19 de jan de 2009

Infinito particular

Dois sentimentos acompanham o fim da sessão de O curioso caso de Benjamin Button: “não há mais nada a dizer depois disso” e “por onde começo o tudão que há para dizer?”. Natural. A estória é mesmo um mar de yins e yangs, de opostos que dançam e se beijam. Saímos do filme paradoxais, sem conseguir dar conta do que vimos – nem com palavras, nem sem elas. Saímos silenciosos e transbordantes.
Comparações ajudam na digestão. Como em Forrest Gump, o personagem-título atravessa décadas encontrando-se com – e desencontrando-se de – sua amada, que nem sempre está na mesma vibe. Como em Big Fish, as décadas trazem personagens que vão costurando e definindo o protagonista. Como em O homem bicentenário, o protagonista tem de conviver com o descompasso entre sua trajetória e a daqueles (principalmente daquela) que ele ama. Como em O feitiço de Áquila, o descompasso permite um único instante de convergência: Isabeau e Navarre só se assemelham durante os poucos segundos que separam o dia da noite; Benjamin e Daisy, durante os poucos anos que separam a infância (de um) e a velhice (do outro).
E aí, numa esquina qualquer do enredo, começamos a matutar. Seremos assim tão diferentes dos personagens da fábula? Estarão os casais “normais” tão distantes desse romance descronológico? Por acaso, na vida “real”, funcionam sempre os amantes na mesma vibe, no mesmo fuso? Desejam e precisam na mesma hora e vez?... Absurdas as “vantagens” que nos arrogamos sobre Benjamin – e também as desvantagens. Absurda a inveja que quase sentimos da suposta bênção que é desenvelhecer aos poucos. Assim como ele e Daisy só se tocam perfeitamente por um momento – só se encontram verdadeiramente “no meio” –, a cabeça e o corpo de Button só se correspondem por curto espaço de tempo. Somente em uma fase da vida o poder, o querer e o saber se parecem. Direitinho como em cada um de nós. Eu, você e Benjamin principiamos a vida sem a independência de que gostaríamos e terminamos sem a memória de que precisávamos. Faça nosso relógio tic-tac ou tac-tic, temos sempre alguns ponteiros que avançam e outros que retrocedem. Estamos sempre velhos ou novos demais para alguma coisa. Perdemos os que amamos, aprendemos, desaprendemos, desencontramo-nos. Erramos e acertamos. Em qualquer direção, abrimos e fechamos os olhos nos braços de alguém. Eu, você e Benjamin.
Sim, O curioso caso... é um filme triste. Mas não foi feito para entristecer ninguém. É triste com açúcar. Não há ali dores ou alegrias que não sejam as de uma vida comum. Benjamin Button é um homem comum. O que o distingue é o fato de ter enxergado o incomum desde cedo, por só ter tido, como primeiros brinquedos, os olhos e os ouvidos. O que o distingue é o fato de lembrar, ao contrário de muitos, que todos se distinguem; que cada um é pleno de alguma forma; que cada qual (como o beija-flor, uma das várias metáforas do filme) desenha seu próprio infinito com as asas. E valorizar o infinito alheio não é pouco. Não há nada tão radical. Bem que dizia Picasso: leva-se muito tempo para aprender a ser jovem.

40 comentários:

Leo Pinheiro disse...

Ainda não vi, mas, como cinéfilo, não posso perder essa fábula comtemporânea!

Paloma disse...

sensacional
abs


www.doisps.blogspot.com

Francisco Amado disse...

Estou super curioso para ver este filme.

Gúh! disse...

tbm quero ver !

muito bom o texto

felipemfelix disse...

Quero ver logo esse filme... Parece interessante, apesar de nem conseguir imaginar como ele nasceu e como vaimorrer.

Priscilla Valdragon disse...

post tão perfeito que me deu vontade de assistir ao filme, comparaçoes maravilhosas!!!!
Lindo ^^

Igor Pinheiro disse...

Putz, to doisdo pra ver esse filme, gostei do post com as citações de outros filmes.
Parabéns pelo blog!

Lucas Fernandes disse...

Fernanda,

Mesmo não conhecendo o filme em questão, pude compreender e ver através de suas palavras, o quão bela deve ser a obra.

Sua análise suscita em quem lê "Infinito Particular", uma enorme vontade de ver a película.

Picasso tinha razão quanto ao fato de demorarmos a compreender a juventude e começarmos a vivê-la.

Ser jovem não é um estágio a ser completado, nem tão somente uma fase a ser vivida, é o fruto de um amadurecimento, que muitas vezes, ocorre tardiamente, mas como o raiar do dia, nasce firme, estonteante e perdura até a estrela magna pôr-se no horizonte e levar consigo, as últimas alegrias de uma juventude, tempo de claridade.

Abraços e parabéns pela análise.
______________________________________
Lucas Fernandes - editor de economia e esportes do blog Sem Fronteiras

http://semfronteirasnaweb.blogspot.com

Casa do Besouro disse...

Estou curioso sobre esse filme,
parece ser muito bem feito e com ótimos atores.


www.casadobesouro.blogspot.com

RJ disse...

belo post... descritivo, comparativo e rico em detalhes que passas despercebidos por muitos criticos normais de cinema (pessoas normais que dão suas opiniões magras e ralas acerca de uma obra, filme, etc)...

parabens pela forma de escrever, pareceu-me alguém que entende muito da área! abraços!

PROFESSOR ADEMIR disse...

Olha car, teu texto me fez lembrar de uma pesquisa que estava vendo um dia destes onde o protagonista tentava provar que todo mundo precisa de uma porção de ficção diária, esta é a explicação de as novelas darem tão certo!

