bem trabalhado, fazia tempo que não via um filme assim. Eu imaginei uma mensagem por de tras dele, não seria os humanos os "americanos" que almejam o petroleo do Oriente médio?

Muito bom o filme!

30 e poucos anos. disse...

É um baita filme...vale a pena cada segundo

Millena Blogueira disse...

Não vi ofilme, mas me pareceu ser muito artificial.Não é meu estilo de filme.

Seropédicana disse...

me arrependi d nao ter visto

JannA disse...

muito bom cara!!!
sua forma de pensar, raciocinar, comentar ....é realmente intrigante!!!!!

vc usa de uma sutileza, uma clareza...

parabéns, cara!

como alguém disse aí... é um dos melhores comentários q se tem!!!!

Simone disse...

Oi recebi o link do blog de vocês por e-mail. Achei seu texto muito bom! Me arrepiei nesses três filmes que vocês citaram e que colocaram tão bem em palavras seus temas principais. Me arrepiei várias vezes durante a leitura do texto, parabéns!