5 de abr de 2009

Tudo ao mesmo tempo agora

Em recente coluna na revista Veja, Lya Luft mandou um daqueles textos pelos quais se baba, por cuja autoria se dá um boi. Arrasou. E veio ao encontro de uma certeza que não está, porém, isenta de angústias: a certeza de que não adianta xerocar desejos públicos nem fazer importação de objetivos alheios. No texto, chamado “A mentirosa liberdade”, Lya menciona ultrabacanamente o que seria a síndrome do “ter de”, uma praga de nossos dias: “Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas...”. Sem dúvida. Num tempo em que os maiores recursos tornam as possibilidades mais ricas e várias, não ganhamos mais páginas para escrever; ganhamos um roteiro a cumprir. Saímos da vida para entrar numa gincana.
A lista de tarefas é polpuda. Você (para ser um você que preste) tem de ser bonito (relação de produtos, tratamentos, academias e exercícios em anexo), tem de ser descolado (relação de filmes, livros, shows e viagens obrigatórias em anexo), tem de ter mestrado até os 25 anos, doutorado até os 30 anos, uns dois MBAs já há muitos, promoção para a vice-presidência até os 34, marido (ou esposa) até os 35, dois filhos apolíneos até os 37. Claro, o ideal mesmo seria fazer tudo isso até os 23. Você tem de conhecer toda e qualquer função do celular – e se o seu só serve para aquilo que serve um telefone, você é um dalit impuro, ignominioso e desprezível. Tem de saber o que é blackberry, bluetooth, iPhone, mp6, mp7, mp8, programar qualquer espécie de DVD sem ler o manual, já ter baixado pelo menos 5.376 músicas da internet, ser no mínimo um webdesigner amador, colocar o notebook na bolsa da praia, checar e responder a e-mails no cinema. Tem de estar – como disse alegremente o comercial a que assisti ontem mesmo... no cinema – conectado o tempo todo. E ai de você se ficar inacessível por quatro minutos. Capaz de dar divórcio, de ser demitido, de a empregada se suicidar, de o filho precisar de terapia. Como assim, a bateria arriou? como assim, estava dormindo? ou pior: estava almoçando? E você almoça sem o celular?? Divórcio, claro. Impossível conviver com uma pessoa tão rebelde à urgência alheia. Pior: que nem sabe os motivos do aquecimento global. Pior: que nunca ouviu Amy Winehouse. Pior: que nem é mais jovem!! já tem 27 longos anos – e seis meses!...
Na antiguidade de uma década atrás, começávamos o ano com uma listinha de promessas. Atualmente o principiamos com uma lista de material. Cada janeiro traz novas, moderníssimas obrigatoriedades, como a troca de cada aparelhinho que já saiu obsoleto da loja, ou a reserva (para setembro) no restaurante que está bom-ban-do (e em março, claro, já estará etiquetado com a setinha “desce” em qualquer revista). Sobra tão pouco para nós, sobra tão pouco de nós. Tão pouco tempo, e não meramente para viver com propósito: para viver de propósito. Para ter qualquer idade com 100% de certeza. Para ter qualquer profissão com direito a dúvida. Para não ser feliz compulsória, e sim gratuitamente – mesmo que com dificuldade, porque também se tem direito à dificuldade. Sobra tão pouco tempo para termos tempo – pois passamos o tempo todo não o tendo (tê-lo pega mal). Somos tidos. Pelos bens, pelas urgências, pelas tantas necessidades emprestadas, pelas muitas vontades absorvidas, pelos complexos plantados, pelas supostas verdades semeadas (diferentes daquelas da semana anterior), pelos sentimentos farmaceuticamente encapsulados – somos tidos: voz-passivamente. Numa vida sem quintal, sem balão azul; uma vida de plástico que, como diria Marina Colasanti, “aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma”.

35 comentários:

fimdotedio disse...

"Na antiguidade de uma década atrás, começávamos o ano com uma listinha de promessas. Atualmente o principiamos com uma lista de material."

a mais pura verdade

TAIS MOREIRA disse...

Hehehehe...Ficou bem legal, mas...essas tarefas, pra mim, são muito estranhas, tipo, rigorosas, sei lá...rsrsrsrs
Parabéns pelo blog!
Beijos

Wander Veroni disse...

Oi, Fernanda! A Lya Luft escreve super bem mesmo. Parabéns pela crítica que vc escreveu sobre esse lance de viver de aparência ou se importar em excesso com o consumismo. É muito mais fácil ser do que parecer.

Abraço,

=]

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http://cafecomnoticias.blogspot.com

Euzer Lopes disse...