Liipee disse...

Eu já vi e recomendo..
gostei muito do filme.
e sempre que puder irei assistir de novo e de novo.
amei mesmo..
:)


abraço !

e de lá tiramos várias lições de vida..
disso sabemos=D

J. C. David disse...

ótimo texto, não assisti o filme, mas após essa critícia, vou tentar assisti-lo o mais rápido possível.

Marcio Santos disse...

Vale a pena ver esse filme so pela enfase da historia...rs

mas com certeza verei de piratao mesmo...rsrs



Se puder passa no meu blog:

http://paginadacomedia.blogspot.com/

30 e poucos anos. disse...

Ainda não assisti mas irei assim que possível pois as críticas tem sido muito boas.

Maranganha disse...

Esse é um filme que desejo assistir. Com certeza esse filme, e o "Ensaio sobre a cegueira", irão concorrer ao Oscar em 2010, pode escrever o que digo.

Jonathan disse...

Tenho muito interesse em ver este filme. É uma historia do inicio dos 20, mas é atualissima!

soublogueiro disse...

Oi Fábio, acredito ser um filme triste mesmo esse que o Brad Pitty atuou. Eu chorei no "Homem Bicentenário" as 4 vezes que assisti.
Vou assistir esse!!

indicoesse.blogspot.com

Pamela disse...

Adorei o que você escreveu *-*
É verdade, to loca pra olhar esse filme. é um caso a ser refletido.

http://paaah-kenne.blogspot.com/

Kacau disse...

Parabéns, vc escreveu perfeitamente o sentimento que fica quando o filme acaba, fiquei horrorizada quando Brad não ganhou o Globo de Ouro e olha assisti quase todos os filmes que estavam ali concorrendo com seus atores e atriz, acho que umas 3 pessoas falaram que sentiram a mesma coisa quando assistiu Forrest Gump.

http://messnatural.blogspot.com/

Danny disse...

Mtoo bom seu blog.

Parabens.

Ricardo Thadeu disse...

Muito interessante sua resenha (?).
O texto não é cansativo e as comparações foram pertinetes.


Até a proxima.

Lais Adelita disse...

ahah segundo post q escrevem sobre esse filme
to doida pra ver!!!

deve ser mara

http://cronicasdesafira.blogspot.com/

grupo gauche disse...

poxa, agora quero assistir!!!

Lucas disse...

Preferi não ler nada.
Vou assistir primeiro depois volto. :D

Rozangela disse...

Ai, estou louca p/ ver esse filme!
Beijinhos!!!!
http://cgfilmes.blogspot.com/

Thamara disse...

Huum, ainda não tive a oportunidade de assisti-lo.. mas parece ótimo!

bjs

Guto Pires disse...

este filme merecia mais sorte no oscar, provavelmente vai ganhar oscar menores.
deve ser um lindo filme.
DAVID FINCHER é o Garrincha dos video clipes.
vejam o meu blog.
http://decada00.blogspot.com/
valeu.

Filipe Ferminiano disse...

Este é um belo filme

www.filipeferminiano.com

Juka disse...

estou nem um pouco afim de ver esse filme, alias, todo filme q faz o tipo 'oscariano' eu odeio. Bom, pra qm gosta, boa sorte ^^

Onaldo disse...

Fernanda,
Com maestria e mão leve você nos dá uma boa visão do filme, sem nos roubar a imaginação e isso é muito especial!
Grato, Onaldo

Moderador disse...

nao curto filmes do tipo mais a sua narracao foi muito boa

Evandro disse...

mt bom!

Ana Lucia Nicolau disse...

valeu a dica.
Interessante como você aborda a trama...

F. Grijó disse...

Fernanda, ainda não assisti ao filme, mas a idéia de morrer sem lembranças - que vc cita - é terrível. Busquei o texto em que o filme se baseia. Lerei após assistir na telona.
Conversaremos depois.

Casa do Besouro disse...

Realmente, Leila que era mulher de verdade, não "Amelia" como dizia a musica dos demonios da garoa,né?
huahuahuauhahuahuahua

Tem irmãs sim, mas nenhuma tem a sua mesma maestria e magnitude.
Leila é simplesmente unica.


www.casadobesouro.blogspot.com

Fábio Flora disse...

"Benjamin Button" é de fato um filme que nos deixa silenciosos e transbordantes, como bem disse a Fernanda. Tem um quê (ou vários) de fábula, fantasia – mas a sua essência é a vida e tudo aquilo que ela pode ser, tudo aquilo que ela pode nos dar ou tirar. Se nascemos velhos, se nascemos diferentes da maioria, isso é apenas um detalhe. O tempo está aí para mim, para você e até para Benjamin Button. Talvez a metáfora que mais tenha chamado a minha atenção – uma das muitas – é a de que levamos muito tempo, às vezes a vida inteira, para aprendermos a ser jovens e enfim atingirmos a chamada maturidade.

Rozangela disse...

Ele está concorrendo a várias estatuetas. Estou louca p/ assistir.
Beijinhos!!
http://cgfilmes.blogspot.com/

Rozangela disse...

Adoro o Brad e espero assistir o mais rápido possível! Acho que vai ser no domingo que vem, pq tenho que levar minha filha p/ assistir o do ratinho que adora ler ao invés de comer os livros.
Beijinhos!!
http://www.cgfilmes.blogspot.com/

Ananda disse...

Ainda não assisti, mas vou procurar ver.
Não sou fã e nem critica de filmes portanto não ouv falar deste, mas vou procurar pra assistir
:D



http://opniaoinutil.blogspot.com/