Há exatos 101 anos, nascia na pequenina e mineira Cordisburgo – “só quase lugar, mas tão de repente bonito” – um menino que se chamava, como tantos outros brasileirinhos, João. “Um chamado João”, conforme diria a ternura de Carlos Drummond de Andrade. Mas esse menino não era como tantos outros brasileirinhos que nasciam, cresciam e velhavam assim, muito cronologicamente. Joãozito (apelido de infância) aconteceu de vir ao mundo sob um relógio que, desconhecendo tanto o de Benjamin Button quanto o da maioria dos mortais, não ia nem para trás nem para frente: pousava. Os minutos de Joãozito pousavam no quando e no onde os olhos do menino queriam, numa gula ininterrupta pelo mundo e suas mundices; pousavam na possibilidade, na simultaneidade. Na inclusão. Joãozito foi plenamente criança sem deixar de estudar com fascínio – geografia, história, francês e qualquer outra sabença que lhe caísse na vista. João foi plenamente adulto sem deixar de se divertir com o desenho Dumbo e com o fato de andar de elevador. Médico que foi diplomata e escritor, verdadeiro ocidental enfeitiçado pela metafísica oriental, criador de Riobaldo e Diadorim que era Papai-Beleza de Vilminha e Agnucha, homem de gabinete que se aventurou mais de uma vez pelo sertão, intelectual que curtia Agatha Christie, o João que era Joãozito também se chamava Guimarães Rosa.27 de jun. de 2009
Um chamado Joãozito
Há exatos 101 anos, nascia na pequenina e mineira Cordisburgo – “só quase lugar, mas tão de repente bonito” – um menino que se chamava, como tantos outros brasileirinhos, João. “Um chamado João”, conforme diria a ternura de Carlos Drummond de Andrade. Mas esse menino não era como tantos outros brasileirinhos que nasciam, cresciam e velhavam assim, muito cronologicamente. Joãozito (apelido de infância) aconteceu de vir ao mundo sob um relógio que, desconhecendo tanto o de Benjamin Button quanto o da maioria dos mortais, não ia nem para trás nem para frente: pousava. Os minutos de Joãozito pousavam no quando e no onde os olhos do menino queriam, numa gula ininterrupta pelo mundo e suas mundices; pousavam na possibilidade, na simultaneidade. Na inclusão. Joãozito foi plenamente criança sem deixar de estudar com fascínio – geografia, história, francês e qualquer outra sabença que lhe caísse na vista. João foi plenamente adulto sem deixar de se divertir com o desenho Dumbo e com o fato de andar de elevador. Médico que foi diplomata e escritor, verdadeiro ocidental enfeitiçado pela metafísica oriental, criador de Riobaldo e Diadorim que era Papai-Beleza de Vilminha e Agnucha, homem de gabinete que se aventurou mais de uma vez pelo sertão, intelectual que curtia Agatha Christie, o João que era Joãozito também se chamava Guimarães Rosa.21 de jun. de 2009
Páginas recolhidas
Machado completa hoje 170 anos. De vida. Aproveitando a data, vai aqui uma boa dica de leitura para quem não conhece ou conhece menos do que gostaria o "bruxo do Cosme Velho": Machado para jovens leitores (EdUERJ, 2008), uma antologia de textos seus representativos de todos os gêneros visitados pelo autor. A seleção foi feita pelos professores Ana Cristina Chiara, Antonio Carlos Secchin, Denise Brasil e Ivo Barbieri.17 de jun. de 2009
De volta para o futuro
12 de jun. de 2009
Cinzinha básico
Na discussão velha e boba, briga-se para decidir oficialmente que cor teria o amor e, por consequência natural, o namoro: vermelho (picante, combustível)? rosa (delicado, rendadinho)? azul (etéreo, flutuante)? Eu particularmente acho que, em se tratando de palheta, a coisa é simples: o famigerado amor tem a cor que for de preferência do freguês – ainda que seja aí um amarelo-omelete ou um roxo-batata. Não importa o tom do modelito que seu namoro vai usar na estação. Importa que se for namoro mesmo, propriamente dito e de escritura lavrada, o espírito do dito-cujo vai ser cinza.7 de jun. de 2009
Outro dia especial
3 de jun. de 2009
Oliver e nós
Na última segunda-feira, chegou a má notícia da clínica veterinária: o coraçãozito do nosso Oliver não aguentou os 12 anos e oito meses de idade, as problemices de saúde e parou por volta das cinco, cinco e meia da manhã. Pai, Mãe, meu irmão e eu choramos; Pai, mais desesperadamente. Pai que cuidou dele como se cuida de um filho, com dedicação extraordinária – especialmente de fevereiro pra cá, quando não conseguia mais levantar sozinho e caminhar, por causa de uma fraqueza nas patinhas traseiras.
Não é nada fácil olhar pra casinha dele vazia, pra bolinha jogada no chão, sem vida. Perdemos um pedaço da gente, uma parte mais que importante das nossas vidas. Encerramos outro capítulo da nossa história. Oliver me acompanhou no último ano do ensino médio, na faculdade inteira, no mestrado, nos primeiros anos de profissão. Eu tinha 16 anos quando ele chegou aqui, no colo de Mãe, todo pequeno. É incrível, jamais cheguei a tocar nele, no início tinha até medo. Mas os anos me fizeram entender cada olhar, cada gesto, cada latido. Nos últimos tempos, estive ainda mais perto dele (fisicamente mesmo), sentado ao seu lado, enquanto Pai lhe oferecia a comida, fazia a fisioterapia, trocava os curativos na patinha, dava banho, tudo isso diariamente, como num ritual.
O fato de eu ter convivido com o Oliver e de ter vivido a relação que a família inteira desenvolveu com aquele anjinho que não pedia nada, a não ser carinho (e que a mãozinha de Pai coçasse suas orelhitas sempre atentas), me fez uma pessoa melhor, fez nossa família uma família melhor, de um modo que ainda não sei ao certo. O que eu sei – e agora sei mesmo, (in)felizmente – é que os seres não ficam "encantados", como dizia João Guimarães Rosa. Eles morrem, deixam muitíssima saudade e, se tivermos sorte, uma boa história para toda a vida.