Fernanda...
Uma década atrás eu tinha um computador e 90% dos meus amigos não me escreviam por não terem internet.
Telefone celular? Não era necessário.
Quer saber de uma coisa? Vou ser sempre um feliz excluído desta tal sociedade, porque quem quiser me acha no telefone fixo.
E outra coisa: no fim de semana eu espero estar (com o perdão da palavra) TREPANDO e se algum aparelho tocar em minha procura, vai morrer de tocar.
Se for alguém querendo me avisar que um parente morreu, que avise depois de duas horas... Afinal, morreu, está morto, só falta enterrar.
Por isso que eu ainda sou um homem do século passado.

Leo Pinheiro disse...

O seu post é paradoxal, exatamente uma antítese (proposital?)do que a Lya propôs no texto dela!

Rafa Amaral disse...

Acho a Lia Luft, junto do Pompeu de Toledo, os únicos colunistas ainda sérios e que fazem valer a atenção da Revista Veja!!! Abraçosss

C. disse...

Vamos ver até onde isso vai nos levar...

www.casadobesouro.blogspot.com

Mayna disse...

Na minha lista de tarefas está: Não ter de: seguir os padrões convencionais impostos pela socidade.

E sim: Ter de ser feliz e fazer o que me dá prazer...


http://maynabuco.blogspot.com

Lizzie disse...

Concordo perfeitamente.
Aliás, há muito venho dizendo isso e o que recebo são críticas de que sou "alienada" ou que "nado contra um sistema". Não nado contra um sistema. Nado contra o que as pessoas querem fazer do que esse sistema faz com elas. Nado contra toda essa hipnose coletiva.

Um abraço!
www.lizziepohlmann.com

jaka disse...

ate o tempo tem tempo pra dar tempo.

Rubens disse...

muito bom...
vce pega bons e os analisa muito bem!

Daniel Leite disse...

Perfeito.

As exigências são tão fortes que se tornaram implícitas. Não é mais necessário que alguém cobre de nós o cumprimento desta lista gigante. Nós nos policiamos, fazemos a avaliação da própria vida e, pior, estabelecemos um monte de necessidades a cumprir bem ilustradas pela noção de que quem não tem um perfil no Orkut, na realidade, é um E.T.. O caráter superficial da vida pode aparecer em vários âmbitos: familiar, jornalístico, esportivo, econômico. E, em todos eles, estas demandas que robotizam o ser humano tornam a vida mais chata e ignoram as especificidades de cada pessoa. Sem clichê, é preciso rever conceitos.

Gostei muito do blog de vocês. Já adicionei aos meus favoritos.

Abraços!

Daniel Leite
http://repercutiu.blogspot.com
http://pordentrodomundodabola.blogspot.com

garra disse...

vc analiso muito ben

se puder
http://sonabrisa.nomemix.com/

Mafia171 disse...

otimo texto, realmente ela merece estar em uma grande revista como a veja

Ronaldinho disse...

pois é, o "passado atual" é tão longincuo quanto o "passado distante"

Há dois segundos não estava em seu blog, agora estou, as coisas são rapidas demais e corre-se mais do que se imagina.

Rubens Rodrigues disse...

Não li a coluna da Lya Luft, aliás, não leio. Mas agora vou ler =)

Cara, muito bem escrito seu texto, vc foi tão realista que muitas vezes pude associar certas situações a conhecidos.

Parabéns pelo blog!!!


www.poesiainconstante.blogspot.com

Junior disse...

as coisas que eram para economizar nosso tempo gasta-o todo. tecnologia, capitalismo, a mídia, td isso era para fazer nossas vidas melhores, mas acabaram controlando-a. mas nem td mundo eh assim, sabe? (e nao soh por falta de dinheiro!). gostei do seu blog, depois passo aqui de novo.
-Jr

luiz disse...

muito legal
se puder
http://sonabrisa.nomemix.com/

30 e poucos anos. disse...

Tenho essa veja mas não li essa reportagem...muito boa mesmo.;

Sandro S. Sorte disse...

Lya luft
as vezes ela presta!!!

Adriano disse...

acho que no nosso mundo atual há uma tremenda confusão entre o ser e o ter.
não nascemos para ter mais títulos, dinheiro, bens...

nascemos para ser mais solidários, felizes...

bom, penso assim.

abraço, adorei o texto

Clari... disse...

é... A pós-modernidade é implacável... rsrsr

;*

Lucas Sepúlveda disse...

