21 de ago de 2010

Meu limão, meu limoeiro

Deu no jornal, há pouco mais de uma semana: garotinha americana de sete anos vai pagar as próximas férias dela e da mãe (na Disney!) com os quase dois mil dólares que conseguiu vendendo limonada. Tudo começou quando a pequena Julie Murphy montou sua barraquinha em um festival de artes. Malvadamente, autoridades sanitárias fizeram da limonada um limão: interditaram a banquinha porque a menina “não tinha licença para operar como restaurante”. Se a microempresária não suspendesse as vendas, seria multada em US$ 500 – fortuna astronômica, considerando que cada copo do refresco custava módicos 50 cents. Julie saiu aos prantos do festival e o país chorou com ela. Comoção. Debates acalorados na internet.
Penalizado, o diretor do conselho administrativo da região adoçou o suco, pedindo desculpas pela burocracia agressiva e defendendo a venda de limonada como tradição dos americaninhos. O caso evidentemente ganhou a mídia, que acabou por fazer do limão um limoeiro: uma estação de tevê local e uma loja de pneus patrocinaram nova barraquinha para que Julie vendesse a bebida durante uma tarde. Os frutos de US$ 1.838,31 vão render dias suculentos em terras de Mickey, nesse finalzito de agosto.
A notícia marcou um triplo X no meu coração. Em terceiro lugar, por causa do exemplo de empreendedorismo que é bandeira dos jovens americanos de classe média. Trata-se, é fato, de uma nação financeiramente violenta – mas o jeito como a coisa termina, nas arenas de Wall Street, não é motivo para se deixar de admirar seus bons inícios. Ianquezinho que é ianquezinho não se pendura apenas em mesada de mãe: corta a grama da vizinhança, tira a neve da calçada, entrega jornal no quarteirão, se vira baby-sittando os filhos da professora. Faz a América – ainda e sempre. Não deita em berço esplêndido de cristal até os 22 anos (ou eternamente), aguardando o beijo que o acordará para o sol de um novo mundo.
Em segundo lugar, fiquei alegremente impressionada com a atitude da tevê e do comércio local em relação a Julie. Não, não vou falar de clichês que envolvam peixes e varas de pesca – pero que los hay, los hay. Quantos resistiriam à tentação de consolar a garotinha chorosa com uma boa e bem publicitária viagem (ou LCD, ou bicicleta, ou pirulito de cinco metros), que promovesse a marca em todos os sites e canais? E que moral a menina tiraria de uma fábula que lhe entregasse um castelo pelo preço de um beicinho? Em vez de virar mascote de luxo nas redondezas, a pequena Murphy ganhou de volta exatamente o que queria, exatamente aquilo por que chorou: o trabalho numa barraquinha de limonada. Se saísse de casa sonhando vender limonada e, sem ter vendido limonada, voltasse com um par de ingressos do Magic Kingdom, ela talvez desembestasse a crer em contos de fadas, mas dificilmente creria neste mundinho que é a real world after all.
O que me seduziu na notícia em primeiríssimo lugar, porém, foi a crença em contos de fadas (por que não?) do nosso real world. A capacidade de transformar moeditas de 50 centavos em chapéus de orelhinhas redondas, de virar uma banquinha de refresco em Castelo da Cinderela, com o simples bibbidi-bobbidi-boo de uma tarde inteira de labuta. Apesar do sobrenome, Julie Murphy é a embaixadora das possibilidades felizes. Daquela mágica que não precisa de mágica, que não transfigura abóboras: paga a própria carruagem com a paciência de espremer e adoçar limões. São coisas excelentes, sim, as histórias de varinha e condão – mas indispensáveis mesmo são as (pequenas?) maravilhas que nascem à prova de doze badaladas.

12 comentários:

eu... disse...

essa garotinha eh um loOsho, imagina quando crescer ;)

http://drehluvz.blogspot.com/

Igor disse...

Que irônico né? Agora a menininha vai pra disney. Muito legal este post.

Macaco Pipi disse...

meu irmão, meu limoeiro
é isso

Guilherme Lombardi disse...

eu vi a historia dessa garotinha, ela é fantastica!

Gabriel Pozzi disse...

caramba, fazia tempo que eu não visitava o ultramuito!
gostei muito do texto... normalmente quando eu leio alguma notícia eu logo crio uma opinião, tiro uma conclusão, e se permanecerei com ela ou não é outra história...
mas por algum motivo eu não tirei conclusões com essa notícia, o que é estranho, mas segui lendo o seu texto e acabei "descobrindo" minha opinião!
é nessas horas que vejo que a leitura é importante, mesmo eu, que sempre tiro minhas conclusões, acabei me deixando levar por seu texto e acabei compartilhando de sua opinião! :)
parabéns por isso!

http://songsweetsong.blogspot.com/

Rogerio disse...

vou começar a vender limonada tambem ...rsrsrs,,,,

Micael araújo Andrade disse...

A propaganda é a alma do negócio!!!!!!!!

Dani disse...

NOSSA ! Menina sortuda UHUHEUHEUHE

Melhor Free disse...

Se saber fazer um markenting bom fica rico!!

Melhor Free

Wander Veroni disse...

Que legal essa história! É um exemplo de empreendedorismo, força de vontade e de trabalho. Aliás, aqui no Brasil, as pessoas esquecem que trablho vem antes do sucesso, o que é uma pena.

Abraço :)

Pensamentos á toa disse...

Nossa, aqui no brasil faria esse sucesso se colocassem umas doses de pinga dentro da limonada. haha. Triste não?



http://larissagurgelpat.blogspot.com/

Jefferson Reis disse...

Que garotinha guerreira. Adorei ler sobre ela. Essa coisa de vender limonada, cortar a grama do vizinho, dar uma de babá, sem dizer naqueles grupos que saem nas ruas vendendo chocolates, os escoteiros, faz com que as crianças cresçam mais fortes, com auto-estima. Falta isso aqui no Brasil.