Na verdade, é que as pessoas tem um falso padrão de felicidade. Pensam que felicidade é ser tal pessoa, fazer tal tipo de tarefa, ter tal coisa. Colocam limitações na suas vidas, para depois ficar gritando e reclamando por liberdade, ou pior: por felicidade.



http://quartodealuguel.blogspot.com/ .

factóide disse...

Genial Fernanda é isso aí

Viviane Righi disse...

Espetacular! E o texto ficou nota 10!

Hoje em dia, muito mais do que antes, as pessoas estão muito mais preocupadas com o "ter" do que com o "ser". A vida anda muito louca - e corrida, é verdade.

Mas o que não dá é nos entregarmos de corpo e alma a essas tecnologias, esquecendo-nos que existem outros aspectos da vida. Muito importantes, por sinal.

Abraços!

Mass disse...

Olá, gostei muito do seu blog! parabéns

Estou seguindo seu blog, se puder siga o meu!

http://tudo-comentado.blogspot.com/

Rodox disse...

Você tem de conhecer toda e qualquer função do celular – e se o seu só serve para aquilo que serve um telefone, você é um dalit impuro, ignominioso e desprezível...

Eu penso da mesma forma que você, acho incrivel como o mundo esta sendo vencido pela tecnologia, eu ainda acho que nunca dominaremos tal feito e também não teremos nunca um termino para esta crescente constante que é a tecnologia. Se hoje você compra um Deskotp ou laptop top de linha mês que vem já tem outro melhor e assim o circulo vicioso continua. Eu hoje consigo passar a maior parte do tempo desconectado e mesmo no começo achei ruim mas agora é uma dadiva que poucos hoje em dia consegue fazer. Muita gente viveu bem sem a intenet atés o criador da Wide World Web chegar como não poderemos viver agora?

Um dia será como diz a Pitty em sua musica "Admiravel chip novo"

Agradeço pela visita no proibidão espero ver-suas palavras mais vezes nos comentarios daquele site.

CG FILM PICTURES disse...

Belo texto, concordo absolutamente com tudo escrito. Somos consumitas compulsivos, no tocante a tudo mesmo, a palavra de "ordem" é ter( roupas da moda, corpo de manequim, últimos lançamentos de eletrônicos e etc). Isso em parte culpo as propagandas, que convenhamos , até nos blogs nos deparamos.
Beijinhos de
Rozangela Melo
Visite nosso site, fazemos cinema amador.
www.cgfilmpictures.blogspot.com

Fábio Flora disse...

Tenho de conhecer Paris, tenho de atravessar a Abbey Road (como os Beatles), tenho de voar de balão, tenho de visitar uns castelos, tenho de embarcar num cruzeiro, tenho de assistir a uns musicais na Broadway, tenho de fazer rafting novamente, tenho de voltar a Orlando muitas vezes, tenho de brincar numa festa ploc, tenho de montar um apê bem bonito e aconchegante. Tudo isso – e muito mais – ao lado da Fernanda, claro. O resto? Ah, o resto é blackberry, bluetooth, iPhone, mp6, mp7, mp8...

Lemon Blog disse...

Seu texto é bom mas a lya luft é pessimo...
A humanidade evolui, é dado cientifico que cada geração tem o QI maior que a outra devido aos estimulos crescentes.

Tenho celular com varias funções mas não me importo com a maioria delas e as que importam não precisei de manual.

Lya luft continua com o seu textinho raso de auto-ajuda e criticas sem sentido.

Antonoly disse...

Excelente post!
gostei muito!
Valeu!

Dário Souza disse...

Fiz uma redação sobre o consumo semana passada, mas esse post sintetizou tudo que eu queria ter dito e nao pude pelo limite de linhas.Realmente o ter está transformando o cidadao em um ser alienado, as pessoas nao se importam umas com as outras e sim com o próximo objeto da moda.é triste.

Hique disse...

Por isso que vou contra tudo isso citado, e sou considerado do-contra e radical.

Nat Valarini disse...

Bom dia!

Análise interessante!

Ontem quase tive um confronto com minha chefe porque tirei meu horário de almoço, crê?

Sobre a vida moderna, eu acho importante que a pessoa passe a adquirir conhecimento e se atualizar, afinal, o mundo gira e as pessoas evoluem.

Ficar fazendo beicinho bancando o senil ranzinza anti-tecnologia não dá. Ao mesmo passo que é de extrema importância que o ser humano procure respeitar alguns limites e prezar o seu bem estar.

Kiso


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http://garotapendurada.blogspot.com/
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Nely Ladislau disse...

Adorei a abordagem de vcs sobre o texto.
Parabéns pelo blog, é super bacana!
Prometo passar sempre por aqui.
Paz!